A Antropologia Teológica do Concílio Vaticano II

Cônego Lauro Sérgio Versiani Barbosa.

O Concílio Vaticano II não tratou especificamente da Antropologia Teológica em seus documentos conclusivos, mas na primeira parte da Constituição Pastoral Gaudium et Spes encontramos a sua contribuição mais substanciosa para a reflexão antropológica. A Gaudium et Spes, ao conjugar elementos doutrinais e pastorais em sua reflexão sobre “A Igreja no Mundo Atual”, volta a sua atenção para a criatura humana e acaba por produzir verdadeira síntese antropológica. O método adotado pela Gaudium et Spes é preferencialmente, mas não exclusivamente, indutivo: a realidade humana acolhe a revelação de Deus. Assumindo a postura de diálogo com o mundo contemporâneo, a Constituição Pastoral contempla o ser humano concreto a quem a Igreja quer servir, como fica evidente no início do seu belo Proêmio: As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco em seu coração (GS 1). A questão antropológica ocupa lugar fundamental na exposição da Gaudium et Speso homem será o fulcro de toda a nossa exposição: o homem uno e integral: corpo e alma, coração e consciência, inteligência e vontade (GS 3). É claro que o ser humano é contemplado à luz da revelação cristã.

Assim, dos números 4 – 10, a Gaudium et Spes trata, como introdução, da condição do homem no mundo de hoje, apontando os desafios atuais e os questionamentos fundamentais levantados pelo ser humano, concluindo com a visão cristocêntrica da história humana: a chave, o centro e o fim de toda a história humana se encontram no seu Senhor e Mestre…subjacentes a todas as transformações, há muitas coisas que não mudam, cujo último fundamento é Cristo, o mesmo ontem, hoje e para sempre (cf. Hb 13,8). Quer, portanto, o Concílio, à luz de Cristo, imagem de Deus invisível e primogênito de todas as criaturas (cf. Cl 1,15), dirigir-se a todos, para iluminar o mistério do homem e cooperar na solução das principais questões do nosso tempo (GS 10). Para Cristo tudo converge e nele está o fundamento de tudo o que existe. Em Cristo as interrogações humanas mais profundas encontram a sua resposta final.

Segue-se a primeira parte da Gaudium et Spes, que tem por título A Igreja e a Vocação do Homem. O primeiro capítulo sobre A Dignidade da Pessoa Humana oferece uma síntese antropológica que tem o seu ponto alto no número 22, a maior e mais original contribuição teológica do Concílio Vaticano II para a reflexão antropológica. O n. 12 trata da criação do ser humano à imagem de Deus conforme lemos no Antigo Testamento. O n. 13 trata do pecado como abuso da liberdade que trouxe divisão e enfraquecimento do ser humano, impedindo a sua realização. O n. 14 trata da constituição una do ser humano em corpo e alma. Os números 15 e 16 tratam da dignidade da inteligência e da consciência moral. O n. 17 trata do dom da liberdade humana. O n. 18 aborda o mistério da morte iluminado pela ressurreição de Cristo. Os números 19 a 21 apontam para a sublime vocação humana de diálogo com Deus, abordando o desafio do ateísmo para a Igreja.

O número 22 da Gaudium et Spes é de altíssimo nível teológico e retoma o que fora aludido no número 10. A perspectiva cristológica é a única capaz de esclarecer o mistério do ser humano: Na realidade, só no mistério do Verbo encarnado se esclarece verdadeiramente o mistério do homem. Adão, o primeiro homem, era efetivamente figura daquele futuro (cf. Rm 5,14 e cf. Tertuliano. De carnis resurr. 6), isto é, de Cristo Senhor. Cristo, novo Adão, na própria revelação do mistério do Pai e do seu amor, revela o homem a si mesmo e descobre-lhe a sua vocação sublime. Não é por isso de admirar que as verdades acima ditas tenham nele a sua fonte e nele atinjam a plenitude (GS 22). Ou seja, a questão antropológica só se resolve em chave interpretativa cristológica. Estamos diante do princípio fundamental da antropologia do Concílio Vaticano II, ponto de partida para uma visão teológica unitária, coerente, integral e sistemática do ser humano à luz da fé cristã. Tudo o que foi dito anteriormente sobre o ser humano só pode ser plenamente compreendido à luz de Cristo. É a partir do Filho de Deus que se encarnou que se pode compreender o que o ser humano é chamado a ser. Dizer que o ser humano foi criado à imagem de Deus é ainda vago e abstrato. À luz do Novo Testamento se pode dizer que Adão era apenas figura daquele que veio pela encarnação (cf. Rm 5,14). O Vaticano II retoma pensamento patrístico um tanto esquecido. Cita, em nota de pé de página do n. 22 da Gaudium et Spes, Tertuliano, logo após a referência ao texto de Paulo aos Romanos. Tertuliano afirma que naquele que era modelado do barro vinha pensado Cristo, o homem definitivo. Poderia ter sido citado também Santo Irineu que em sua antropologia concebe o homem plasmado do barro da terra pelas mãos de Deus como reproduzindo já a imagem de Cristo que se encarnaria. Assim, só sabemos quem é o ser humano por Cristo: Adão se explica por Cristo e não o contrário, Cristo por Adão. Cristo nos revela o amor do Pai e revela o ser humano a si mesmo. Desde o início da criação só temos uma vocação: sermos filhos de Deus por adoção no seu Filho Unigênito por natureza. O Vaticano II retoma a mais antiga tradição cristã dos Padres da Igreja, obscurecida pela distinção excessiva entre ordem natural e sobrenatural no relacionamento entre a humanidade e Deus.

Continua o n. 22 da Gaudium et Spes“Imagem do Deus invisível” (Cl 1,15) (cf. 2 Cor 4,4), ele é o homem perfeito, que restitui aos filhos de Adão a semelhança divina, deformada desde o primeiro pecado. Já que, nele, a natureza humana foi assumida, e não destruída, por isso mesmo, também em nós foi elevada a sublime dignidade. Porque pela sua encarnação, ele, o Filho de Deus, uniu-se de certo modo a cada homem. Trabalhou com mãos humanas, agiu com uma vontade humana, amou com um coração humano. Nascido da Virgem Maria, tornou-se verdadeiramente um de nós, semelhante a nós em tudo, exceto no pecado (GS 22). A citação de Cristo como imagem de Deus tirada da Carta de Paulo aos Colossenses já aparecera no n. 10 e reaparece no n. 22 da GS. O tema do homem criado à imagem de Deus do Antigo Testamento e que apareceu no n. 12 da GS se torna concreto em Cristo, verdadeira imagem do Deus invisível. Assim, o ser humano é, na verdade, imago imaginis Dei, pois Cristo é a imagem de Deus, como ensina ainda Paulo na 2 Cor 4,4, citada em nota de pé de página do n. 22 da GS, e também na Carta aos Romanos 8,29. Cristo é o homem perfeito, que assumiu a natureza humana plenamente e a elevou a sublime dignidade, ensina a Gaudium et Spes 22. Atenção! Não se trata da afirmação cristológica do Concílio de Calcedônia (451) de Cristo perfeito homem quanto à sua natureza, mas do homem perfeito, isto é, completo, acabado, pleno, o protótipo do humano! A natureza humana não foi absorvida pela divindade, mas assumida e elevada à sua máxima dignidade. Essa mesma idéia de Cristo, o homem perfeito, será retomada no desenvolvimento da Gaudium et Spes em outros números. No terceiro capítulo, sobre a Atividade Humana no Mundo, no n. 38 lemos: O Verbo de Deus, pelo qual todas as coisas foram feitas, fazendo-se homem e vivendo na terra dos homens (cf. Jo1,3.14) , entrou como homem perfeito na história do mundo, assumindo-a e recapitulando-a (cf. Ef1,10) (GS 38). No quarto capítulo sobre O Papel da Igreja no Mundo Contemporâneo se lê: Todo aquele que segue Cristo, o homem perfeito, torna-se mais homem (GS 41); e ainda no mesmo capítulo: Com efeito, o próprio Verbo de Deus, por quem tudo foi feito, fez-se homem, para, homem perfeito, a todos salvar e tudo recapitular (GS 45). Ou seja, em Cristo nós temos a humanidade realizada segundo o desígnio único, original e definitivo do Criador e segui-lo é aperfeiçoar-se e crescer em humanidade. E prossegue o parágrafo 2 do n. 22 da Gaudium et Spes que estamos analisando, dizendo que, pela sua encarnação, o Filho de Deus se uniu de certa forma a todo homem, conforme ensina a Tradição da Igreja sobre a humanidade assumida pelo Filho, mas o Concílio acrescenta ao plano ontológico em que se situavam os Padres da Igreja o plano existencial da vida humana concreta como observaram os teólogos J. Ratzinger e L. Ladaria: Trabalhou com mãos humanas, pensou com uma inteligência humana, agiu com uma vontade humana, amou com um coração humano (GS 22). Ou seja, Cristo assemelhou-se a nós em tudo, exceto no pecado e do qual veio nos libertar. O parágrafo seguinte do n. 22 trata exatamente da entrega solidária do Cristo até a morte pelos nossos pecados, de sua obra de reconciliação que confere sentido e santidade à vida e à morte. É bom lembrar que o Verbo encarnado é o Cristo morto e ressuscitado. A relação Cristo-Adão é dialética. Adão é figura de Cristo. Mas Cristo, último (definitivo) Adão, vem a um mundo marcado pelo pecado, portanto a nossa configuração a Cristo nos associa ao mistério pascal de Jesus Cristo.

O quarto parágrafo do n. 22 da Gaudium et Spes torna explícita a necessidade da configuração do cristão à imagem do Filho e da associação ao mistério pascal do Cristo na força do Espírito Santo para a realização do desígnio original de Deus sobre o ser humano, fundamentando-se amplamente na teologia paulina. O parágrafo seguinte acrescenta que isso vale não só para os cristãos, mas para todos os homens de boa vontade: Com efeito, já que por todos morreu Cristo e que a vocação última de todos os homens é realmente uma só, a saber, a divina, devemos acreditar que o Espírito Santo dá a todos a possibilidade de se associarem a este mistério pascal por um modo só de Deus conhecido. Tal é, e tão grande, o mistério do homem, que a revelação cristã manifesta aos que crêem. E assim, por Cristo e em Cristo, esclarece-se o enigma da dor e da morte, o qual, fora do seu Evangelho, nos esmaga. Cristo ressuscitou, destruindo a morte com a própria morte, e deu-nos a vida, para que, tornados filhos no Filho, exclamemos no Espírito: Abba, Pai! (GS 22). Ficam evidenciados o significado salvífico universal de Jesus Cristo, a missão do Espírito Santo, a dimensão trinitária da salvação cristã e a dimensão comunitária da salvação que será mais desenvolvida na seqüência da Gaudium et Spes. Nota-se, porém, que o acento sobre o significado salvífico universal de Jesus Cristo é mais escatológico que protológico. A protologia é mais implícita. Talvez o Vaticano II tenha preferido evitar entrar aqui em disputas entre escolas teológicas com posições diversas (escola escotista e escola tomista).

Em outros documentos do Concílio Vaticano II encontram-se referências claras à relação fundamental entre Cristo e o ser humano, embora sem um tratamento sistemático. No Decreto Ad Gentes sobre A Atividade Missionária da Igreja acha-se a seguinte passagem: A atividade missionária tem íntima conexão também com a própria natureza humana e suas aspirações. Com efeito, ao dar a conhecer Cristo, a Igreja revela, por isso mesmo, aos homens a genuína verdade da sua condição e da sua integral vocação, pois Cristo é o princípio e o modelo da humanidade renovada e imbuída de fraterno amor, sinceridade e espírito de paz, à qual todos aspiram (AD 8). Na Declaração Nostra Aetate sobre As Relações da Igreja com as Religiões Não-Cristãs afirma-se: Nós não podemos invocar Deus, Pai de todos os homens, se nos recusamos a comportar-nos como irmãos para com alguns homens criados à imagem de Deus. A relação do homem para com Deus Pai, e a relação do homem para com os outros homens seus irmãos, encontram-se tão ligadas entre si que a Sagrada Escritura diz: “Quem não ama, não conhece a Deus” (1 Jo 4,8) (NA 5). O contexto fala de Cristo como fundamento da fraternidade universal, o que fica explícito nos números 92 e 93 da Gaudium et Spes. Na Constituição Dogmática Lumen Gentium sobre a Igreja são várias as passagens que abordam a relação fundamental entre Cristo e a humanidade em termos de vocação e realização de toda a humanidade, destacando a centralidade de Jesus Cristo como luz do mundo: LG 1; 2; 3; 6; 7; 9; 11; 13; 31; 32; 40; 48; 49; 50; 51; 52. Cito apenas o final da LG 3: Todos os homens são chamados a esta união com Cristo, que é a luz do mundo, do qual procedemos, pelo qual vivemos e para o qual tendemos. Na mesma direção podemos citar a Constituição Dogmática Dei Verbum sobre a Revelação Divina em seu importante n. 2 que aponta para Cristo como mediador e plenitude de toda a revelação. A Constituição Sacrosanctum Concilium sobre a Sagrada Liturgia nos números 2, 6 e 48 aponta para a inserção no mistério do Cristo celebrada na liturgia como vocação de todos. Na mesma linha da convergência de tudo para Cristo podemos citar: o já mencionado Decreto Ad Gentes 1, 3, 6 e 7; o Decreto Presbyterorum Ordinis sobre O Ministério e a Vida dos Presbíteros n. 22; o Decreto Apostolicam Actuositatem sobre o Apostolado dos Leigos números 17 e 18; o Decreto Unitatis Redintegratio sobre o Ecumenismo números 2 e 3.

Embora todas essas citações não sejam exaustivas, não há dúvida de que o Concílio Vaticano II mostra que há um só desígnio salvífico de Deus sobre o ser humano e que une criação e redenção. O ser humano do ponto de vista teológico, concreto e existencial, não pode ser definido sem uma referência clara a Jesus Cristo. Há uma consistência própria e autonomia da realidade criatural, mas Cristo é a determinação última da pessoa humana. O ser humano é deiforme e cristoforme, chamado à configuração a Jesus. Na graça, somos chamados a sermos filhos no Filho. Como diria Karl Rahner, o ser humano é o que surge quando Deus quer fazer-se criatura, quando Deus quer expressar-se no outro. O ser humano é, pois, ontologicamente, um possível irmão de Jesus. A plenitude da graça não é uma salvação extrínseca, mas com toda a novidade trazida por Cristo, temos a realização do desígnio originário de Deus: em Cristo somos escolhidos. Cristo é o modelo do ser humano desde o início e pelo Espírito Santo leva a pessoa humana à realização do desígnio final de Deus. Mas Cristo representa uma novidade radical e gratuita na história. Novidade gnosiológica enquanto realização e superação da esperança de Israel. Novidade enquanto superação do pecado pela redenção que permite passar do primeiro ao segundo Adão. Novidade enquanto possibilidade de realização do ser humano pelo dom do Espírito. Não se trata simplesmente do Logos eterno, mas de Jesus, o Logos encarnado, de Jesus morto e ressuscitado, da vida, paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo na força do Espírito Santo doado para a glória de Deus Pai: Quando, porém, chegou a plenitude do tempo, enviou Deus o seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a Lei, para resgatar os que estavam sob a Lei, a fim de que recebêssemos a adoção filial. E porque sois filhos, enviou Deus aos nossos corações o Espírito do seu Filho, que clama: Abba, Pai! (Gl 4,4-6).

Referências Bibliográficas

ALBERIGO, G., História dos Concílios Ecumênicos, São Paulo, Paulus, 1995.

DOCUMENTOS DO CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II, São Paulo, Paulus, 20115.

LADARIA, L. F., Introdução à Antropologia Teológica, São Paulo, Loyola, 1998.

LATOURELLE, R. (Ed.), Vaticano II: Balance y Perspectivas, Salamanca, Ediciones Sigueme, 19902.

LOPES, G., Gaudium et Spes: Texto e comentário, São Paulo, Paulinas, 2011.

MIRANDA, M. F., A Salvação de Jesus Cristo, São Paulo, Loyola, 2004.

RAHNER, K., Curso Fundamental da Fé, São Paulo, Paulinas, 1989.

RUIZ DE LA PEÑA, J. L., Criação, Graça, Salvação, São Paulo, Loyola, 1998.

PACOMIO, L. – MANCUSO, V., LEXICON: Dicionário Teológico Enciclopédico, São Paulo, Loyola, 2003. 

A Ressurreição de Jesus

A fé cristã nasce desta experiência: a experiência do encontro com o Cristo Vivo! Diz o Apóstolo Paulo: se Cristo não ressuscitou, ilusória é a vossa fé; ainda estais nos vossos pecados. Por conseguinte, aqueles que adormeceram em Cristo, estão perdidos. Se temos esperança em Cristo somente para esta vida, somos os mais dignos de compaixão de todos os homens. Mas não! Cristo ressuscitou dos mortos primícias dos que adormeceram (1 Cor 15,17-20). É o Vivente que veio e vem ao nosso encontro, Aquele que dá vitalidade e fundamento à nossa fé. O cristianismo não é, em primeiro lugar, um belo conjunto doutrinal ou sistema filosófico ou teológico, ou ainda um impressionante acontecimento histórico que atravessa os séculos e se expressa na vida de gerações de povos com uma riqueza de cultura, arte, fé e caridade que o tornam respeitável e digno de credibilidade. O cristianismo é Cristo ressuscitado! O cristianismo se concentra na Pessoa de Jesus Cristo, compreendido à luz da sua ressurreição. A ressurreição ilumina toda a vida de Jesus e dá a chave de compreensão de toda a Sagrada Escritura, revelando quem é Deus e o ser humano!

A Igreja vive da alegria pascal! Somos os transmissores desta alegria pascal de geração em geração e a celebramos na solene liturgia. A ressurreição do Senhor ascendeu a nossa fé e nos confiou a missão de anunciadores da Boa Nova: a vida tem futuro, a morte e o pecado foram vencidos! Deus é amor que veio a nós em Jesus e refaz a sua criação a partir da ressurreição daquele que é o “primogênito dentre os mortos” (Cl 1,18) e “primícias dos que adormeceram” (1 Cor 15,20), convidando-nos a subir ao Pai na força do Espírito Santo que nos foi dado! A ressurreição de Jesus permitiu perceber que tudo o que Jesus fez e ensinou é revelação de Deus e da vocação do ser humano. Não podemos mais viver senão para Aquele que nos amou e deu a vida por nós e que o Pai ressuscitou na potência do Espírito Santo, para que todos tenhamos a vida em plenitude! Mais: Ele está no meio de nós, nos envia em missão e caminha conosco!

A ressurreição de Jesus Cristo é um fato inaudito e desconcertante que só pode ser expresso em linguagem simbólica. Não é um acontecimento neutro, mas inseparável da fé-adesão. Trata-se de uma realidade meta-histórica que exige perspectiva própria. Nem a ciência, nem a história, são adequadas para falar da ressurreição. O ato da ressurreição não foi presenciado por ninguém. É um acontecimento que se dá entre Jesus e o Pai pelo poder do Espírito Santo. O acontecido com Jesus se tornou acessível a nós porque Ele quis manifestar-se. Temos o testemunho dos Apóstolos que fizeram a experiência fundante e proclamaram: “Ele vive!”. Nessa experiência, os que temos fé fomos introduzidos.

O Novo Testamento registra vários esforços distintos de transmitir a experiência da ressurreição. Temos as breves confissões de fé da Primeira Carta de Paulo aos Tessalonicenses (1 Ts 1,10; 4,14); a linguagem querigmática dos discursos de Pedro nos Atos dos Apóstolos e dos hinos das Cartas de Paulo (Fl 2,6-11; Cl 1,15-20) ou da tradição confessional expressa no credo de 1 Cor 15,3-8: Eu vos transmiti primeiramente o que eu mesmo havia recebido: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras; foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras; apareceu a Cefas, e em seguida aos Doze. Depois apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma vez, dos quais a maior parte ainda vive e alguns já são mortos; depois apareceu a Tiago, em seguida a todos os apóstolos. E, por último de todos, apareceu também a mim, como a um abortivo. Este credo da Igreja primitiva conservado e transmitido por Paulo, torna evidente a inserção da ressurreição de Cristo na história da salvação, através da expressão repetida “segundo as Escrituras”. Temos ainda a tradição narrativa dos relatos evangélicos de aparição e do túmulo vazio. Os relatos de aparição constituem narrativas ricas em simbolismos e não podem se confundir com relatos biográficos. Possuem gênero literário próprio, com estrutura que pode ser bem delineada. Partem da experiência humana que “descobre” uma situação nova, por iniciativa de Jesus que se manifesta, se faz ver (At 1,3). A manifestação de Jesus desencadeia um processo (manifestação de Jesus, busca de compreensão, adesão na fé; cf. Lc 24,13-35), que tem como resultado o reconhecimento da identidade entre o Jesus terrestre ou crucificado e o ressuscitado, isto é, a experiência supõe a memória do vivido com Jesus anteriormente. Em seguida, a experiência implica mandato de missão: ser testemunha do ressuscitado.

Também o relato do túmulo vazio (Mc 16,1-8; Mt 28,1-8; Lc 24,1-10; Jo 20,1-10) não se explica pela realidade do túmulo vazio. Há necessidade de uma palavra de interpretação que o vincula à experiência da Galiléia, ou seja, ao vivido com Jesus, à comunidade de fé, à periferia do mundo. É pela palavra interpretativa que se passa do “ver” para o “crer”. O túmulo vazio não é prova, mas sinal.

Os relatos evangélicos de aparição do ressuscitado e do túmulo vazio nos apontam para a vida de Jesus. Expressam a identidade entre o ressuscitado e o terrestre ou crucificado, o que foi percebido através de um processo lento de transformação das testemunhas do ressuscitado, a partir da iniciativa de Jesus. O medo e o desânimo que tomaram conta dos discípulos, diante do desastre da paixão e morte de Jesus, foram vencidos pela manifestação do ressuscitado. Reconhecer Jesus ressuscitado significa não só uma referência à memória do vivido com Jesus, mas também uma experiência de “encontro” com a “vida nova” que se manifesta em Jesus (1 Cor 15; Lc 24,36-48). É preciso considerar a realidade da ressurreição, a experiência dos discípulos e a linguagem utilizada para comunicar o fato. Trata-se de expressar o encontro com o ressuscitado, realidade nova que ultrapassa os limites do espaço e do tempo. Por iniciativa de Jesus ressuscitado, os discípulos fazem a experiência de que Ele vive (se apresenta, vem…) num estado totalmente novo, numa nova dimensão. A experiência da ressurreição do Senhor nos foi transmitida em linguagem simbólica e o testemunho dos Apóstolos nos introduz na mesma experiência. A fé na ressurreição é adesão ao novo sentido da vida e morte de Jesus, aceitando-o como centro da própria vida.

São Paulo afirma que o Pai ao ressuscitar Jesus disse sim a todas as promessas que o precediam. Deus Pai toma posição em relação à vida de Jesus: ao ressuscitá-lo o Pai diz de que lado está. O Pai não disse nada na paixão e morte porque havia dito tudo antes, durante a vida de Jesus, mas diz de que lado está com a ressurreição. Jesus entrou na vida plena de Deus. Trata-se de intervenção semelhante à da criação, vida recriada. Quando o Pai ressuscita Jesus, está confirmando toda a vida de Jesus. Uma vida de amor-serviço como a de Jesus não podia ficar prisioneira da morte! Com a ressurreição de Jesus pode-se acreditar na força dos pequenos e fracassados. O gesto do Pai nos dá esperança. O mundo foi transformado na sua raiz com a ressurreição. Não só a causa, mas a vida de Jesus com tudo o que significou é glorificada. Agora sabemos com clareza que Jesus é o Filho de Deus que se fez homem e venceu o pecado e a morte por uma vida de fidelidade ao Pai no amor até o fim e por isto foi glorificado (cf. Fl 2,6-11)!

Cônego Lauro Sérgio Versiani Barbosa.

Finados

Ouvindo a música Certas Coisas do padre Jorge Trevisol, comecei a pensar sobre o sentido da vida e da morte. Em certo trecho , ele afirma que um dia a vida vai nos perguntar o que fizemos com os nossos sonhos, o nosso jeito de amar e sobretudo o que deixaremos para as pessoas que vão continuar no mundo.

Este trecho da música faz-nos recordar o sentido da vida e o que celebramos no dia de finados. Para muitos é um dia de tristeza, pois é dia recordar aqueles que amamos e que não se encontram junto de nós; mas para o cristão é um dia de celebrar a vida, fazer memória dos entes queridos, pessoas que de alguma maneira deixaram suas marcas em nossa vida.

É hora de recordar suas histórias, seus sorrisos, o legado que deixaram conosco . É tempo de recordar que o autor da vida também experimentou a morte para vencê-la de uma vez por todas, trazendo-nos a esperança e a certeza da vida eterna.

`A luz da fé, a morte é uma passagem que nos conduz para a visão da glória divina. Por isso finados não pode ser um dia de tristeza, de lamentações, mas um dia de saudades. Dia de fazermos um balanço sobre a efemeridade da nossa vida terrestre e nos questionar o sobre o que fizemos ou estamos fazendo para tornar o mundo melhor e a vida das dos nossos irmãos , como temos vivido a gratuidade, o amor, a justiça,os valores do Reino.

Parar para refletir sobre a vida, ajuda-nos a preparar para viver a eternidade, pois um dia seremos chamados deste mundo e não podemos nos apresentar diante de Deus com as mãos vazias. Oxalá vivêssemos de tal forma, que ao final da nossa vida, retomando as palavras de São Paulo pudéssemos dizer ” combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé. Agora está reservada para mim a coroa da justiça que o Senhor dará a mim e a todos que esperam sua manifestação gloriosa”.

 

 

Sonia Maria Barbosa

Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil 2019-2023

1 – A proposta central das novas Diretrizes da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil é evangelizar no Brasil atual marcado pela cultura urbana, anunciando a Palavra de Deus e formando discípulos de Jesus Cristo em comunidades eclesiais missionárias, dentro da evangélica opção preferencial pelos pobres e no cuidado com a Casa Comum, testemunhando o Reino de Deus, que começa na história e será pleno na eternidade de Deus uno e trino.

2 – As DGAE 2019-2023, em continuidade com as anteriores, propõem a evangelização da cultura urbana a partir de pequenas e diversificadas comunidades eclesiais missionárias, exemplificadas com a imagem da casa edificada sobre quatro pilares: Palavra, Pão, Caridade e Ação Missionária, inspiradas nas comunidades dos Atos dos Apóstolos (At 2,42-47). Estes quatro pilares aglutinam as anteriores urgências da ação evangelizadora. A Igreja deve ser uma casa acolhedora para os que chegam e uma casa de portas abertas para a saída missionária. Trata-se de espaço vital missionário. A Palavra deve formar e animar a comunidade, propiciando a iniciação à vida cristã. O Pão expressa a liturgia e a espiritualidade, que santificam as pessoas e as comunidades, cultivando a comunhão com Deus e com os irmãos. A Caridade leva à promoção e à defesa da vida em todos os sentidos, conforme a palavra de Jesus (Jo 10,10). A ação missionária destaca o estado permanente de missão e se expressa nas iniciativas concretas de ir ao encontro dos outros nesse mundo urbano plural, marcado por grande riqueza tecnológica, abundância de informações e possibilidades, injustiças sociais, solidão e profunda sede de Deus. As pessoas precisam ser acolhidas, a comunidade deve ser testemunha do Reino e apontar para a transformação da sociedade.

3 – O mundo urbano de que se fala não é uma realidade geográfica que distingue cidade e campo, mas uma mentalidade presente em ambos. É preciso perceber a presença de Deus nessa nova realidade e anunciar Jesus Cristo, missionário do Pai, e o Reino que ele inaugurou com a sua encarnação, vida, paixão, morte e ressurreição. As comunidades eclesiais missionárias devem ser embaixadoras da misericórdia de Deus nesse mundo, como sal, luz, fermento, como fala o Evangelho (Mt 5,13-14; Mt 13,31-33). Num contexto de individualismo, as comunidades eclesiais missionárias têm um significado profético e concretizam a conversão pastoral de que se fala desde a Conferência de Aparecida. É preciso acolher, contemplar, discernir e iluminar com a Palavra de Deus a cultura urbana.

4 – O convite é para que vivamos verdadeira conversão pastoral com abertura para vários tipos de comunidades eclesiais missionárias fundadas nos quatro pilares, Palavra, Pão, Caridade e Ação Missionária, possibilitando ampla capilaridade no mundo urbano atual para o anúncio do Evangelho de Jesus Cristo, sem proselitismo, em diálogo com a cultura urbana plural e oferecendo autêntico testemunho cristão.

5 –Comunidade e missão são inseparáveis. A meta é formar comunidades eclesiais missionárias, evangelizadoras no mundo urbano atual, à luz da evangélica opção preferencial pelos pobres e no cuidado com a Casa Comum, propagadoras do humanismo integral aberto à graça de Deus.

Cônego Lauro Sérgio Versiani Barbosa

Eucaristia: Mistério da Fé¹

Pe. Lauro Sérgio Versiani Barbosa²

 

Há cerca de 20 séculos nós somos a Comunidade da Ceia do Senhor! Há quase dois mil anos a Igreja se reúne em torno da mesa do altar para rezar, refletir e viver o sentido das palavras do Senhor: “Isto é o meu corpo…isto é o meu sangue…” (Mt 26,26-28; Mc 14,22-25; Lc 22,19-20; 1 Cor 11, 23-25; Jo 6,51-58). A Igreja vive da Eucaristia, Ecclesia de Eucharistia, nos recordava o Papa João Paulo II na sua Carta Encíclica por ocasião da Quinta-Feira Santa de 2003. Trata-se do “próprio núcleo do mistério da Igreja” (EE 1). A Igreja celebra a Eucaristia, mas a Eucaristia faz a Igreja. Estamos diante do centro espiritual das comunidades, do centro da Igreja universal e, porque não dizê-lo, diante do centro de toda a humanidade e da história! Trata-se do Deus-Conosco, o Emanuel. É a realização por excelência da palavra do Senhor ao final do Evangelho de Mateus: “E eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos!” (Mt 28,20).

A Eucaristia é antes de tudo mistério de fé. Devemos nos deixar guiar pelas palavras do Senhor na Última Ceia, atentos ao “que” se passa sem nos preocuparmos demasiadamente com o “como”. Devemos nos deixar maravilhar pelo gesto de amor que nos ultrapassa e nos convida ao louvor, à adoração, à comunhão, ao compromisso de vida, à santidade!

As palavras de Jesus na Última Ceia inserem-se na tradição do estar à mesa com os seus cultivada pelo Mestre e dentro da tradição maior de Israel. Para o oriental a refeição comum é de grande importância: é sinal de paz, confiança, fraternidade, perdão. No Antigo Testamento lemos que o rei de Judá, Joaquim, vivendo no exílio, foi recebido à mesa pelo rei da Babilônia como sinal de graça, reconciliação e amizade: 2 Rs 25,27-29; Jr 52,31-33. Em Israel se rezava antes e depois da refeição. Com a oração, a comunhão de mesa se tornava como que “um espaço sagrado”, com a participação real dos comensais na bênção pronunciada, integrando a todos numa comunhão de vida.

No Novo Testamento lemos nos evangelhos que Jesus freqüentemente estava à mesa com os pecadores e publicanos, sendo motivo de escândalo para muitos. Com tal atitude Jesus proclamava o início do tempo da salvação, fazendo um apelo à conversão e à acolhida do Reino de Deus. Suas atitudes significavam perdão e salvação, mostrando a vontade de Deus de acolher os pecadores em seu Reino: Mc 2,16-17; Lc 5,27-32; Lc 7,36-50; Lc 15,1-32; Lc 19,1-10. Ora, nós sabemos que Jesus é o Messias (Mc 8,27-29; Mt 16,13-20; Lc 9,18-21), logo a refeição com ele tem um significado único: trata-se de prefiguração e antecipação da refeição escatológica, do banquete messiânico, tempo de redenção e perdão, tempo de reconciliação e paz. A última ceia está inserida nesta série de refeições de Jesus, mas se distingue de todas elas. Agora se trata do pleno cumprimento e atualização do tempo da salvação, antes apenas vislumbrado, e de forma inaudita e insuspeitada, que a Igreja confessa com assombro reverente em sua liturgia: Mysterium Fidei!

Desde os seus primórdios a Igreja se reúne diariamente para a refeição em comum, conforme lemos nos Atos dos Apóstolos (At 2,46; At 6,1), continuando o que Jesus inaugurou com o seu gesto e as suas palavras: “Fazei isto em memória de mim” (Lc 22,19; 1 Cor 11,25). Assim, a Igreja é a comunidade messiânica que celebra a memória do Senhor, proclamando a obra da salvação e suplicando ao Senhor que a leve a bom termo: “Anunciamos, Senhor, a vossa morte e proclamamos a vossa ressurreição. Vinde, Senhor Jesus!” (Missal Romano).

As palavras pronunciadas por Jesus na Última Ceia foram recolhidas em cinco diferentes textos do Novo Testamento: 1 Cor 11,23-25; Mc 14,22-24; Mt 26,26-28; Lc 22,19-20; Jo 6,51. Paulo nos oferece o mais antigo texto escrito (por volta do ano 54): registra o que recebeu como tradição que remonta ao Senhor. Na antiga fórmula pré-paulina utilizada, as palavras da ceia aparecem como continuação da oração que se recitava antes e depois da refeição. O texto de Paulo nos remete à comunidade de Antioquia dos anos 40.

O texto de Marcos, embora seja o segundo texto escrito mais antigo, provavelmente datado do começo dos anos 70, possui semitismos que remetem a uma tradição ainda mais antiga que a de Paulo, reportando-nos aos anos 30. A sua narrativa é parte da história da Paixão do Senhor e fala do “sangue da Aliança” derramado “em favor de muitos” (Mc 22,24). O texto de Mateus possui semelhanças e diferenças em relação ao de Marcos. A passagem da Última Ceia em Mateus tem o aspecto de fórmula litúrgica, ganhando autonomia em relação à narrativa da Paixão do Senhor. Mateus fala do “sangue da Aliança”, “derramado por muitos” e acrescenta “para a remissão dos pecados” (Mt 26,28). Ambos, Mateus e Marcos, foram influenciados pela liturgia de Jerusalém.

Lucas apresenta proximidade em relação ao texto de Paulo, embora tenha as suas características próprias. As semelhanças entre Lucas e Paulo são devidas à redação mais helenizada da fórmula da Ceia utilizada pela liturgia de Antioquia, que influenciou os dois. Porém também Lucas nos remete a um estágio da tradição anterior ao texto de Paulo. Enquanto Paulo utiliza o título cristológico solene “O Senhor Jesus”, Lucas tem um estilo narrativo próprio que principia com o “e”, além de omitir o verbo “é” quando trata do cálice, o que revela o costume semítico. Tanto Lucas como Paulo se referem ao corpo “que é dado por vós” (Lc 22,19; 1 Cor 11,24) e ao “cálice da Nova Aliança” (Lc 22,20; 1 Cor 11,25), sendo que Lucas fala do sangue derramado “em favor de vós” (Lc 22,20).

Com João nós estamos diante de redação mais independente das palavras da instituição da Eucaristia. O texto fundamental é Jo 6,51c: “O pão que eu darei é a minha carne para a vida do mundo”. No lugar de “isto”, João diz “o pão que eu darei”; no lugar de “por vós”, escreve “para a vida do mundo”; ao invés de “meu corpo”, encontramos “minha carne”. Santo Inácio de Antioquia e São Justino também dão testemunho dessa tradição que se espalhou pelos círculos da Síria e da Ásia Menor. Observe-se, a propósito, que o termo hebraico-aramaico “basar/bisra” podia ser traduzido tanto por “corpo” como por “carne”.

Sintetizando, podemos dizer que as pequenas diferenças nos textos bíblicos que falam da instituição da Eucaristia são um eloqüente testemunho sobre a celebração da Ceia do Senhor nas comunidades na Igreja primitiva. Há uma concordância no essencial e os textos citados apontam para fundamento seguro e inaugural da Tradição eclesial: Jesus comparou e identificou no sentido sacramental o pão ao seu corpo; Jesus comparou e identificou no sentido sacramental o vinho ao seu sangue, dizendo que se tratava de Nova Aliança; os cinco textos trazem a preposição “por” indicativa do para que é oferecido o corpo e o sangue de Jesus.

Na Ceia Pascal hebraica o pai de família costumava explicar o que se celebrava: o sentido do cordeiro pascal, do pão ázimo, das ervas amargas. Assim, Jesus, que modifica livremente a Ceia hebraica, acrescentou às orações do começo e do fim da refeição as palavras explicativas de seus gestos e do sentido da entrega de sua vida, o que a Igreja recolheu como seu tesouro e das quais vive. Jesus deu o sentido definitivo à páscoa judaica, antecipando na Última Ceia a sua passagem para o Pai através de sua morte e ressurreição, penhor de nossa Páscoa definitiva. Jesus se identifica com o cordeiro pascal que traz a Nova Aliança, como bem diz Paulo: “Cristo, nossa Páscoa, foi imolado” (1 Cor 5,7; ver também: Jo 1,29.36; 1 Pd 1,19; Ap 5; Ap 6; Ap 12,11; Ap 19,7.9; Ap 22,1.3). Jesus usou expressões cultuais próprias da linguagem sacrifical, conforme Êxodo 24,8 (“Então Moisés tomou do sangue, aspergiu com ele o povo, e disse: eis o sangue da Aliança”) e ainda Isaías 53, identificando-se com o Servo sofredor de Javé, que oferece a própria vida em favor de muitos. Em Isaías 53 “muitos” significa uma série interminável, totalidade. Os cinco textos citados que falam da instituição da Eucaristia no Novo Testamento concordam que Jesus entendeu a sua morte “em benefício de”. Em Marcos e Mateus nós lemos que Jesus oferece a sua vida “por muitos”; em Paulo e Lucas “por vós”; em João “para a vida do mundo”. Jesus dá aos seus discípulos a garantia de seu amor e da participação no seu destino glorioso a partir da Nova Aliança inaugurada no seu sangue.

A Eucaristia é o sacramento desta autodoação salvífica de Jesus Cristo. Trata-se do seu “dom por excelência” (EE 11). Memorial da paixão, morte e ressurreição de Jesus, que deu a vida por todos nós e inaugurou definitivamente o reinado de Deus na história, na força do Espírito para glória do Pai. A Eucaristia não só evoca o acontecimento central da nossa salvação, mas o torna presente e atuante, penhor da glória futura: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6,54).

Assim se expressa o Concílio Vaticano II a propósito do mistério da Eucaristia: “Na Última Ceia, na noite em que foi entregue, nosso Salvador instituiu o Sacrifício Eucarístico de Seu Corpo e Sangue. Por ele perpetua pelos séculos, até que volte, o Sacrifício da Cruz, confiando deste modo à Igreja, sua dileta Esposa, o memorial de sua morte e ressurreição: sacramento de piedade, sinal de unidade, vínculo de caridade, banquete pascal, em que Cristo nos é comunicado em alimento, o espírito é repleto de graça e nos é dado o penhor da futura glória” (SC 47).

O Sacramento da Eucaristia exige o máximo da reflexão teológica, que terminará por confessar devotamente e maravilhada: Mysterium Fidei; como fazemos sempre em nossas celebrações eucarísticas após a consagração do pão e do vinho. Assim afirma São João Crisóstomo: “Inclinemo-nos sempre diante de Deus sem o contradizermos, embora o que Ele diz possa parecer contrário à nossa razão e à nossa inteligência; sobre a nossa razão e a nossa inteligência, prevaleça a sua palavra. Assim nos comportemos também diante do Mistério (Eucarístico), não considerando só o que nos pode vir dos nossos sentidos, mas conservando-nos fiéis às suas palavras. Uma palavra sua não pode enganar” (In Matth. Hom. 8,4; PG 58, 473). E ainda Santo Ambrósio falando sobre a presença de Cristo nas espécies consagradas: “Persuadamo-nos que já não temos o que a natureza formou, mas o que a bênção consagrou; e que a força da bênção é maior que a força da natureza, porque a bênção até a natureza muda (…) A palavra de Cristo, que pode fazer do nada aquilo que não existia, não poderá mudar as coisas que existem naquilo que não eram? Criar coisas não é menos que mudá-las” (De myster., 9,50-52; PL 16, 422-424).

O que Jesus nos deixou com o Sacramento da Eucaristia supera tudo o que poderíamos imaginar. Temos aqui a síntese da Revelação que nos foi confiada com todo o seu amor: “…tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1); “Desejei ardentemente comer esta páscoa convosco antes de sofrer…” (Lc 22,15). É como diz Santa Teresinha de Lisieux: “Ó Jesus, deixa-me dizer, no excesso da minha gratidão, deixa-me dizer que o teu amor chega até à loucura…” ( Scritto autobiografico B n.263, em Gli scritti, Roma 1970, p.244). Trata-se do Sacramento do Amor de Deus por nós, que assumiu a forma que só o Senhor apaixonado poderia estabelecer. Jesus celebrou a Última Ceia e a instituiu como seu Testamento, compêndio de seu ser e obra salvífica, dom visível para o nosso alimento, o seu sacramento por excelência. Jesus através do seu gesto profético (ôt) da Última Ceia oferece a sua vida ao Pai pela humanidade, deixando-nos o seu Sacramento na forma de banquete sagrado. Foi o gesto simbólico mais importante realizado por Jesus, síntese de todos os outros, antecipador do futuro e realização inicial do desígnio divino reconciliador, cujo primeiro cumprimento aconteceu no mistério pascal e prefigura o cumprimento definitivo no Reino plenamente realizado. Em cada Eucaristia celebrada, a Igreja prolonga, atualizando, o gesto profético de Jesus (ôt) de autodoação, cumprindo-o na história, entre o primeiro advento do Cristo e o seu advento final.

Portanto, a Eucaristia torna sacramentalmente presente e atuante o sacrifício reconciliador de Cristo no Calvário, oferecido ao Pai por toda a humanidade. A este sacrifício se associa a Igreja que celebra a Eucaristia, oferecendo-se com e alimentando-se do Corpo de Cristo, fundamento da unidade-diversidade da própria Igreja (LG 11). No banquete eucarístico, “a eficácia salvífica do sacrifício realiza-se plenamente na comunhão, ao recebermos o corpo e sangue do Senhor” (EE 16). O Senhor nos alimenta, nos concede o seu Espírito e faz de nós um só corpo, edificando a sua Igreja (1 Cor 10,17). Esta Igreja é chamada a dar a vida pelos irmãos no seguimento de Jesus. A comunidade que participa do banquete eucarístico deve se tornar o corpo vivo do Senhor Ressuscitado. Já dizia o teólogo Joseph Ratzinger em 1963: “a meta suprema da Eucaristia não é a transformação dos dons…é a transformação dos homens viventes no corpo de Cristo”. A Eucaristia como refeição fraterna e festiva, memorial da Páscoa do Senhor, compromete a vida na solidariedade com os que sofrem: os pobres, os pecadores, os enfermos, os excluídos e marginalizados de todo o tipo. A Eucaristia é, pois, promessa de uma humanidade nova, possui um significado escatológico. Quem comunga do Corpo e Sangue do Senhor tem uma responsabilidade histórica de transformação deste mundo, até com o sacrifício da própria vida, a exemplo e fortalecido pelo sacrifício de Jesus, para que o mundo seja de Deus na fraternidade do Reino. A Eucaristia, além de mistério de fé e caridade, nos infunde esperança, aponta para o futuro e nos coloca em comunhão com a Igreja celeste, sendo como que “um pedaço do céu na terra” (EE 19).

O Magistério da Igreja tem chamado particularmente a nossa atenção nos últimos tempos para o mistério da presença real de Cristo na Eucaristia. O Papa Paulo VI na sua Encíclica Mysterium Fidei (1965) recorda que são vários os modos de presença de Cristo na sua Igreja: na oração da Igreja; quando a Igreja pratica as obras de misericórdia; na Igreja peregrina que caminha à luz da fé e movida pela caridade sob a ação do Espírito Santo; está presente quando a Igreja prega a Palavra de Deus; está presente através dos pastores que dirigem e governam o povo de Deus; e “de modo ainda mais sublime, está Cristo presente à sua Igreja enquanto esta, em seu nome, celebra o Sacrifício da Missa e administra os Sacramentos” (MF 38). E prossegue Paulo VI mais adiante, destacando a presença real de Cristo na Eucaristia: “Estas várias maneiras de presença enchem o espírito de assombro e levam-nos a contemplar o Mistério da Igreja. Outra é, contudo, e verdadeiramente sublime a presença de Cristo na sua Igreja pelo Sacramento da Eucaristia. Por causa dela, é este Sacramento, comparado com os outros, “mais suave para a devoção, mais belo para a inteligência, mais santo pelo que encerra”; contém, de fato, o próprio Cristo e é “como que a perfeição da vida espiritual e o fim de todos os Sacramentos” (Santo Tomás, Summa Theol. III,q.73,a.3c.). Esta presença chama-se “real”, não por exclusão como se as outras não fossem “reais”, mas por excelência porque “substancial”, quer dizer, por ela está presente, de fato, Cristo completo, Deus e homem” (MF 40-41). Já o Vaticano II dissera, falando sobre a presença de Cristo na liturgia, que Cristo está presente “sobretudo sob as espécies eucarísticas” (SC 7). E o Papa João Paulo II afirma na Encíclica Ecclesia de Eucharistia: “Contemplar Cristo implica saber reconhecê-Lo onde quer que Ele Se manifeste, com as suas diversas presenças mas sobretudo no sacramento vivo de seu corpo e de seu sangue. A Igreja vive de Jesus eucarístico, por Ele é nutrida, por Ele é iluminada” (EE 6).

A doutrina católica ensina que Jesus está presente na Eucaristia “verdadeiramente, realmente e substancialmente” (DH 1651). A presença real de Cristo na Eucaristia é matéria de fé para a Igreja, pois deriva da Palavra de Deus atestada nas Sagradas Escrituras e na Tradição. Jesus disse “Isto é o meu corpo…isto é o meu sangue” e em João: “Minha carne é verdadeira comida, e meu sangue é verdadeira bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim, e eu nele” (Jo 6,55-56). Já em João vemos que Jesus não recuou diante da dificuldade de aceitação que as suas duras palavras provocaram. O discípulo de Jesus deve não só estar diante dele, mas permanecer nele, sobretudo através de sua presença na Eucaristia. A Tradição da Igreja testemunhou esta presença ao longo dos séculos. O Concílio de Trento expôs de forma ampla a doutrina católica sobre a Eucaristia, que é retomada pelo Catecismo da Igreja Católica. Dizer que Cristo está verdadeiramente contido nas espécies eucarísticas significa afastar a idéia de que o Sacramento seja apenas um símbolo, no sentido de mero sinal. A presença de Cristo é real, isto é, ontológica (no nível do ser) e objetiva (não depende da subjetividade das pessoas: pensamentos, sentimentos ou mesmo fé, embora esta última seja importante para a participação frutuosa no Sacramento, a sua ausência não torna irreal a presença de Cristo no Sacramento). Por fim, a presença de Cristo na Eucaristia é substancial. O termo não é usado no sentido da filosofia de Aristóteles, mas no sentido comum, derivado da raiz latina sub-stare, significando “o que está sob as aparências” que podem mudar, ou seja, a realidade fundamental, a coisa em si. Assim fica claro que a presença de Cristo na Eucaristia não é apenas por sua ação, como nos outros sacramentos, mas é substancial e, por isto, a Eucaristia pode ser adorada. Com a consagração, a inteira substância do pão e do vinho se transforma na substância do corpo e do sangue de Cristo, embora as aparências de pão e vinho permaneçam. O Cristo inteiro está presente em cada uma das espécies eucarísticas, seja sob a aparência do pão, seja sob a aparência do vinho. Para expressar esta conversão da inteira substância das espécies eucarísticas do pão e do vinho na inteira substância do corpo e sangue do Senhor, mantendo as mesmas aparências, a Igreja criou o termo técnico “transubstanciação”. Assim, a Igreja ensina que a presença de Cristo é sacramental, não física no sentido mensurável, pois as propriedades físicas e químicas continuam a ser as do pão e do vinho.

A presença de Cristo na Eucaristia só pode ser acolhida na fé de quem aceita a Palavra de Deus. No Sacramento da Eucaristia, como diz o Concílio Vaticano II citando Santo Tomás de Aquino, “está contido todo o bem espiritual da Igreja, isto é, o próprio Cristo, a nossa Páscoa e o pão vivo que dá aos homens a vida mediante a sua carne vivificada e vivificadora pelo Espírito Santo” (PO 5). É desta presença que a Igreja vive: “a Eucaristia aparece como fonte e coroa de toda a evangelização” (PO 5). É esta presença real e pessoal de Cristo no Sacramento da Eucaristia que o Magistério da Igreja quer realçar e reavivar hoje entre os seus filhos, fomentando a celebração digna e frutuosa da Eucaristia e o culto eucarístico mesmo fora da missa (MF 66-68; EE 10; 25; MND 17-18). Celebração eucarística e adoração ao Santíssimo Sacramento não se opõem, mas se complementam e impulsionam a verdadeira vida cristã para a santidade a partir da experiência de oração e comunhão com o Senhor da história presente no adorável Sacramento, fonte de caridade que renova o mundo.

¹ Conferência de abertura do 1º Congresso Eucarístico da Arquidiocese de Mariana proferida no dia 26 de abril de 2006 na Basílica do Sagrado Coração de Jesus em Conselheiro Lafaiete, por ocasião da celebração dos 100 anos da Igreja de Mariana como Arquidiocese.

²  Professor do Instituto de Teologia do Seminário São José da Arquidiocese de Mariana.

 

Referências Bibliográficas

 

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Comunidades Misericordiosas em saída Missionária

“O amor de Cristo nos impele” (2 Cor 5,14)

Nossa alegria é “sermos discípulos do Senhor e termos sido enviados com o tesouro do Evangelho”,1 pois “conhecer Jesus é o melhor presente que qualquer pessoa pode receber; tê-lo encontrado foi o melhor que ocorreu em nossas vidas, e fazê-lo conhecido com nossa palavra e obras é nossa alegria”2. Sem essa experiência, não é possível evangelizar a cultura urbana.

Sabemos que “só no mistério do Verbo encarnado se esclarece verdadeiramente o mistério do homem”3 e que “pela sua encarnação, ele, o Filho de Deus, uniu-se de certo modo a cada homem”4. Acreditamos que “o Espírito Santo dá a todos a possibilidade de se associarem ao mistério pascal de um modo só de Deus conhecido”5.

Olhamos para a cultura urbana com a esperança de encontrar nessa realidade uma porta para o Evangelho, exigindo a conversão pastoral de nossas comunidades eclesiais para sermos presença de anúncio e testemunho humilde do Evangelho de Jesus Cristo, cientes de que “Deus habita a cidade” (Hb 11,16). Suplicamos ao Senhor que nos abra a porta da fé (At 14,27)7 em meio ao mundo plural e sedento de sentido e vida plena, só alcançáveis em Deus.

O Senhor sempre visita a humanidade: “Eis que estou à porta e bato: se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele comigo” (Ap 3,20). Cabe especialmente à Igreja, comunidade dos discípulos missionários de Jesus Cristo, como “sacramento e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano”8, guiada pelo Espírito Santo, promover esse encontro da cultura urbana com Jesus, para que todos tenham a vida em abundância que ele veio nos trazer (Jo 10,10).

No trabalho evangelizador o método e o conteúdo não devem ser separados, porque não se trata de sabedoria do mundo, mas da sabedoria de Deus. São Paulo, grande apóstolo das cidades, anuncia o mistério de Deus através da cruz de Jesus Cristo (1 Cor 2,1-5), presente no testemunho da comunidade cristã, que na sua fraqueza faz resplandecer a glória de Deus (1 Cor 1, 26-31). O Espírito Santo que tudo esquadrinha confere à comunidade o pensamento de Cristo (1 Cor 2,10-16).

O Senhor Jesus nos envia e convida a lançar as redes para a pesca em águas mais profundas, sem medo (Lc 5,1-11). É na força de sua palavra que devemos confiar e ousar, formando verdadeiras comunidades de discípulos missionários (At 2,42-47; At 4,32-37), que sejam casa da Palavra, casa do Pão, casa da Caridade9, “sal da terra e luz do mundo” (Mt 5,13-14)10, propiciadoras da iniciação à vida cristã11, comprometidas com os pobres12, abertas aos jovens, anunciadoras do Evangelho da família (cf. Francisco, Amoris Laetitia) e cuidadoras da casa comum (cf. Francisco, Laudato si’).

É a partir das pequenas comunidades eclesiais de vários tipos, que vivem a experiência da fraternidade cristã na diversidade da cultura urbana, sempre na comunhão com toda a Igreja, que se dará a inculturação do Evangelho no meio urbano. A credibilidade da comunidade virá de seu testemunho de comunhão, expresso na liturgia celebrada, na diaconia da caridade fraterna, na martiria da fé e da esperança comprometidas com a justiça do Reino de Deus que começa na história. Enfim, na mistagogia da autêntica vida cristã que se faz missão e profecia.

A comunidade cristã se edifica a partir de Jesus Cristo: “edificados sobre o alicerce dos apóstolos e dos profetas, tendo como pedra angular o próprio Cristo Jesus. Nele a construção toda, bem travada, vai crescendo e formando um templo santo no Senhor. Nele, vós também sois juntamente edificados para serdes morada de Deus, no Espírito” (Ef 2,20-22). A Igreja vive de Jesus Cristo e é o lugar do encontro com Ele. Precisamos de comunidades eclesiais de discípulos missionários, como nos exorta o Papa Francisco: “sair da própria comodidade e ter a coragem de alcançar todas as periferias que precisam da luz do Evangelho” (EG 20). Precisamos de comunidades de fé acolhedoras: “se alguma coisa nos deve santamente inquietar e preocupar a nossa consciência é que haja tantos irmãos nossos que vivem sem a força, a luz e a consolação da amizade com Jesus Cristo, sem uma comunidade de fé que os acolha, sem um horizonte de sentido e de vida” (EG 49).

A construção da casa da comunidade cristã exige pilares fundamentais já apontados nas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (2015 – 2019), através das denominadas urgências da ação evangelizadora e que conservam toda a sua validade e atualidade. Devem ser retomadas na perspectiva da configuração crescente e dinâmica à pessoa de Jesus Cristo para que tenham a eficácia propiciada pela ação santificadora do Espírito Santo. Somos chamados à santidade como lembrou o Concílio Vaticano II no quinto capítulo da Constituição sobre a Igreja Lumen Gentium. O Papa São João Paulo II na Carta Apostólica Novo Millennio Ineunte convida à retomada desse capítulo da Lumen Gentium e à eleição da santidade como prioridade pastoral para o início do novo milênio (São João Paulo II, NMI, números 30 a 41). E o Papa Francisco com a Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate aponta para o chamado à santidade no mundo atual. As nossas comunidades devem ser escola de santidade, propiciando a iniciação à vida cristã como itinerário para formar discípulos missionários (CNBB, Doc. 107).

O Papa Francisco na Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate nos convida a voltarmos às palavras de Jesus e olharmos para as situações concretas do cotidiano, buscando encarnar aquelas palavras na realidade (GEx 63). Nas bem-aventuranças (Mt 5,3-12; Lc 6,20-23) contemplamos o rosto do Mestre e o seu acolhimento e vivência em nossas comunidades eclesiais representam o anúncio do Evangelho do Reino em meio à cultura urbana contemporânea. O Papa Francisco tem dito por diversas vezes que gostaria de uma “Igreja pobre para os pobres” (EG 198). O caminho passa pelas bem-aventuranças.

“Felizes os pobres no espírito, porque deles é o Reino dos Céus” (Mt 5,3)

Precisamos de comunidades eclesiais que coloquem toda a sua confiança em Deus, assumindo a perspectiva do reino através de uma vida simples, desapegada e solidária com os pobres: “Eles eram perseverantes em ouvir o ensinamento dos apóstolos, na comunhão fraterna, na fração do pão e nas orações” (At 2,42); “entre eles ninguém passava necessidade, pois aqueles que possuíam terras ou casas as vendiam, traziam o dinheiro…depois era distribuído conforme a necessidade de cada um” (At 4,34-35). Trata-se de superar as ambições, o consumismo e a insensibilidade diante do sofrimento dos pobres, através de uma Igreja constituída por rede de comunidades, animada pela Palavra de Deus expressa nas Sagradas Escrituras, lugar de iniciação à vida cristã, em estado permanente de missão, a serviço da vida plena para todos (cf. DGAEIB 2015 – 2019).

“A opção preferencial pelos pobres está implícita na fé cristológica naquele Deus que se fez pobre por nós, para nos enriquecer com a sua pobreza”, afirmou Bento XVI no discurso inaugural da Conferência de Aparecida (DI 3). Há uma advertência no Documento de Aparecida para que a opção pelos pobres se traduza em gestos concretos, sem atitudes paternalistas (DAp 397). As comunidades eclesiais devem formar para a pobreza de coração indispensável para o seguimento de Jesus: “ser pobre no coração: isto é santidade”13.

Devemos fazer uma distinção quando falamos de pobreza na Igreja, como já fez o Documento de Medellín.14 Há a pobreza carência que ofende a dignidade do ser humano, chegando até a níveis extremos de miséria. Deve ser combatida e superada. Há a pobreza espiritual que é um valor fundamental para todos cristãos e que deve ser buscada e cultivada. Devemos colocar toda a nossa confiança em Deus, buscando em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, ordenando a vida e os bens de acordo com a vontade de Deus. Há a pobreza compromisso, pobreza assumida em solidariedade com os necessitados e como testemunho profético de seguimento de Jesus Cristo, pobreza material. Todos os cristãos devem buscar uma vida simples, austera, livre do consumismo e solidária com os pobres, capaz de partilha de bens. Podemos nos perguntar no nível pessoal: quantos amigos pobres temos? Devemos nos interrogar comunitariamente: o nosso trabalho evangelizador atinge os pobres? A nossa Igreja é “casa dos pobres” como queria São João Paulo II?15 Sinal de autenticidade cristã é a evangelização dos pobres conforme o programa de Jesus Cristo em Lc 4,16-19.

“Felizes os que choram porque serão consolados” (Mt 5,4)

As comunidades eclesiais são exortadas por esta bem-aventurança a não se conformar com o espírito do mundo e a serem solidárias com todos os sofrimentos humanos, derramando lágrimas e se empenhando na construção de um mundo novo de acordo com o Reino de Deus. A Igreja suplica ao Pai em sua oração litúrgica: “Dai-nos olhos para ver as necessidades e os sofrimentos dos nossos irmãos e irmãs; inspirai-nos palavras e ações para confortar os desanimados e oprimidos; fazei que a exemplo de Cristo, e seguindo o seu mandamento, nos empenhemos lealmente no serviço a eles. Vossa Igreja seja testemunha viva da verdade e da liberdade, da justiça e da paz, para que toda a humanidade se abra à esperança de um mundo novo”.16 Trata-se, como diz São Paulo, de “chorar com os que choram” (Rm 12,15). O Concílio Vaticano II na Constituição Pastoral Gaudium et Spes sobre a relação da Igreja com o mundo afirma: “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo”.17 A Igreja está imersa na cultura urbana e deve testemunhar e promover com as suas comunidades em rede a fraternidade cristã, enfrentando os desafios do individualismo e da insensibilidade, promovendo o humanismo integral e solidário.18 “Saber chorar com os outros: isto é santidade”.19  Como nos aponta o Papa Francisco em seu magistério, nossas comunidades devem ser capazes de sofrer, rezar e não se conformar com o mal e as injustiças sociais.

“Felizes os mansos porque possuirão a terra” (Mt 5,5)

Numa cultura urbana marcada pela violência e até pelo ódio, consequências das injustiças sociais e de ideologias, as comunidades eclesiais são convidadas a responder com a mansidão, que é fruto do Espírito Santo (Gl 5,23), no seguimento de Jesus: “sede discípulos meus, porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para vós” (Mt 11,29). Defendemos as convicções da fé cristã com mansidão e coragem (1 Pd 3,16), tratando com caridade os adversários (2 Tm 2,25). O Papa Francisco nos recorda que “a mansidão é outra expressão da pobreza interior, de quem deposita a sua confiança apenas em Deus” (GEx 74) e afirma “reagir com humilde mansidão: isto é santidade” (GEx 74).

A literatura cristã primitiva registra de forma bela e profética o testemunho de mansidão e anúncio do Evangelho das comunidades cristãs, como nesta pérola da Carta a Diogneto, de autor desconhecido do século II: “Os cristãos não se distinguem dos outros homens, nem por sua terra, nem por língua ou costumes. Não moram em cidades próprias, nem falam língua estranha, nem têm algum modo especial de viver […] adaptando-se aos costumes do lugar quanto à roupa, ao alimento e ao resto, testemunham um modo de vida admirável e, sem dúvida, paradoxal. Vivem em sua pátria, mas como forasteiros; participam de tudo como cristãos e suportam tudo como estrangeiros. Toda pátria estrangeira é pátria deles, e cada pátria é estrangeira. Casam-se como todos e geram filhos, mas não abandonam os recém-nascidos. Põem a mesa em comum, mas não o leito; estão na carne, mas não vivem segundo a carne; moram na terra, mas têm a sua cidadania no céu; obedecem às leis estabelecidas, mas com a sua vida ultrapassam as leis; amam a todos e são perseguidos por todos; são desconhecidos e, apesar disso, condenados; são mortos e, desse modo, lhes é dada a vida; são pobres, e enriquecem a muitos; carecem de tudo, e têm em abundância de tudo; são desprezados e, no desprezo, tornam-se glorificados; são amaldiçoados e, depois, proclamados justos; são injuriados, e bendizem; são maltratados, e honram; fazem o bem, e são punidos como malfeitores; são condenados, e se alegram como se recebessem a vida. Pelos judeus são combatidos como estrangeiros, pelos gregos são perseguidos, e aqueles que os odeiam não saberiam dizer o motivo do ódio. Em poucas palavras, assim como a alma está no corpo, assim os cristãos estão no mundo”.20

A mansidão cristã não deve ser compreendida como omissão ou insensibilidade social ou alienação. As comunidades eclesiais devem encontrar sempre no Evangelho o ponto de partida para as respostas aos desafios do mundo urbano contemporâneo. O anúncio do Reino por Jesus foi testemunhado por gestos proféticos: “Jesus respondeu-lhes: ‘Ide contar a João o que estais ouvindo e vendo: cegos recuperam a vista, paralíticos andam, leprosos são curados, surdos ouvem, mortos ressuscitam e aos pobres se anuncia a Boa Nova. E feliz de quem não se escandaliza a meu respeito” (Mt 11,4-6). A Igreja reza em sua liturgia, dirigindo-se ao Pai com os olhos fixos em Jesus: “Ele sempre se mostrou cheio de misericórdia pelos pequenos e pobres, pelos doentes e pecadores, colocando-se ao lado dos perseguidos e marginalizados. Com a vida e a palavra anunciou ao mundo que sois Pai e cuidais de todos como filhos e filhas”.21  A Doutrina Social da Igreja afirma a primazia da dignidade da pessoa humana, criada à imagem e semelhança de Deus, a destinação universal dos bens, que relativiza e subordina o direito de propriedade, enfatizando sua função social. Portanto, a mansidão cristã aponta para a promoção da cultura da vida em toda a realidade urbana, enfrentando os desafios da violência, da moradia, da população em situação de rua, da população encarcerada, dos migrantes e refugiados, das crianças e dos idosos, da juventude e da família, do mundo do trabalho, da educação, da saúde, do transporte, do ambiente acadêmico universitário, da ciência e da tecnologia, dos meios de comunicação social e da ecologia (lixo, saneamento, água potável, poluição industrial, desmatamento, destruição de encostas e deslizamentos, atividade mineradora criminosa, ceifadora de vidas humanas e destruidora da natureza, como ficou evidente nos rompimentos de barragens de rejeitos em Mariana e Brumadinho). Trata-se de cobrar políticas públicas de inclusão social, de participação nos conselhos de cidadania, de promoção da democracia direta e participativa, de incentivo a práticas de economia popular, solidária e sustentável, dentro daquela perspectiva da ecologia integral proposta pelo Papa Francisco na Encíclica Laudato si’,22  afirmando a vocação política dos cristãos leigos e leigas como “sal da terra e luz do mundo” (Mt 5,13-14). A posse da terra pelos mansos implica testemunho do amor cristão e luta em defesa da dignidade de cada um e de todos os seres humanos e da beleza da criação de Deus.

“Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados” (Mt 5,6)

Sendo as bem-aventuranças expressão do rosto de Jesus, caminho e conteúdo da evangelização, devemos buscar nos sentimentos de Jesus a sua origem: “tende entre vós os mesmos sentimentos que havia em Cristo Jesus” (Fl 2,5). No alto da cruz Jesus clamou: “Tenho sede!” (Jo 19,28). De que tem sede Jesus? De que têm sede as nossas comunidades eclesiais? Que sede está presente na cultura urbana? Diante da samaritana Jesus pediu: “Dá-me de beber” (Jo 4,7). O Senhor Jesus tem sede da entrega confiante a Ele de nossas comunidades eclesiais e de nosso empenho missionário. O Senhor tem sede de que sejamos uma Igreja servidora, samaritana, pobre para os pobres. Foi o que uma multidão de santas e santos perceberam ao longo da história da Igreja, como Santo Agostinho, São Bernardo de Claraval, São Francisco de Assis, Santa Teresa de Calcutá, a Beata Irmã Dulce, Santo Oscar Romero. As nossas comunidades eclesiais têm fome e sede de justiça (Mt 5,6)? Esperamos “novos céus e nova terra, onde habita a justiça” (1 Pd 3,13)? Não é isso que o Espírito Santo diz hoje às nossas Igrejas pela boca do Papa Francisco: “Sonho com uma opção missionária capaz de transformar tudo, para que os costumes, os estilos, os horários, a linguagem e toda a estrutura eclesial se torne um canal proporcionado mais à evangelização do mundo atual que à autopreservação”?23

As nossas comunidades eclesiais se reúnem em torno das mesas da Palavra e da Eucaristia. A mesa está no centro da celebração da fé cristã. É sempre ato comunitário, que exige presença, acolhida das pessoas, cuidado e afeto pelos outros. A Eucaristia é memorial da Páscoa do Senhor, banquete fraterno, penhor da vida definitiva. Bem celebrada, transforma as pessoas em discípulos missionários de Jesus Cristo e testemunhas do Evangelho do Reino em meio à cultura urbana contemporânea. Na liturgia ouvimos o convite do Senhor: “Quem tem sede venha, e quem quiser receba de graça a água vivificante” (Ap 22,17). Deve ser a celebração dos sedentos e famintos de justiça e conferir às nossas comunidades eclesiais credibilidade existencial, antropológica, afetiva e missionária em meio à cultura urbana fragmentada e sedenta de sentido. Jesus tem sede de nos entregar o Espírito Santo, consumação do dom de sua vida. O Espírito Santo é a “água viva” (Jo 7,37-39) da qual o coração do ser humano tem sede. A comunidade transformada pelo Espírito Santo converte-se ao Senhor Jesus e a liturgia da Igreja louva ao Pai “por Cristo, com Cristo, em Cristo”.

As comunidades eclesiais devem ser casa da Palavra, casa do Pão e também casa da Caridade. Não há caridade sem justiça, embora a caridade ultrapasse a justiça. A justiça é fidelidade à vontade de Deus em todas as circunstâncias da vida e deve se concretizar especialmente no compromisso com os sofredores: “aprendei a fazer o bem, buscai o que é correto, defendei o direito do oprimido, fazei justiça para o órfão, defendei a causa da viúva” (Is 1,17). Assim, os problemas sociais e os desafios ecológicos da atual cultura urbana têm que ser enfrentados pelas nossas comunidades eclesiais numa postura de serviço, de diálogo, de respeito à dignidade da pessoa humana, de defesa dos excluídos e marginalizados, de busca da justiça e do bem comum, de cuidado com o ambiente na perspectiva da antropologia ecológica apontada pelo Papa Francisco na Laudato si’. “Buscar a justiça com fome e sede: isto é santidade”.24

“Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia” (Mt 5,7)

A misericórdia é “o coração pulsante do Evangelho”.25 Afirma o Papa Francisco que “o tema da misericórdia exige ser reproposto com novo entusiasmo e uma ação pastoral renovada”,26 sendo determinante para a credibilidade da Igreja em seu serviço evangelizador. No juízo final27 todos seremos julgados precisamente a propósito da misericórdia: “Pois eu estava com fome, e me destes de comer; estava com sede, e me destes de beber; eu era forasteiro, e me recebestes em casa; estava nu e me vestistes; doente, e cuidastes de mim; na prisão, e fostes visitar-me” (Mt 25,35-36). Para São João Paulo II este texto do Evangelho é mais que convite à caridade, é página de cristologia que permite contemplar o mistério do Cristo.28 Por fidelidade ao Mestre Jesus Cristo as nossas comunidades eclesiais devem ser casa da caridade e da misericórdia na sua prática cotidiana e no empenho para que tenhamos sistemas sociais, políticos, econômicos e culturais justos, promotores do bem comum e da inclusão de todos sem discriminações.

Alerta-nos o Papa Francisco para as mutilações do coração misericordioso do Evangelho promovidas por ideologias29 e nos recorda o culto que realmente agrada a Deus.30 Precisamos cultivar verdadeira vida de oração. Oração e ação não se opõem. Exigem-se e alimentam-se mutuamente. Na oração redescobrimos a nossa dignidade de filhos de Deus e somos conduzidos à práxis da misericórdia em meio à realidade da cultura urbana. Na práxis da misericórdia poderemos nos encontrar e trabalhar com muitas pessoas de boa vontade e instituições que não partilham de nossa fé cristã, mas cultivam autênticos valores humanos. O nosso ideal de santidade não pode desconsiderar os desafios da atual cultura urbana: “Não podemos propor-nos um ideal de santidade que ignore a injustiça deste mundo, onde alguns festejam, gastam folgadamente e reduzem a sua vida às novidades do consumo, ao mesmo tempo que outros se limitam a olhar de fora enquanto a sua vida passa e termina miseravelmente” (GEx 101). Também o engano do consumismo hedonista, presente na cultura urbana, promove o fechamento egoísta voltado para a reivindicação de direitos à diversão e utilização do tempo livre, que afastam da austeridade da vida e da dedicação e solidariedade para com os que sofrem e são marginalizados. A utilização sem discernimento dos meios de comunicação social nos alienam da dor dos outros: “O próprio consumo de informação superficial e as formas de comunicação rápida e virtual podem ser um fator de estonteamento que ocupa todo o nosso tempo e nos afasta da carne sofredora dos irmãos. No meio deste turbilhão atual, volta a ressoar o Evangelho para nos oferecer uma vida diferente, mais saudável e mais feliz” (GEx 108).

A Igreja não é a comunidade dos perfeitos, mas dos pecadores perdoados. Devemos ter consciência da misericórdia de Deus para conosco e sermos embaixadores de sua misericórdia em meio à cultura urbana. Além da solidariedade para com os que sofrem, traduzida em gestos concretos, devemos ser embaixadores do perdão. Devemos formar comunidades de discípulos missionários abertos ao diálogo, à acolhida, à compreensão, comunidades compassivas. Comunidades dispostas a percorrer um caminho de discernimento espiritual, buscando a verdade do Evangelho e o bem possível, e não de meros aplicadores rígidos da lei, conforme nos exorta o Papa Francisco na Amoris Laetitia e de acordo com o Evangelho da misericórdia (cf. Lc 15). Devemos estar dispostos a “acompanhar, discernir e integrar a fragilidade”.31 “Olhar e agir com misericórdia: isto é santidade”.32

“Felizes os puros de coração, porque verão a Deus” (Mt 5,8)

O Senhor quer nos dar um coração novo (Ez 36,26), sincero, transparente, desarmado, coerente, com reta intenção, conduzido pelo Espírito Santo. Um coração com motivações purificadas, que faz o bem por amor como diz São Paulo no hino à caridade: “Se eu falasse as línguas dos homens e as dos anjos, mas não tivesse amor, eu seria como um bronze que soa ou um címbalo que retine. Se eu tivesse o dom da profecia, se conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, se tivesse toda a fé, a ponto de remover montanhas, mas não tivesse amor, eu nada seria. Se eu gastasse todos os meus bens no sustento dos pobres e até me entregasse como escravo, para me gloriar, mas não tivesse amor, de nada me aproveitaria” (1Cor 13,1-3). Esta simplicidade e pureza de coração é graça que precisa ser continuamente suplicada ao Espírito Santo em nossas comunidades: “Ó Espírito Santo, dai-me um coração grande, aberto à vossa silenciosa e forte palavra inspiradora, fechado a todas as ambições mesquinhas, alheio a qualquer desprezível competição humana, compenetrado do sentido da santa Igreja! Um coração grande, desejoso de se tornar semelhante ao coração do Senhor Jesus! Um coração grande e forte para amar a todos, para servir a todos, para sofrer por todos! Um coração grande e forte para superar todas as provações, todo tédio, todo cansaço, toda desilusão, toda ofensa! Um coração grande e forte, constante até o sacrifício, quando for necessário! Um coração cuja felicidade é palpitar com o coração de Cristo e cumprir humilde, fiel e corajosamente, a vontade do Pai. Amém” (São Paulo VI).

Podemos considerar também aqui a religiosidade popular na sua simplicidade e pureza de expressões.33 Em meio à cultura urbana está presente a religiosidade popular como afirmação da própria identidade e sinceridade da fé dos simples, expressa sobretudo nos gestos. Passagem bíblica emblemática nesse sentido é a da pecadora que, na casa de Simão, o fariseu, expressa o seu amor a Jesus através das lágrimas e do toque (Lc 7,36-50). O que a acolhida formal e educada de Simão não alcançou, foi concedido aos gestos simples e sinceros da mulher: a experiência da misericórdia de Deus. “Manter o coração limpo de tudo o que mancha o amor: isto é santidade”.34

“Felizes os promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus” (Mt 5,9)

A paz é fruto da justiça (Is 32,7) e do amor, postula uma ordem justa. A construção da paz é tarefa permanente do cristão, que não é simplesmente um pacifista, mas promotor da paz pelo amor, que é a alma da justiça.35 Trata-se, antes de tudo, de dom de Deus: “Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. Não é à maneira do mundo que eu a dou” (Jo 14,27). A rejeição da paz é rejeição do próprio Deus: “A paz com Deus é o fundamento último da paz interior e da paz social. Por isso mesmo, onde a paz social não existe, onde há injustiças, desigualdades sociais, políticas, econômicas e culturais, rejeita-se o dom da paz do Senhor; mais ainda, rejeita-se o próprio Senhor (Mt 25,31-46).”36 A paz “não se reduz a uma ausência de guerra, fruto do equilíbrio sempre precário de forças. Constrói-se, dia a dia, na busca de uma ordem querida por Deus, que traz consigo uma justiça mais perfeita entre os homens”.37

Sem dúvida, a Igreja anuncia o “evangelho da paz” (Ef 6,15), que é Jesus Cristo em pessoa (Ef 2,14), mas isso não significa ignorar ou deixar de enfrentar os desafios da violência explícita ou institucionalizada pelas injustiças sociais em nossa cultura urbana. Afirma o Papa Francisco: “A paz social não pode ser entendida como irenismo ou como mera ausência de violência obtida pela imposição de uma parte sobre as outras. Também seria uma paz falsa aquela que servisse como desculpa para justificar uma organização social que silencie ou tranquilize os mais pobres, de modo que aqueles que gozam dos maiores benefícios possam manter o seu estilo de vida sem sobressaltos, enquanto os outros sobrevivem como podem. […] A dignidade da pessoa humana e o bem comum estão por cima da tranquilidade de alguns que não querem renunciar aos seus privilégios. Quando estes valores são afetados, é necessária uma voz profética”.38 Portanto, as nossas comunidades eclesiais são interpeladas a não ignorar os conflitos da cultura urbana, através de omissão insensível, bem como a não se tornarem prisioneiras da conjuntura conflitual,39 mas a enfrentar o conflito como pacificadores (Mt 5,9) num processo de diálogo que contribua para a paz fundada na justiça.40 “Semear a paz ao nosso redor: isto é santidade.” 41

“Felizes os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus” (Mt 5,10)

Num mundo marcado pelo pecado, não há como seguir Jesus Cristo fielmente sem assumir a cruz, suportando com paciência e mansidão a resistência ao Reino de Deus, configurando-nos sempre mais, pela graça do Espírito Santo, ao mistério pascal do Senhor. Nossas comunidades eclesiais devem crescer no seguimento de Jesus, aceitando as humilhações cotidianas, desde as situações cruentas de martírio até as mais diversas perseguições, agressões e calúnias. Somos chamados a vencer o mal pelo bem (cf. Rm 12,17-21). As humilhações nos farão crescer na humildade e na configuração ao Senhor: “Cristo sofreu por vós deixando-vos um exemplo, para que sigais os seus passos” (1 Pd 2,21). Nessas situações, como os apóstolos, devemos cultivar a alegria: “alegres por terem sido considerados dignos de injúrias por causa do santo Nome” (At 5,41). Não devemos ter medo se sofremos por causa do Evangelho, pois não estamos sozinhos: “Eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos” (Mt 28,20). E pelo Espírito Santo temos a certeza da fé de que nada “será capaz de nos separar do amor de Deus, que está no Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 8,39).

Vivendo a Santidade na Comunidade de Fé para a Evangelização da Cultura Urbana

Não haverá evangelização da cultura urbana sem o testemunho de santidade. O caminho da santidade passa pela comunidade eclesial que procura viver no espírito das bem-aventuranças evangélicas. Reafirmemos o nosso compromisso com o Reino de Deus e a evangelização da cultura urbana, sendo uma Igreja que tem como pilares de sua ação: ser uma comunidade de comunidades, em estado permanente de missão, atenta à iniciação à vida cristã, espaço de animação bíblica da vida e da pastoral, a serviço da vida plena para todos, em meio à cultura urbana contemporânea!

Como a Virgem Maria, atenta às pequenas coisas da vida cotidiana, procuremos formar comunidades de discípulos missionários de Jesus, fiéis à vontade do Pai, na dinâmica do Reino que Jesus anunciou: “A que é semelhante o reino de Deus e com que poderei compará-lo? Ele é como a semente de mostarda, que um homem pega e atira no seu jardim. A semente cresce, torna-se uma grande árvore, e as aves do céu fazem ninhos nos seus ramos. Jesus disse ainda: com que poderei ainda comparar o reino de Deus? Ele é como o fermento que uma mulher pega e mistura com três porções de farinha, até que tudo fique fermentado” (Lc 13,18-21).

Cônego Lauro Sérgio Versiani Barbosa

1 V CONFERÊNCIA GERAL DO EPISCOPADO LATINO-AMERICANO E DO CARIBE. Documento de Aparecida, n. 28.

2 Ibidem, n.29.

3 CONCÍLIO VATICANO II. Gaudium et Spes, n. 22.

4 Ibidem.

5 Ibidem.

6FRANCISCO. Lumen Fidei, n.50 – 57.

7 BENTO XVI. Porta Fidei, n.1.

8 CONCÍLIO VATICANO II. Lumen Gentium, n.1.

9 CNBB. Comunidade de Comunidades: uma nova paróquia, Doc. 100.

10 CNBB. Cristãos Leigos e Leigas na Igreja e na Sociedade, Doc 105.

11 CNBB. Iniciação à vida cristã, Doc. 107.

12 FRANCISCO. Evangelii Gaudium, n.197 – 201.

13 FRANCISCO. Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate, n.70.

14 II CONFERÊNCIA GERAL DO EPISCOPADO LATINO-AMERICANO. Documento de Medellín, 14.

15SÃO JOÃO PAULO II. Novo Millennio Ineunte, n. 50.

16 MISSAL ROMANO. Oração Eucarística VI-D: Jesus que passa fazendo o bem.

17 GS 1.

18 PONTIFÍCIO CONSELHO JUSTIÇA E PAZ. Compêndio de Doutrina Social da Igreja, n.5.

19 FRANCISCO. Gaudete et Exsultate, n. 76.

20 PADRES APOLOGISTAS. Carta a Diogneto, n. 5 e 6, p. 22 e 23.

21MISSAL ROMANO. Oração Eucarística VI-D: Jesus que passa fazendo o bem.

22 FRANCISCO. Laudato si’, n.137.

23 FRANCISCO. Evangelii Gaudium, n.27.

24 FRANCISCO. Gaudete et Exsultate, n.79.

25 FRANCISCO. Misericordiae Vultus, n.12.

26 Ibidem.

27 Mt 25,31-46.

28 SÃO JOÃO PAULO II. Novo Millennio Ineunte, n. 49.

29 FRANCISCO. Gaudete et Exsultate, n.100 – 103.

30FRANCISCO. Gaudete et Exsultate, n.104 – 109.

31FRANCISCO. Amoris Laetitia, n.291 – 312.

32 FRANCISCO. Gaudete et Exsultate, n.80.

33V CONFERÊNCIA GERAL DO EPISCOPADO LATINO-AMERICANO E DO CARIBE. Documento de Aparecida, n.258 – 265.

34 FRANCISCO. Gaudete et Exsultate, n. 86.

35 CONCÍLIO VATICANO II. Gaudium et Spes, n.78.

36 II CONFERÊNCIA GERAL DO EPISCOPADO LATINO-AMERICANO. Documento de Medellín, n. 2.14.

37 SÃO PAULO VI. Populorum Progressio, n. 76.

38 FRANCISCO. Evangelii Gaudium, n. 218.

39 Ibidem, n. 227.

40 Ibidem, n. 239.

41 FRANCISCO, Gaudete et Exsultate, n. 89.