“Sermos Mães presentes como Maria…”

Entre os personagens próximos de Jesus, poucos são como Maria. Dela não se diz muita coisa nos evangelhos, mas o que se diz é surpreendente. Mãe, testemunha, seguidora, servidora, presente… Uma mulher fiel a Deus e capaz de ver mais além do cotidiano e estabelecido; uma mulher capaz de ver diferente. Onde outros viam uma loucura, Maria viu um horizonte; onde muitos tinham visto uma transgressão, ela intuiu a promessa de Deus; onde tantos teriam estremecido diante da proposta de Deus e teriam exigido mais provas, mais seguranças ou mais garantias, Maria exclamou: “faça-se”. Onde a lei era a referência e a condenação, ela foi capaz de cantar a grandeza do Deus que está com os mais simples e quebra as estruturas estabelecidas; onde tudo era convencional, Maria, com uma acolhida feita de valentia, confiança e entrega, foi capaz de colaborar com Deus de modo radical; onde todos viam o desenlace frustrante e triste de uma festa de casamento, ela “viu e antecipou a hora de seu Filho” … Porque estava sempre presente.

Somos mulheres, somos privilegiadas por gerar vidas, amamentar e ensinar os nossos filhos a darem osseus primeiros passos. A missão de uma mãe é muito valiosa! Amar aos filhos é o sentimento mais puro e real que o ser humano pode nutrir! Essa ligação de mãe e filho é profunda,sincera e absoluta. Na hora do grito e da dornós clamamospor nossas mães. É para as mães que os filhos geralmente dão o primeiro sorriso, expressando assim uma profunda união afetiva. Os ensinamentos das mães para os filhos acontecem durante toda a vida! Os filhos são sempre crianças que procuram o colo e a mãe acalma, escuta e aconselha…

No íntimo de todas as mães têm um só coração: o do filho!Assim, filhos e mães se dialogam por estarem unidos profundamente por laços afetivos, por existir o amor, centro de tudo, e, quem nos ensinou primeiro a amar foi o próprio Jesus. Ele foi o Filho encarnado da Virgem Maria. Ela exemplo de Mãe e de Esposa. Estamos no mês de Maria, a Ela rogamos por nossos filhos, pois aprendemos com nossas mães a devotarmo-nos e pedir a intercessão de Nossa senhora através da oração do terço. Desse modo, ensinamos os nossos filhos também a rezar o Santo Rosário, isso é amor incondicional!Afinal, ensinar os filhos a rezar e a trilhar os caminhos do Cristo deveser o papel de todas as mães! A missão que todas as mães não podem deixar de cumprir é a educação na fé de seus filhos. Cristo deve ser o centro, é para Ele e por Ele que criamos e educamos os nossos filhos.

Peçamos a Mãe de Fátima para que nos inspire a sermos as verdadeiras mães que nossos filhos precisam para solidificarem suas direções. Sejamos intercessoras dos nossos filhos em todos os momentos de suas vidas, pois assim também eles serão dos seus filhos e irmãos. A busca, o ensinar para “Ser” é muito mais gratificante do que o ensinar para o “Ter”. Os objetivos de nossas vidas são trilhados quando caminhamos de mãos dadas com Maria, Consoladora dos aflitos e protetora de todos nós. Ela ensinou e educou Jesus, por isso colheu os frutos.

Nesse mês de Maria, em que celebramos o Jubileu de Nossa Senhora de Fátima, seremos privilegiados por saborear o amor e contemplar as figuras de nossas mães. E, se elas já tiverem partido para junto do Pai, teremos a oportunidade de fazermos memória afetiva da presença delas em nossas vidas, pois tudo que a memória amou é eterno. Porque fomos e somos amados, cada vez mais devemos sentir o apelo para amar e servir a todos!

Nesse sentido, agradeçamos a Mãe de Fátima por ter concebido em nossos ventres maternais osnossos filhos! Que Ela nos ensine cada vez mais a sermos perseverantes na escuta da Palavra do seu filho Jesus Cristo para, assim, ajudarmos os nossos filhos a construir um futuro promissor de amor. O amor,a gratuidade, o companheirismo são primordiais para a solidificação do amor maternal.Porque estava presente a Deus, Maria fez-se presente nos momentos decisivos de seu Filho, bem como fez-se presente na vida das pessoas. Uma presença que faz a diferença: presença solidária, marcada pela atenção, prontidão e sensibilidade, próprias de uma mãe. A presença silenciosa, original e mobilizadora de Maria desvela e ativa também em nós uma presença inspiradora, ou seja, descentrar-nos para estar sintonizados com a realidade e suas carências. Que a atitude de Maria nos mobilize para encontrar outras vidas, outras histórias, outras situações; escutar relatos que trazem luz para nossa própria vida; ver a partir de um horizonte mais amplo, que ajuda a relativizar nossas pretensões absolutas e a compreender um pouco mais o valor daquilo que acontece ao nosso redor.

 

Helena Martins

Coordenadora Paroquial da Dimensão Catequética

 

 

CLAM  E O PACTO PELA VIDA E PELO BRASIL

Há exatamente um ano, no dia Mundial da Saúde, foi lançado pela CNBB , com apoio de várias instituições, dentre elas o CNLB, o Pacto pela Vida e pelo Brasil como resposta aos inúmeros desafios enfrentados pela pandemia do Covid-19 e suas consequências.

Vivemos uma crise econômica, sanitária, política e ética e cruzar os braços diante deste cenário é no mínimo uma omissão. Quantos irmãos e irmãs precisam morrer? Não são números frios, são nomes, rostos de pessoas que não tiveram sequer um enterro digno…

Estamos na oitava da páscoa e o período pascal nos desafia a não olharmos para dentro do túmulo em busca do corpo de Jesus e dos mais de 300 mil mortos pela pandemia, mas a buscá-los entre os que vivem e querem viver e anunciar a VIDA em sua plenitude!

Com este pensamento o Clam(Conselho do Laicato da Arquidiocese de Mariana) reuniu 62 lideranças(Cristãos leigos, religiosos e padres) para efetivar a organização dos mobilizadores e articuladores do Pacto pela Vida e pelo Brasil. Na reunião, após a acolhida calorosa dos participantes, feita pela Silene, coordenadora da Dimensão Sociopolítica, Leleco fez uma breve e belíssima análise de conjuntura para situar o Pacto pela Vida e pelo Brasil  no atual contexto.  Jairo e Leonardo fizeram a apresentação do Pacto pela Vida e pelo Brasil em suas diversas etapas . Esclarecidas as dúvidas, por Sonia e Leci, cada um e cada uma motivados  e impactados pela necessidade de derrotar este projeto de morte, comprometeram-se a buscar novos articuladores .  Que Nossa Senhora da Alegria, protetora do Laicato, ajude-nos a espalhar este grito em defesa da vida e a lutar contra esta estrutura de morte que teima em desafiar-nos.


Sônia Barbosa

Tempo quaresmal: tempo de graças!

João Ciro Santana e Paula Batalha Santana
(Coordenação Pastoral Familiar – fev/2021)


Quaresma, tempo da Igreja que nos ajuda a aperfeiçoar nossa face divina. Deus, que é Pai, criou-nos à sua imagem e semelhança; mas nós diminuímos a semelhança pela prática do pecado, nos afastando d’Ele. O tempo quaresmal é para nós graça divina; Deus, em seu infinito amor, está sempre querendo nos resgatar da nossa vida de pecado.

Neste ano, o tempo da quaresma se cruza com tempo da pandemia! A pandemia ceifou vidas de filhos de Deus; vidas que poderiam estar sendo salvas, se mantivéssemos nossa semelhança com Deus e nosso amor ao próximo. Nesta pandemia assistimos à banalização da vida, um dom de Deus, um tesouro. Quantas famílias enlutadas, sofrendo, por negligências, por desgovernos. Por falta de amor à vida, ao próximo! Há dirigentes que não cumprem a função para a qual foram eleitos. Há cidadãos que desprezam os protocolos de saúde em tempo de pandemia. Vivemos um tempo de dor, de mortes e de pecado!

Mas não é esse o plano de Deus para seus filhos. Deus nos quer vivos e felizes, deixemo-nos resgatar neste tempo quaresmal. O Evangelho de São Mateus (capítulo 6, versículos 1 a 6 e 16 a 18) nos ajuda a viver este bonito tempo quaresmal. Ele nos fala de três práticas cristãs: dar esmola, fazer orações e jejuar.

Dar esmola é uma atitude de amor ao próximo, de compaixão e nos torna menos egoístas, menos avarentos. Nesta prática aprendemos a amar ao próximo; o que falta a alguém pode estar sobrando na nossa casa. A esmola, no entanto, não se restringe a doar o que nos sobra ou o que não nos faz falta; muito menos, o que queremos descartar de qualquer forma… a esmola cristã é a justiça que se faz doando com amor o que falta ao outro. Na pandemia, quantas pessoas sofrem e esperam por justiça social; uma boa prática seria fortalecer movimentos sociais nas suas reivindicações: direito à alimentação, à moradia, ao saneamento básico, à vacina… Os governantes, os líderes políticos e empresariais, por si mesmos, dificilmente, atenderão às necessidades e direitos dos mais necessitados. Promover a justiça social é dever de todo cristão.

A oração, por sua vez, nos coloca em diálogo com Deus. A oração é um poder que Deus nos concede, podemos falar com Ele, o amigo celestial que nos ouve. A oração é uma força que nos une sempre mais ao Pai Criador, ela nos afasta do pecado. Quem reza diariamente não se deixa atrair pela perversão do pecado. Em tempo de pandemia, rezemos pelos governantes e pelo povo que sofre no mundo inteiro. A oração nos fortalece, nos coloca em sintonia com Deus e com os irmãos. Se Jesus orava a Deus Pai, quanto mais nós pecadores devemos ter essa prática cristã: a oração é graça, é benção; ela tem poder e transforma!

O jejum é uma atitude contra a gula, nos ajuda a conter as vontades impensadas, rebeldes e egoístas. O jejum nos ajuda a pensar no irmão que passa fome, nos ajuda a repartir o pão. Repartir o pão nos iguala mais a Jesus que o fez na última ceia e, depois de ressuscitado, o repetiu quando reaparece a seus discípulos. Nesta cena bíblica, os discípulos reconhecem Jesus justamente quando Ele parte e reparte o pão. Alimentar a quem tem fome é atitude cristã, agrada a Deus que ama infinitamente seus filhos.

Fortaleçamos nossa semelhança com Deus Pai criador, neste bonito tempo quaresmal: cuidando dos que precisam do nosso cuidado; conversando com Deus por meio da oração; e jejuando para fortalecer nosso espírito fraternal.

Citando Pe. Zezinho: vamos “viver como Jesus viveu; amar como Jesus amou”!

SÃO JOSÉ, PADROEIRO DA IGREJA CATÓLICA

No último dia 8 de dezembro, o Papa Francisco deu um grande presente à Igreja, publicando a carta apostólica PatrisCordis(Coração de Pai), instituindo um ano jubilar especial em honra a São José. Podemos nos perguntar: o que significa este ano especial? Por que o Papa o instituiu? Até quando segue esse ano especial? Como devemos vivê-lo? Quais os principais pontos destacados pelo Papa Francisco na carta? Quais são seus principais objetivos?

O Papa Francisco instituiu o Ano de São José para celebrar os 150 anos em que o santo foi declarado padroeiro da Igreja Católica, pelo Beato Pio IX a 8 de dezembro de 1870. O ano especial começou no dia 8 de dezembro de 2020 e segue até 8 de dezembro de 2021.

O Papaexpressou seu desejo de partilhar conosco algumas reflexões pessoais sobre a figura tão extraordinária de São José, principalmente a partir da experiência da pandemia em que pudemos experimentar como a vida é tecida e sustentada por pessoas comuns, que não aparecem nas manchetes de jornais e nem em grandes passarelas: médicos, enfermeiros, trabalhadores de supermercado e de limpeza, voluntários, sacerdotes e religiosos por exemplo, entre tantos outros, que compreenderam que ninguém se salva sozinho. Gente como São José, “o homem que passa despercebido, o homem da presença cotidiana discreta e escondida”.

“O objetivo desta carta apostólica é aumentar o amor por este grande Santo, para nos sentirmos impelidos a implorar a sua intercessão e para imitarmos as suas virtudes e o seu desvelo”, explica o Papa, destacando sete aspectos do exemplo de São José, a partir de sua dimensão paterna, modelo de pai para a humanidade: pai amado, pai de ternura, pai na obediência, pai no acolhimento, pai com coragem criativa, pai trabalhador e pai na sombra.

Pai sempre amado pelo povo cristão, por seu papel na história da salvação. Pai na ternura, pois Jesus viu a ternura de Deus em José, que nos faz aceitar a nossa fraqueza, por meio da qual se realiza a maior parte dos desígnios divino. Pai na obediência a Deus, pois com o seu “fiat” salva Maria e Jesus e ensina o seu Filho a “fazer a vontade do Pai, cooperando ao grande mistério da Redenção. Pai no acolhimento, porque “acolhe Maria sem colocar condições prévias” e também, confiante no Senhor, acolhe na sua vida os acontecimentos que não compreende com um protagonismo “corajoso e forte”, que deriva da fortaleza que nos vem do Espírito Santo. Pai com coragem criativa, que sabe transformar um problema numa oportunidade, antepondo sempre a sua confiança na Providência. Ele enfrenta os problemas concretos da sua Família, exatamente como fazem outras famílias do mundo, em especial aquelas migrantes. Pai trabalhador que sustentou sua família com seu trabalho honesto. Com ele, Jesus aprendeu o valor, a dignidade e a alegria do que significa comer o pão fruto do próprio trabalho. Destacando vários aspectos da questão do trabalho como uma urgente questão social, Papa Francisco questiona: “Como podemos falar da dignidade humana sem nos empenharmos por que todos, e cada um, tenham a possibilidade dum digno sustento?” Pai na sombra pois para Jesus, José é a sombra na terra do Pai celeste. “Não se nasce pai, torna-se tal, afirma Francisco, porque “se cuida responsavelmente” de um filho, assumindo a responsabilidade pela sua vida.

 

Que possamos conhecer melhor o pai adotivo do Senhor e sua importância no plano de salvação de Deus. Que possamos imitá-lo na justiça, na santidade e no acolhimento da vontade de Deus em nossas vidas.

Natal em tempos de pandemia

Edilan Martins de Oliveira
Membro da PASCOM da Paróquia de Fátima


Estamos às portas do Natal 2020. Será celebrado, por força de uma pandemia jamais imaginável, de forma diferente… talvez mais profunda e autêntica. Natal é sempre a celebração do amor. O Deus onipotente se torna criança nascida numa gruta em Belém de Judá, Israel, porque não havia nem lugar nas hospedarias. É o Amor Total/Eterno que veio e vem encarnar-se na história da humanidade, para nela ressuscitar o amor perdido pelo pecado. Por isso, se em torno da celebração do Natal, o amor não é o centro, ela não é autêntica. Nunca podemos deixar de sonhar: a partir de cada Natal, o “amor deveria ser mais amado”, parafraseando o santo seráfico, São Francisco de Assis. O seu “Fratelli Tutti” – “todos irmãos” para construir uma “fraternidade e amizade social” (conforme a última Encíclica do Papa Francisco) está cimentado no amor encarnado do Filho de Deus, o nosso irmão maior. Não é por nada que a tradição dos “presépios” tem nele a sua origem. Celebramos, assim, mais um Natal… é preciso, pois, falar do amor! Advento e Natal constituem, juntos, um tempo litúrgico privilegiado. Inúmeras pessoas viajam, se visitam, multiplicam encontros. Amigos, parentes e familiares estreitam laços e relações. Como fez o Papa Francisco na encíclica Fratelli tutti (FT), podemos citar o poeta Vinicius de Moraes: “A vida é a arte do encontro, embora haja tantos desencontros pela vida” (FT, 215). Neste ano de 2020, porém, citando outro poeta brasileiro, Carlos Drummond de Andrade, “no meio do caminho tinha uma pedra”, uma pandemia, com seu rastro macabro de pessoas mortas e famílias enlutadas. Celebraremos o natal confinados em nossas casas.

O novo coronavírus já cruzou as fronteiras de quase 200 países. No mundo inteiro, o número de infectados passou a cifra das dezenas de milhões, enquanto o número de mortos ultrapassou 1,7 milhão. Isso sem levar em conta a subnotificação. Limitando-nos ao Brasil, contam-se mais de7 milhões de infectados, ao passo que quase 190 mil pessoas perderam precocemente a vida. Somando infectados e afetados, na prática todas as pessoas e famílias foram, de uma forma ou de outra, atingidos por esse “inimigo invisível, silencioso e letal”. Quem não tropeçou nessa “pedra/pandemia”? Ela trouxe o isolamento individual e o distanciamento social. Isolados e contidos dentro da própria casa, as telas e as janelas tornaram-se nossos únicos meios de comunicação. Para não poucas pessoas, a saúde mental sofreu abalos inesperados. A solidão virou nossa companheira do dia a dia.

Flagelo inédito e global, da mesma forma que globalizada é a política econômica hoje. Um contraste se estabeleceu: ao mesmo tempo em que foi possível constatar certo negacionismo e indiferença por parte de algumas autoridades, vimos nascer por toda parte uma série de iniciativas solidárias e populares. Muitas comunidades se deram as mãos, reduzindo a força do inimigo comum. Se é verdade que para muita gente esse tropeço mexeu negativamente com a trajetória de vida, para outros ele não deixou de despertar para novos valores. Entre eles, destaca-se o cuidado: com a saúde pessoal e alheia, cuidado com os mais frágeis e vulneráveis, cuidado com a gestão pública e o bem-estar, cuidado com “nossa casa comum”, para voltar a outra expressão do Pontífice. E mais recentemente, com o novo documento da Doutrina Social da Igreja, Fratelli tutti (Somos todos irmãos), o Papa sublinha uma nova forma de cuidado, isto é, a atenção redobrada para com o outro, o diferente, o estrangeiro. Volta a alertar para o combate vigoroso e sem tréguas à discriminação e ao preconceito, ao racismo e à xenofobia. Esses vírus, sim, constituem verdadeiras pedras de tropeço para o diálogo, a paz e a fraternidade.

A pandemia da COVID-19 pode ser vencida. Temos a ajuda de numerosas pesquisas e da ciência. Várias e distintas vacinas já apontam para a aurora de novos horizontes. As divisões que nos separam, porém, como em todo Natal, exigem uma dupla conversão, pessoal e social. Somente isso pode nos levar ao que o Papa chama de “cultura do encontro, do diálogo e da solidariedade”. Busquemos ordenar as nossas afeições, na esperança em Deus, tendo em mente que o menino Jesus quer renascer em cada um de nós para que sejamos mais ousados e livres para amar. Feliz e Santo Natal para todos!

 

 

 

JUVENTUDE, ONDE ESTÁ SUA VOCAÇÃO

Para transcorrer um pouco a respeito deste tema, gostaria de convidá-lo a observar esse tempo bonito da juventude, como um tempo marcado pelo despertar do chamado. Então, quando despertamos é preciso se levantar, por isso, a resposta ao
chamado deve ser ensaiada por nós neste momento específico.

Levando em consideração que o primeiro chamado de Deus a nós é o chamado à vida(Jeremias 1,5), esse tempo, apesar dos desafios e confusões próprias desta idade, é preciso compreender que a vida é um dom, e um dom não é para si, mas para ser dedicado aos outros. Por isso, para compreender bem esse chamado devemos considerar que toda vocação é chamado à santidade. (1Pedro 1,15-16)

No processo de santificação, temos na Igreja um caminho traçado pelos sacramentos a iniciar-se pelo Batismo, (Mateus 28,16-20) quando somos inseridos numa comunidade eclesial; na Eucaristia, quando compartilhamos o mesmo ideal(João 6,53-58); e, no Crisma, quando assumimos de forma adulta a nossa fé (Atos dos Apóstolos 1,8). E ainda temos a oportunidade de respondermos através de uma vocação específica ao matrimônio (Marcos 10, 6-9), e à ordem (João 20, 21-23), como serviço nessa busca pela santidade. E você poderia me perguntar: – E a vida profissional não é uma vocação? Claro que sim! Todos nós devemos deixar com que o Espírito Santo que esquadrinha (1Coríntios 2, 10-16) tudo nos leve ao despertar das nossas aptidões, mas não nos esqueçamos: Toda vocação é um chamado à santidade.

Pe. João Paulo da Silva
Paróquia São Miguel Arcanjo
Araponga/MG

Uma reflexão sobre a Paixão de Jesus: o que o seu legado nos ensina?

Estamos aproximando da semana santa, tempo forte da nossa fé. Neste ano, as celebrações ganham alguns aspectos diferenciados para todo o povo de Deus. Trata-se de uma vivência espiritual de grande configuração ao sofrimento da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor. Muitos dos nossos irmãos e irmãs vivem, hoje, o calvário em suas vidas. A nossa fé nos chama, também, para a contemplação e vivência da Paixão Redentora de Jesus. O chamado de Deus é para que cheguemos diante do Calvário, contemplemos e meditemos um pouco mais sobre a paixão e morte de Jesus.

Podemos dizer que a encarnação do Verbo chega ao seu ponto culminante na história da salvação. Este é, portanto, o ápice do mistério doloroso e glorioso da Paixão, morte e ressurreição do Senhor. O sofrimento e a entrega do Filho de Deus sublinham o extremo realismo da sua encarnação. Ele recapitula em Si a inteira realidade humana, sendo transformado de invisível em visível, de impassível em passível (sofredor), de imortal em homem mortal. Na sua paixão e morte se completam assim o escândalo da encarnação, como declara São Paulo: “Nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus, loucura para os pagãos” (1Cor 1,23).

A cruz constitui a dura rocha que sustenta a fé cristã. A cruz é a paradoxal e problemática identidade cristã nos confrontos das outras religiões. Jesus, que havia proclamado o reino de Deus, pareceu estar abandonado pelo Deus do Reino que ele anunciava. Aquele que tinha superado a lei foi rejeitado em nome desta lei. Aquele que tinha ajudado os outros a curar e libertar das potências demoníacas, morreu sem ser ajudado e nem defendido por ninguém. Aquele que tinha sempre operado como benfeitor do seu próximo, foi condenado a morrer como um malfeitor numa cruz em meio a dois ladrões. Aquele que tinha feito da sua vida um evento unicamente religioso, expiró fora da cidade santa e do seu templo.

Como afirma São Cirilo de Alexandria, padre da Igreja do século V, “Cristo apesar de sua natureza divina e sendo por direito igual a Deus Pai, não se prevaleceu de sua divina condição, mas humilhou-se até submeter-se à morte e morte de cruz. Realmente, sua paixão salutar abateu os principados e triunfou sobre os dominadores deste mundo e deste século, libertou a todos da tirania do diabo, e nos reconduziu a Deus. Suas chagas nos curaram e, carregado com os nossos pecados, subiu ao lenho; e deste modo, enquanto ele morre, nos sustenta na vida, e sua paixão se tornou a nossa segurança e muro de defesa. Aquele que nos resgatou da condenação da lei, nos socorre quando somos tentados. E para consagrar ao povo com seu próprio sangue, morreu fora da cidade”.

Neste tempo de pandemia, quarentenas, incertezas, dúvidas, inseguranças, violências, inquietações e crises de todos os níveis, proclamamos que a Paixão de Cristo, sua preciosa cruz e suas mãos perfuradas significam segurança para aqueles que creem n’Ele. Por isso Ele fala acertadamente: minhas ovelhas escutam minha voz e me seguem, e Eu lhes dou a vida eterna. E também: Ninguém pode arrebatá-las da mão de meu Pai. E isto justamente, porque vivem à sombra do Onipotente, protegidas pelo auxílio divino como em uma torre fortificada.

A proposta hoje não é mais crucificar o Cristo, mas sim aquilo que está nos crucificando, pois como nos fala Santo Ambrósio de Milão, “Carreguemos a cruz do Senhor para que, crucificando a nossa carne, destrua o pecado. Quem ama os preceitos (ensinamentos) do Senhor sujeita com cravos a própria carne, sabendo que, quando seu homem velho estiver com Cristo crucificado na cruz, será destruída a luxúria da carne, o orgulho, a autosuficiência humana, as vaidades, e tantos outros pecados de raiz. Cada um tenha coragem de colocar a sua carne  com os cravos na cruz e assim terá destruído os seus pecados. Está cravado com estes cravos quem morre com Cristo para ressuscitar com ele; está cravado com estes cravos quem leva em seu corpo a morte do Senhor Jesus. Que não nos escandalize a dureza dos cravos, pois é a dureza da caridade; nem nos assuste o poderoso rigor dos cravos, porque também o amor é forte como a morte. Na realidade, o amor dá morte à culpa e a todo pecado. Na verdade, quando amamos os ensinamentos do Senhor, morremos às ações vergonhosas e ao pecado.

A Paixão de Jesus teve causas históricas concretas e foi o desenlace final de uma vida que entrou em conflito com o sistema religioso-político estabelecido na sociedade daquele tempo. Jesus sempre lutou em favor da vida e contra tudo que atentava contra ela. O grande drama que Jesus sofreu foi não terem sabido ver a verdade n’Ele; não quiseram ver o que Ele fazia em favor da vida; não conseguiram ver a bondade e a compaixão em seu coração; não souberam ver Deus n’Ele. Preferiram a violência. Jesus teve duras experiências com as pedras, porque muitas vezes quiseram apedrejá-lo, embora ele sempre tenha conseguido livrar-se delas. Ele tem consciência de que as pessoas encontram justificativas para apedrejar os outros. Custa-nos reconhecer o que é bom nos outros; facilmente preferimos apedrejá-los com nossa críticas, murmurações, difamações. E assim são piores as pedras da língua que as pedras que atiramos com as mãos. Quem tem o coração duro e petrificado terá naturalmente pedras em abundância em suas mãos para atirar sobre os demais. Num coração petrificado, o Espírito não tem liberdade de atuar; dessa resistência à ação do Espírito brotam as doentias divisões internas, que atrofiam nossas forças criativas e nos distanciam da comunhão com tudo e com todos. Com isso nos blindamos, tornando-nos rígidos, petrificados em nossas posições, crenças, valores… e não nos deixamos impactar pelo novo, pelo diferente.

Chegar com o Cristo ao Calvário, tomando nossa cruz significa ter ouvido atento ao que ele mesmo diz: o que não carrega a sua cruz e não me segue, não é digno de mim. Em efeito, tomar a cruz significa renunciar a tantas propostas do mundo que não convém ao discípulo de Cristo. “Tomar a Cruz” e “Carregar a cruz” significa acolher aquilo que diariamente cruza o nosso caminho, abraçar, com todas as nossas forças e todas as nossas fraquezas, os sucessos e os fracassos, as coisas vividas e as coisas perdidas, o consciente e o inconsciente… Nesse sentido, a cruz deixa de ser um “peso morto”, ou seja, uma cruz vazia, sem sentido, in-sensata, pois fecha a pessoa em si mesma, em seu sofrimento e angústia; não aponta para o futuro, nem abre um horizonte de vida. Fazer o caminho contemplativo junto a Jesus que leva a cruz da fidelidade e chega ao Gólgota, ajuda-nos a romper com as cruzes que nos afundam no desespero, nos fracassos, nos traumas das experiências frustantes…

Dessa forma, os que seguem a Cristo estão também crucificados com ele: morrendo à sua antiga conduta, são introduzidos em uma vida nova conforme ao Evangelho: Por isso, afirmava Paulo: os que são de Cristo Jesus Crucificaram sua carne com suas paixões e concupiscências. E novamente, como que falando de si, exorta a todos: Na realidade, pela fé, eu morri para a lei, a fim de viver para DeusEstou crucificado com Cristo: Já não sou eu que vivo, mas Cristo vive em mim. E ainda, Cristo morreu pelos nossos pecados segundo as Escrituras (1Cor 15,3).

Queremos chegar com Jesus ao Calvário, e experimentar a mesma liberdade com a qual Ele viveu sua entrega pela salvação da humanidade. Pois a liberdade com a qual ele vai ao encontro da morte deriva do desejo de fazer a vontade do Pai. É, de fato, o Pai que entrega o Filho por amor. Também a obediência de Jesus ao Pai é expressão de amor (Rm 5,19): “É preciso que o mundo saiba que eu amo o Pai e faço aquilo que o Pai me mandou fazer” (Jo 14,31). A relação entre Deus e o homem não é mais definida pela desobediência de Adão (Rm 5,12-19), mas da obediência de Jesus até a morte. E assim destrói os nossos pecados, tornando-nos justos e santos diante de Deus. Por amor, Ele assume o destino do homem até à morte: “Jesus sabendo que era chegada a sua hora de passar deste mundo para o Pai, amou os seus que estavam no mundo, e os amou até o fim” (Jo 13,1). E o que nós buscamos celebrar, nestes dias, através deste grande mistério, é o amor de Deus Pai e do Filho Jesus pela salvação de toda a humanidade. Aqui está a verdadeira motivação do sacrifício cruento de Jesus na cruz.

A oração destes dias deve ser profundamente silenciosa: trata-se de acompanharmos Jesus no caminho em direção ao Gólgota e sua morte na cruz. Silenciar o corpo, a mente, o coração para contemplarmos a Paixão redentora do Senhor. No percurso solidário com Jesus e com os sofredores da história não encontramos o “Deus do poder”’ que se impõe, mas o “Deus do amor” que se expõe à maior das fragilidades, porque o amor significa admitir a possibilidade de ver-se recusado e rejeitado. Só na fragilidade do amor Deus manifesta sua força misericordiosa.

Diante da violência e do sofrimento Deus silencia, porque Ele se encontra junto às vítimas, não junto aos carrascos. Seu “silêncio”, porém, não é de tolerância, mas de amor compadecido e solidário. Amor  que tudo pode, mas não pode reagir à violência com violência igual ou maior. E continua sem poder impedir que a Paixão de Jesus continue acontecendo hoje. A resposta de Deus ao sofrimento não é escrita com tinta, mas com sangue , carne, sentimento, fragilidade.

Ao entrar no caminho da Paixão de Jesus, uma pergunta brota naturalmente: Onde está Deus em nossa experiência de sofrimento? Mas Deus desafia-nos a responder à sua própria pergunta: Onde está você no meu sofrimento? Ele revela, aos nossos olhos dolorosamente abertos, o mistério de sua própria presença em nosso sofrimento e morte dos seus filhos e filhas. É o Deus que se identifica com a dor do mundo, com a marginalização dos excluídos e com a desgraça de todos os miseráveis da terra. Não podemos chegar ao Deus de Jesus pelo caminho largo e fácil do poder e da razão, senão pela senda escarpada e dura da solidariedade e da loucura da cruz.

A questão determinante para nós cristãos está em buscar a Deus e crer na sua transcendência a partir da solidariedade com as vítimas, com os crucificados deste mundo e com os que necessitam de calor humano, compreensão, tolerância, companhia e carinho.Partindo da mensagem evangélica do amor-doação, podemos concluir que o único “sofrimento” que Deus quer é o que brota da luta contra o sofrimento. Deus quer o sofrimento somente quando é consequência de uma convicção e de um modo de viver que não suporta que os outros sofram. Foi exatamente isso que aconteceu com Jesus. E por isso o crucificaram. Somente a força do amor, da misericórdia e da entrega, que se faz capaz, como em Jesus, de suportar a mais extrema das debilidades, pode transformar o mundo.

Para concluir esta reflexão, voltemo-nos para a presença de Maria, a Mãe, que estava de pé junto à Cruz. Maria estava no Calvário, não apenas assistindo no meio do público, mas em lugar de destaque, ao pé da cruz, ao pé do Redentor. E, por isto, Jesus a entregou ao discípulo amado, representando a comunidade Igreja que nascia do Mistério da sua Páscoa: “Mulher, eis aí o teu Filho! Filho, eis aí tua Mãe!” (Jo 19, 26-27).

Na hora de sua morte, Jesus Cristo se lembra de nos dar a sua mãe para que fosse também a nossa mãe, a mãe de toda a humanidade, de todos os povos, da Igreja inteira. Todos nós somos chamados a sermos filhos de Deus, a sermos filhos de Maria; Maria nos ensina ao pé da cruz, que devemos estar sempre à disposição de Jesus Cristo para ajudá-lo a salvar o mundo. Maria soube emprestar o seu ventre para que Jesus pudesse nascer. Ela nos convida a acolhermos Cristo dentro de nós para podermos torná-lo presente no mundo.

Maria soube estar ao lado de seu filho sofredor, quando ele sentia só e abandonado. Assim, Maria nos ensina também a estar perto de cada irmão e irmã que sofre hoje. Maria nos ajuda a estar perto do pobre, das pessoas marginalizadas, da pessoa solitária e desesperada; perto do doente e do preso, perto do condenado e do castigado. Maria nos mostra, assim, que devemos estar perto de cada Jesus que sofre sua paixão, hoje.

Que cada um de nós possa ser, perto daquele que sofre, a presença de Maria, que cada um de nós possa receber de Maria essa missão de continuar assistindo e sustentando os sofredores, principalmente as vítimas da violência. Que nós possamos receber de Maria essa sublime missão, de enxugar as lágrimas, o suor e o sangue de todos os “Cristos” que estão sofrendo pelo mundo a fora.

Ela permaneceu a vida inteira com o Filho, ela conhece seu coração. Ela está muito sofrida: viu o Filho amado ser torturado, humilhado, abandonado pelos amigos. Viu-o ser morto violentamente, sem nenhuma misericórdia. Ela está ferida no mais profundo de seu ser porque sofreu nas entranhas a dor do Filho. Maria está triste, mas não desesperada. Ela não sabe, neste momento, ao certo o que acontecerá, mas conhece o coração do Filho e está cheia de esperança. Dizia Santo Agostinho: “Doía-lhe que tivesse sido morto injustamente Aquele a quem ela gerou virgem; mas esperava e cria firmemente que ressuscitaria ao terceiro dia, conforme o que fora prometido, vencida já a morte; entretanto, somente nela estava a fé da Igreja. Enquanto cada um vacilava e duvidava, ela, que com fé concebeu a fé, que uma vez recebeu de Deus e nunca a perdeu, com essa fé e com a esperança certíssima esperou a glória da ressurreição”.

O convite é, para que, durante esta semana santa, passemos este tempo com Maria, em sua solidão grávida de esperança viva…esperança por um mundo mais justo e fraterno a partir da paixão redentora de Nosso Senhor Jesus Cristo.

 

* Pe Adilson Luiz Umbelino Couto
Formador e Professor no Seminário São José – Mariana

A Antropologia Teológica do Concílio Vaticano II

Cônego Lauro Sérgio Versiani Barbosa.

O Concílio Vaticano II não tratou especificamente da Antropologia Teológica em seus documentos conclusivos, mas na primeira parte da Constituição Pastoral Gaudium et Spes encontramos a sua contribuição mais substanciosa para a reflexão antropológica. A Gaudium et Spes, ao conjugar elementos doutrinais e pastorais em sua reflexão sobre “A Igreja no Mundo Atual”, volta a sua atenção para a criatura humana e acaba por produzir verdadeira síntese antropológica. O método adotado pela Gaudium et Spes é preferencialmente, mas não exclusivamente, indutivo: a realidade humana acolhe a revelação de Deus. Assumindo a postura de diálogo com o mundo contemporâneo, a Constituição Pastoral contempla o ser humano concreto a quem a Igreja quer servir, como fica evidente no início do seu belo Proêmio: As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco em seu coração (GS 1). A questão antropológica ocupa lugar fundamental na exposição da Gaudium et Speso homem será o fulcro de toda a nossa exposição: o homem uno e integral: corpo e alma, coração e consciência, inteligência e vontade (GS 3). É claro que o ser humano é contemplado à luz da revelação cristã.

Assim, dos números 4 – 10, a Gaudium et Spes trata, como introdução, da condição do homem no mundo de hoje, apontando os desafios atuais e os questionamentos fundamentais levantados pelo ser humano, concluindo com a visão cristocêntrica da história humana: a chave, o centro e o fim de toda a história humana se encontram no seu Senhor e Mestre…subjacentes a todas as transformações, há muitas coisas que não mudam, cujo último fundamento é Cristo, o mesmo ontem, hoje e para sempre (cf. Hb 13,8). Quer, portanto, o Concílio, à luz de Cristo, imagem de Deus invisível e primogênito de todas as criaturas (cf. Cl 1,15), dirigir-se a todos, para iluminar o mistério do homem e cooperar na solução das principais questões do nosso tempo (GS 10). Para Cristo tudo converge e nele está o fundamento de tudo o que existe. Em Cristo as interrogações humanas mais profundas encontram a sua resposta final.

Segue-se a primeira parte da Gaudium et Spes, que tem por título A Igreja e a Vocação do Homem. O primeiro capítulo sobre A Dignidade da Pessoa Humana oferece uma síntese antropológica que tem o seu ponto alto no número 22, a maior e mais original contribuição teológica do Concílio Vaticano II para a reflexão antropológica. O n. 12 trata da criação do ser humano à imagem de Deus conforme lemos no Antigo Testamento. O n. 13 trata do pecado como abuso da liberdade que trouxe divisão e enfraquecimento do ser humano, impedindo a sua realização. O n. 14 trata da constituição una do ser humano em corpo e alma. Os números 15 e 16 tratam da dignidade da inteligência e da consciência moral. O n. 17 trata do dom da liberdade humana. O n. 18 aborda o mistério da morte iluminado pela ressurreição de Cristo. Os números 19 a 21 apontam para a sublime vocação humana de diálogo com Deus, abordando o desafio do ateísmo para a Igreja.

O número 22 da Gaudium et Spes é de altíssimo nível teológico e retoma o que fora aludido no número 10. A perspectiva cristológica é a única capaz de esclarecer o mistério do ser humano: Na realidade, só no mistério do Verbo encarnado se esclarece verdadeiramente o mistério do homem. Adão, o primeiro homem, era efetivamente figura daquele futuro (cf. Rm 5,14 e cf. Tertuliano. De carnis resurr. 6), isto é, de Cristo Senhor. Cristo, novo Adão, na própria revelação do mistério do Pai e do seu amor, revela o homem a si mesmo e descobre-lhe a sua vocação sublime. Não é por isso de admirar que as verdades acima ditas tenham nele a sua fonte e nele atinjam a plenitude (GS 22). Ou seja, a questão antropológica só se resolve em chave interpretativa cristológica. Estamos diante do princípio fundamental da antropologia do Concílio Vaticano II, ponto de partida para uma visão teológica unitária, coerente, integral e sistemática do ser humano à luz da fé cristã. Tudo o que foi dito anteriormente sobre o ser humano só pode ser plenamente compreendido à luz de Cristo. É a partir do Filho de Deus que se encarnou que se pode compreender o que o ser humano é chamado a ser. Dizer que o ser humano foi criado à imagem de Deus é ainda vago e abstrato. À luz do Novo Testamento se pode dizer que Adão era apenas figura daquele que veio pela encarnação (cf. Rm 5,14). O Vaticano II retoma pensamento patrístico um tanto esquecido. Cita, em nota de pé de página do n. 22 da Gaudium et Spes, Tertuliano, logo após a referência ao texto de Paulo aos Romanos. Tertuliano afirma que naquele que era modelado do barro vinha pensado Cristo, o homem definitivo. Poderia ter sido citado também Santo Irineu que em sua antropologia concebe o homem plasmado do barro da terra pelas mãos de Deus como reproduzindo já a imagem de Cristo que se encarnaria. Assim, só sabemos quem é o ser humano por Cristo: Adão se explica por Cristo e não o contrário, Cristo por Adão. Cristo nos revela o amor do Pai e revela o ser humano a si mesmo. Desde o início da criação só temos uma vocação: sermos filhos de Deus por adoção no seu Filho Unigênito por natureza. O Vaticano II retoma a mais antiga tradição cristã dos Padres da Igreja, obscurecida pela distinção excessiva entre ordem natural e sobrenatural no relacionamento entre a humanidade e Deus.

Continua o n. 22 da Gaudium et Spes“Imagem do Deus invisível” (Cl 1,15) (cf. 2 Cor 4,4), ele é o homem perfeito, que restitui aos filhos de Adão a semelhança divina, deformada desde o primeiro pecado. Já que, nele, a natureza humana foi assumida, e não destruída, por isso mesmo, também em nós foi elevada a sublime dignidade. Porque pela sua encarnação, ele, o Filho de Deus, uniu-se de certo modo a cada homem. Trabalhou com mãos humanas, agiu com uma vontade humana, amou com um coração humano. Nascido da Virgem Maria, tornou-se verdadeiramente um de nós, semelhante a nós em tudo, exceto no pecado (GS 22). A citação de Cristo como imagem de Deus tirada da Carta de Paulo aos Colossenses já aparecera no n. 10 e reaparece no n. 22 da GS. O tema do homem criado à imagem de Deus do Antigo Testamento e que apareceu no n. 12 da GS se torna concreto em Cristo, verdadeira imagem do Deus invisível. Assim, o ser humano é, na verdade, imago imaginis Dei, pois Cristo é a imagem de Deus, como ensina ainda Paulo na 2 Cor 4,4, citada em nota de pé de página do n. 22 da GS, e também na Carta aos Romanos 8,29. Cristo é o homem perfeito, que assumiu a natureza humana plenamente e a elevou a sublime dignidade, ensina a Gaudium et Spes 22. Atenção! Não se trata da afirmação cristológica do Concílio de Calcedônia (451) de Cristo perfeito homem quanto à sua natureza, mas do homem perfeito, isto é, completo, acabado, pleno, o protótipo do humano! A natureza humana não foi absorvida pela divindade, mas assumida e elevada à sua máxima dignidade. Essa mesma idéia de Cristo, o homem perfeito, será retomada no desenvolvimento da Gaudium et Spes em outros números. No terceiro capítulo, sobre a Atividade Humana no Mundo, no n. 38 lemos: O Verbo de Deus, pelo qual todas as coisas foram feitas, fazendo-se homem e vivendo na terra dos homens (cf. Jo1,3.14) , entrou como homem perfeito na história do mundo, assumindo-a e recapitulando-a (cf. Ef1,10) (GS 38). No quarto capítulo sobre O Papel da Igreja no Mundo Contemporâneo se lê: Todo aquele que segue Cristo, o homem perfeito, torna-se mais homem (GS 41); e ainda no mesmo capítulo: Com efeito, o próprio Verbo de Deus, por quem tudo foi feito, fez-se homem, para, homem perfeito, a todos salvar e tudo recapitular (GS 45). Ou seja, em Cristo nós temos a humanidade realizada segundo o desígnio único, original e definitivo do Criador e segui-lo é aperfeiçoar-se e crescer em humanidade. E prossegue o parágrafo 2 do n. 22 da Gaudium et Spes que estamos analisando, dizendo que, pela sua encarnação, o Filho de Deus se uniu de certa forma a todo homem, conforme ensina a Tradição da Igreja sobre a humanidade assumida pelo Filho, mas o Concílio acrescenta ao plano ontológico em que se situavam os Padres da Igreja o plano existencial da vida humana concreta como observaram os teólogos J. Ratzinger e L. Ladaria: Trabalhou com mãos humanas, pensou com uma inteligência humana, agiu com uma vontade humana, amou com um coração humano (GS 22). Ou seja, Cristo assemelhou-se a nós em tudo, exceto no pecado e do qual veio nos libertar. O parágrafo seguinte do n. 22 trata exatamente da entrega solidária do Cristo até a morte pelos nossos pecados, de sua obra de reconciliação que confere sentido e santidade à vida e à morte. É bom lembrar que o Verbo encarnado é o Cristo morto e ressuscitado. A relação Cristo-Adão é dialética. Adão é figura de Cristo. Mas Cristo, último (definitivo) Adão, vem a um mundo marcado pelo pecado, portanto a nossa configuração a Cristo nos associa ao mistério pascal de Jesus Cristo.

O quarto parágrafo do n. 22 da Gaudium et Spes torna explícita a necessidade da configuração do cristão à imagem do Filho e da associação ao mistério pascal do Cristo na força do Espírito Santo para a realização do desígnio original de Deus sobre o ser humano, fundamentando-se amplamente na teologia paulina. O parágrafo seguinte acrescenta que isso vale não só para os cristãos, mas para todos os homens de boa vontade: Com efeito, já que por todos morreu Cristo e que a vocação última de todos os homens é realmente uma só, a saber, a divina, devemos acreditar que o Espírito Santo dá a todos a possibilidade de se associarem a este mistério pascal por um modo só de Deus conhecido. Tal é, e tão grande, o mistério do homem, que a revelação cristã manifesta aos que crêem. E assim, por Cristo e em Cristo, esclarece-se o enigma da dor e da morte, o qual, fora do seu Evangelho, nos esmaga. Cristo ressuscitou, destruindo a morte com a própria morte, e deu-nos a vida, para que, tornados filhos no Filho, exclamemos no Espírito: Abba, Pai! (GS 22). Ficam evidenciados o significado salvífico universal de Jesus Cristo, a missão do Espírito Santo, a dimensão trinitária da salvação cristã e a dimensão comunitária da salvação que será mais desenvolvida na seqüência da Gaudium et Spes. Nota-se, porém, que o acento sobre o significado salvífico universal de Jesus Cristo é mais escatológico que protológico. A protologia é mais implícita. Talvez o Vaticano II tenha preferido evitar entrar aqui em disputas entre escolas teológicas com posições diversas (escola escotista e escola tomista).

Em outros documentos do Concílio Vaticano II encontram-se referências claras à relação fundamental entre Cristo e o ser humano, embora sem um tratamento sistemático. No Decreto Ad Gentes sobre A Atividade Missionária da Igreja acha-se a seguinte passagem: A atividade missionária tem íntima conexão também com a própria natureza humana e suas aspirações. Com efeito, ao dar a conhecer Cristo, a Igreja revela, por isso mesmo, aos homens a genuína verdade da sua condição e da sua integral vocação, pois Cristo é o princípio e o modelo da humanidade renovada e imbuída de fraterno amor, sinceridade e espírito de paz, à qual todos aspiram (AD 8). Na Declaração Nostra Aetate sobre As Relações da Igreja com as Religiões Não-Cristãs afirma-se: Nós não podemos invocar Deus, Pai de todos os homens, se nos recusamos a comportar-nos como irmãos para com alguns homens criados à imagem de Deus. A relação do homem para com Deus Pai, e a relação do homem para com os outros homens seus irmãos, encontram-se tão ligadas entre si que a Sagrada Escritura diz: “Quem não ama, não conhece a Deus” (1 Jo 4,8) (NA 5). O contexto fala de Cristo como fundamento da fraternidade universal, o que fica explícito nos números 92 e 93 da Gaudium et Spes. Na Constituição Dogmática Lumen Gentium sobre a Igreja são várias as passagens que abordam a relação fundamental entre Cristo e a humanidade em termos de vocação e realização de toda a humanidade, destacando a centralidade de Jesus Cristo como luz do mundo: LG 1; 2; 3; 6; 7; 9; 11; 13; 31; 32; 40; 48; 49; 50; 51; 52. Cito apenas o final da LG 3: Todos os homens são chamados a esta união com Cristo, que é a luz do mundo, do qual procedemos, pelo qual vivemos e para o qual tendemos. Na mesma direção podemos citar a Constituição Dogmática Dei Verbum sobre a Revelação Divina em seu importante n. 2 que aponta para Cristo como mediador e plenitude de toda a revelação. A Constituição Sacrosanctum Concilium sobre a Sagrada Liturgia nos números 2, 6 e 48 aponta para a inserção no mistério do Cristo celebrada na liturgia como vocação de todos. Na mesma linha da convergência de tudo para Cristo podemos citar: o já mencionado Decreto Ad Gentes 1, 3, 6 e 7; o Decreto Presbyterorum Ordinis sobre O Ministério e a Vida dos Presbíteros n. 22; o Decreto Apostolicam Actuositatem sobre o Apostolado dos Leigos números 17 e 18; o Decreto Unitatis Redintegratio sobre o Ecumenismo números 2 e 3.

Embora todas essas citações não sejam exaustivas, não há dúvida de que o Concílio Vaticano II mostra que há um só desígnio salvífico de Deus sobre o ser humano e que une criação e redenção. O ser humano do ponto de vista teológico, concreto e existencial, não pode ser definido sem uma referência clara a Jesus Cristo. Há uma consistência própria e autonomia da realidade criatural, mas Cristo é a determinação última da pessoa humana. O ser humano é deiforme e cristoforme, chamado à configuração a Jesus. Na graça, somos chamados a sermos filhos no Filho. Como diria Karl Rahner, o ser humano é o que surge quando Deus quer fazer-se criatura, quando Deus quer expressar-se no outro. O ser humano é, pois, ontologicamente, um possível irmão de Jesus. A plenitude da graça não é uma salvação extrínseca, mas com toda a novidade trazida por Cristo, temos a realização do desígnio originário de Deus: em Cristo somos escolhidos. Cristo é o modelo do ser humano desde o início e pelo Espírito Santo leva a pessoa humana à realização do desígnio final de Deus. Mas Cristo representa uma novidade radical e gratuita na história. Novidade gnosiológica enquanto realização e superação da esperança de Israel. Novidade enquanto superação do pecado pela redenção que permite passar do primeiro ao segundo Adão. Novidade enquanto possibilidade de realização do ser humano pelo dom do Espírito. Não se trata simplesmente do Logos eterno, mas de Jesus, o Logos encarnado, de Jesus morto e ressuscitado, da vida, paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo na força do Espírito Santo doado para a glória de Deus Pai: Quando, porém, chegou a plenitude do tempo, enviou Deus o seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a Lei, para resgatar os que estavam sob a Lei, a fim de que recebêssemos a adoção filial. E porque sois filhos, enviou Deus aos nossos corações o Espírito do seu Filho, que clama: Abba, Pai! (Gl 4,4-6).

Referências Bibliográficas

ALBERIGO, G., História dos Concílios Ecumênicos, São Paulo, Paulus, 1995.

DOCUMENTOS DO CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II, São Paulo, Paulus, 20115.

LADARIA, L. F., Introdução à Antropologia Teológica, São Paulo, Loyola, 1998.

LATOURELLE, R. (Ed.), Vaticano II: Balance y Perspectivas, Salamanca, Ediciones Sigueme, 19902.

LOPES, G., Gaudium et Spes: Texto e comentário, São Paulo, Paulinas, 2011.

MIRANDA, M. F., A Salvação de Jesus Cristo, São Paulo, Loyola, 2004.

RAHNER, K., Curso Fundamental da Fé, São Paulo, Paulinas, 1989.

RUIZ DE LA PEÑA, J. L., Criação, Graça, Salvação, São Paulo, Loyola, 1998.

PACOMIO, L. – MANCUSO, V., LEXICON: Dicionário Teológico Enciclopédico, São Paulo, Loyola, 2003.