As desconcertantes surpresas de Deus

Quando Bento XVI proclamou o “Ano Sacerdotal”, houve todo tipo de reações. Desde aqueles que acolheram a ideia com alegria e entusiasmo, até aqueles que a criticaram ou ficaram “com um pé atrás”. Entre as críticas, estava o medo de que essa iniciativa viesse reforçar o clericalismo na Igreja, dificultando cada vez mais o tão sonhado protagonismo dos leigos. Outra preocupação é que a celebração do Ano Sacerdotal se transformasse numa empreitada ufanista, com celebrações solenes, homenagens, festas, alimentando um certo ‘endeusamento’ dos padres, uma idealização exagerada da figura do sacerdote.

Mas Deus sabe muito bem do que precisamos, mesmo antes de o pedirmos (cf Mt 6,8). E foi assim que Ele nos deu uma verdadeira ‘rasteira’. Como fez com São Paulo, nos derrubou do cavalo, nos fez beijar o pó, para que possamos enxergar melhor e redescobrir o caminho. Foi isso mesmo. Em pleno Ano Sacerdotal, pipocaram por toda parte os escândalos de abusos sexuais e pedofilia, foram ressuscitadas coisas do passado que nos envergonham, brotaram aos montes acusações, processos, vídeos constrangedores, notícias sensacionalistas, reportagens tendenciosas, questionamentos sérios. Nem o Papa escapou de todo esse rolo compressor que avança sobre a Igreja, maculando ou desmascarando a sua imagem. Muitos padres, inclusive jovens, foram assassinados. Outros foram vítimas de violência. O clero passou a ser visto por muitos com desconfiança.

Para quem esperava um Ano Sacerdotal festivo, marcado por celebrações e encontros, o que se viu foi bem desconcertante. Alguns podem até se deixar levar por uma certa frustração.

Mas nada acontece por acaso. “Tudo concorre para o bem daqueles que amam a Deus” (Rm 8,28). E isso nos faz crer que tudo o que vem acontecendo revela o carinho de Deus para conosco, o cuidado de Jesus Cristo com a sua Igreja. Certamente, esta foi a melhor maneira de se celebrar o Ano Sacerdotal, que traz como tema central a FIDELIDADE. Fidelidade a Jesus Cristo, que instituiu o sacerdócio enquanto lavava os pés dos discípulos, se doava de maneira plena, revelava um amor apaixonado, deixando no coração deles aquela inquietante pergunta: “Compreenderam o que eu fiz?!” (Jo 13,12). Fidelidade a Jesus que dizia: “Felizes de vocês se os homens os odeiam, se os expulsam, os insultam e amaldiçoam o nome de vocês por causa do Filho do Homem (…). Ai de vocês, se todos os elogiam” (Lc 6,22.26).

O fato de a Igreja ser desnudada e apresentada ao mundo com toda a sua miséria pode nos fazer muito bem. Em tantos momentos da História, ela já se aliou ao poder, sentou-se nos palácios e nos banquetes dos reis. Já experimentou relações promíscuas com os que exploravam e oprimiam. Apresentou-se ao mundo como “Mestra da Verdade”. Não se pode negar o bem que a Igreja fez, faz e fará à humanidade. Em muitos momentos da história, foi a maior expressão da promoção da vida, da luta pelo direito e pela justiça, a mãe para os órfãos, o consolo dos pobres e sofredores. Mas também não podemos nos esquecer de que “carregamos esse tesouro em vasos de barro” (2Cor 4,7). Esta é uma ótima oportunidade para voltarmos às origens, aceitando a ideia de sermos uma Igreja pobre, pecadora e perseguida, mas fiel e samaritana. Igreja do testemunho. Boa-Nova para o mundo.

É tempo de reafirmar a fé e a confiança. A barca pode ser frágil e o mar revolto, podemos nos sentir inseguros, mas Jesus está presente e garante a travessia (cf Mc 4,35-41). Podemos ser “atribulados por todos os lados, mas não esmagados; postos em extrema dificuldade, mas não vencidos; perseguidos, mas não abandonados; prostrados por terra, mas não aniquilados” (2Cor 4,8-9). Mas, para isso, é preciso humildade para reconhecermos nossa pequenez; nos colocarmos na condição de discípulos e de servidores.

Em junho, encerra-se o Ano Sacerdotal. Certamente não foi o que muitos queriam ou esperavam. Mas, certamente, foi o que estávamos precisando. Um tempo de reflexão, de tirar máscaras, de repensar a identidade, a missão, a formação. Tempo de purificação e de amadurecimento. De podas e perdas necessárias. Início de uma nova etapa. Oportunidade para superar toda idealização e investir mais na beleza do serviço ao pobre e da promoção da vida. Tempo de maior cuidado com a pessoa do padre, sua afetividade, sua realização. Que todo esse sofrimento não seja em vão, mas, à luz da paixão redentora de Cristo, se transforme também em “dores de parto”. Assim, terá valido a pena o Ano Sacerdotal.

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