Uma reflexão sobre a Paixão de Jesus: o que o seu legado nos ensina?

Estamos aproximando da semana santa, tempo forte da nossa fé. Neste ano, as celebrações ganham alguns aspectos diferenciados para todo o povo de Deus. Trata-se de uma vivência espiritual de grande configuração ao sofrimento da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor. Muitos dos nossos irmãos e irmãs vivem, hoje, o calvário em suas vidas. A nossa fé nos chama, também, para a contemplação e vivência da Paixão Redentora de Jesus. O chamado de Deus é para que cheguemos diante do Calvário, contemplemos e meditemos um pouco mais sobre a paixão e morte de Jesus.

Podemos dizer que a encarnação do Verbo chega ao seu ponto culminante na história da salvação. Este é, portanto, o ápice do mistério doloroso e glorioso da Paixão, morte e ressurreição do Senhor. O sofrimento e a entrega do Filho de Deus sublinham o extremo realismo da sua encarnação. Ele recapitula em Si a inteira realidade humana, sendo transformado de invisível em visível, de impassível em passível (sofredor), de imortal em homem mortal. Na sua paixão e morte se completam assim o escândalo da encarnação, como declara São Paulo: “Nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus, loucura para os pagãos” (1Cor 1,23).

A cruz constitui a dura rocha que sustenta a fé cristã. A cruz é a paradoxal e problemática identidade cristã nos confrontos das outras religiões. Jesus, que havia proclamado o reino de Deus, pareceu estar abandonado pelo Deus do Reino que ele anunciava. Aquele que tinha superado a lei foi rejeitado em nome desta lei. Aquele que tinha ajudado os outros a curar e libertar das potências demoníacas, morreu sem ser ajudado e nem defendido por ninguém. Aquele que tinha sempre operado como benfeitor do seu próximo, foi condenado a morrer como um malfeitor numa cruz em meio a dois ladrões. Aquele que tinha feito da sua vida um evento unicamente religioso, expiró fora da cidade santa e do seu templo.

Como afirma São Cirilo de Alexandria, padre da Igreja do século V, “Cristo apesar de sua natureza divina e sendo por direito igual a Deus Pai, não se prevaleceu de sua divina condição, mas humilhou-se até submeter-se à morte e morte de cruz. Realmente, sua paixão salutar abateu os principados e triunfou sobre os dominadores deste mundo e deste século, libertou a todos da tirania do diabo, e nos reconduziu a Deus. Suas chagas nos curaram e, carregado com os nossos pecados, subiu ao lenho; e deste modo, enquanto ele morre, nos sustenta na vida, e sua paixão se tornou a nossa segurança e muro de defesa. Aquele que nos resgatou da condenação da lei, nos socorre quando somos tentados. E para consagrar ao povo com seu próprio sangue, morreu fora da cidade”.

Neste tempo de pandemia, quarentenas, incertezas, dúvidas, inseguranças, violências, inquietações e crises de todos os níveis, proclamamos que a Paixão de Cristo, sua preciosa cruz e suas mãos perfuradas significam segurança para aqueles que creem n’Ele. Por isso Ele fala acertadamente: minhas ovelhas escutam minha voz e me seguem, e Eu lhes dou a vida eterna. E também: Ninguém pode arrebatá-las da mão de meu Pai. E isto justamente, porque vivem à sombra do Onipotente, protegidas pelo auxílio divino como em uma torre fortificada.

A proposta hoje não é mais crucificar o Cristo, mas sim aquilo que está nos crucificando, pois como nos fala Santo Ambrósio de Milão, “Carreguemos a cruz do Senhor para que, crucificando a nossa carne, destrua o pecado. Quem ama os preceitos (ensinamentos) do Senhor sujeita com cravos a própria carne, sabendo que, quando seu homem velho estiver com Cristo crucificado na cruz, será destruída a luxúria da carne, o orgulho, a autosuficiência humana, as vaidades, e tantos outros pecados de raiz. Cada um tenha coragem de colocar a sua carne  com os cravos na cruz e assim terá destruído os seus pecados. Está cravado com estes cravos quem morre com Cristo para ressuscitar com ele; está cravado com estes cravos quem leva em seu corpo a morte do Senhor Jesus. Que não nos escandalize a dureza dos cravos, pois é a dureza da caridade; nem nos assuste o poderoso rigor dos cravos, porque também o amor é forte como a morte. Na realidade, o amor dá morte à culpa e a todo pecado. Na verdade, quando amamos os ensinamentos do Senhor, morremos às ações vergonhosas e ao pecado.

A Paixão de Jesus teve causas históricas concretas e foi o desenlace final de uma vida que entrou em conflito com o sistema religioso-político estabelecido na sociedade daquele tempo. Jesus sempre lutou em favor da vida e contra tudo que atentava contra ela. O grande drama que Jesus sofreu foi não terem sabido ver a verdade n’Ele; não quiseram ver o que Ele fazia em favor da vida; não conseguiram ver a bondade e a compaixão em seu coração; não souberam ver Deus n’Ele. Preferiram a violência. Jesus teve duras experiências com as pedras, porque muitas vezes quiseram apedrejá-lo, embora ele sempre tenha conseguido livrar-se delas. Ele tem consciência de que as pessoas encontram justificativas para apedrejar os outros. Custa-nos reconhecer o que é bom nos outros; facilmente preferimos apedrejá-los com nossa críticas, murmurações, difamações. E assim são piores as pedras da língua que as pedras que atiramos com as mãos. Quem tem o coração duro e petrificado terá naturalmente pedras em abundância em suas mãos para atirar sobre os demais. Num coração petrificado, o Espírito não tem liberdade de atuar; dessa resistência à ação do Espírito brotam as doentias divisões internas, que atrofiam nossas forças criativas e nos distanciam da comunhão com tudo e com todos. Com isso nos blindamos, tornando-nos rígidos, petrificados em nossas posições, crenças, valores… e não nos deixamos impactar pelo novo, pelo diferente.

Chegar com o Cristo ao Calvário, tomando nossa cruz significa ter ouvido atento ao que ele mesmo diz: o que não carrega a sua cruz e não me segue, não é digno de mim. Em efeito, tomar a cruz significa renunciar a tantas propostas do mundo que não convém ao discípulo de Cristo. “Tomar a Cruz” e “Carregar a cruz” significa acolher aquilo que diariamente cruza o nosso caminho, abraçar, com todas as nossas forças e todas as nossas fraquezas, os sucessos e os fracassos, as coisas vividas e as coisas perdidas, o consciente e o inconsciente… Nesse sentido, a cruz deixa de ser um “peso morto”, ou seja, uma cruz vazia, sem sentido, in-sensata, pois fecha a pessoa em si mesma, em seu sofrimento e angústia; não aponta para o futuro, nem abre um horizonte de vida. Fazer o caminho contemplativo junto a Jesus que leva a cruz da fidelidade e chega ao Gólgota, ajuda-nos a romper com as cruzes que nos afundam no desespero, nos fracassos, nos traumas das experiências frustantes…

Dessa forma, os que seguem a Cristo estão também crucificados com ele: morrendo à sua antiga conduta, são introduzidos em uma vida nova conforme ao Evangelho: Por isso, afirmava Paulo: os que são de Cristo Jesus Crucificaram sua carne com suas paixões e concupiscências. E novamente, como que falando de si, exorta a todos: Na realidade, pela fé, eu morri para a lei, a fim de viver para DeusEstou crucificado com Cristo: Já não sou eu que vivo, mas Cristo vive em mim. E ainda, Cristo morreu pelos nossos pecados segundo as Escrituras (1Cor 15,3).

Queremos chegar com Jesus ao Calvário, e experimentar a mesma liberdade com a qual Ele viveu sua entrega pela salvação da humanidade. Pois a liberdade com a qual ele vai ao encontro da morte deriva do desejo de fazer a vontade do Pai. É, de fato, o Pai que entrega o Filho por amor. Também a obediência de Jesus ao Pai é expressão de amor (Rm 5,19): “É preciso que o mundo saiba que eu amo o Pai e faço aquilo que o Pai me mandou fazer” (Jo 14,31). A relação entre Deus e o homem não é mais definida pela desobediência de Adão (Rm 5,12-19), mas da obediência de Jesus até a morte. E assim destrói os nossos pecados, tornando-nos justos e santos diante de Deus. Por amor, Ele assume o destino do homem até à morte: “Jesus sabendo que era chegada a sua hora de passar deste mundo para o Pai, amou os seus que estavam no mundo, e os amou até o fim” (Jo 13,1). E o que nós buscamos celebrar, nestes dias, através deste grande mistério, é o amor de Deus Pai e do Filho Jesus pela salvação de toda a humanidade. Aqui está a verdadeira motivação do sacrifício cruento de Jesus na cruz.

A oração destes dias deve ser profundamente silenciosa: trata-se de acompanharmos Jesus no caminho em direção ao Gólgota e sua morte na cruz. Silenciar o corpo, a mente, o coração para contemplarmos a Paixão redentora do Senhor. No percurso solidário com Jesus e com os sofredores da história não encontramos o “Deus do poder”’ que se impõe, mas o “Deus do amor” que se expõe à maior das fragilidades, porque o amor significa admitir a possibilidade de ver-se recusado e rejeitado. Só na fragilidade do amor Deus manifesta sua força misericordiosa.

Diante da violência e do sofrimento Deus silencia, porque Ele se encontra junto às vítimas, não junto aos carrascos. Seu “silêncio”, porém, não é de tolerância, mas de amor compadecido e solidário. Amor  que tudo pode, mas não pode reagir à violência com violência igual ou maior. E continua sem poder impedir que a Paixão de Jesus continue acontecendo hoje. A resposta de Deus ao sofrimento não é escrita com tinta, mas com sangue , carne, sentimento, fragilidade.

Ao entrar no caminho da Paixão de Jesus, uma pergunta brota naturalmente: Onde está Deus em nossa experiência de sofrimento? Mas Deus desafia-nos a responder à sua própria pergunta: Onde está você no meu sofrimento? Ele revela, aos nossos olhos dolorosamente abertos, o mistério de sua própria presença em nosso sofrimento e morte dos seus filhos e filhas. É o Deus que se identifica com a dor do mundo, com a marginalização dos excluídos e com a desgraça de todos os miseráveis da terra. Não podemos chegar ao Deus de Jesus pelo caminho largo e fácil do poder e da razão, senão pela senda escarpada e dura da solidariedade e da loucura da cruz.

A questão determinante para nós cristãos está em buscar a Deus e crer na sua transcendência a partir da solidariedade com as vítimas, com os crucificados deste mundo e com os que necessitam de calor humano, compreensão, tolerância, companhia e carinho.Partindo da mensagem evangélica do amor-doação, podemos concluir que o único “sofrimento” que Deus quer é o que brota da luta contra o sofrimento. Deus quer o sofrimento somente quando é consequência de uma convicção e de um modo de viver que não suporta que os outros sofram. Foi exatamente isso que aconteceu com Jesus. E por isso o crucificaram. Somente a força do amor, da misericórdia e da entrega, que se faz capaz, como em Jesus, de suportar a mais extrema das debilidades, pode transformar o mundo.

Para concluir esta reflexão, voltemo-nos para a presença de Maria, a Mãe, que estava de pé junto à Cruz. Maria estava no Calvário, não apenas assistindo no meio do público, mas em lugar de destaque, ao pé da cruz, ao pé do Redentor. E, por isto, Jesus a entregou ao discípulo amado, representando a comunidade Igreja que nascia do Mistério da sua Páscoa: “Mulher, eis aí o teu Filho! Filho, eis aí tua Mãe!” (Jo 19, 26-27).

Na hora de sua morte, Jesus Cristo se lembra de nos dar a sua mãe para que fosse também a nossa mãe, a mãe de toda a humanidade, de todos os povos, da Igreja inteira. Todos nós somos chamados a sermos filhos de Deus, a sermos filhos de Maria; Maria nos ensina ao pé da cruz, que devemos estar sempre à disposição de Jesus Cristo para ajudá-lo a salvar o mundo. Maria soube emprestar o seu ventre para que Jesus pudesse nascer. Ela nos convida a acolhermos Cristo dentro de nós para podermos torná-lo presente no mundo.

Maria soube estar ao lado de seu filho sofredor, quando ele sentia só e abandonado. Assim, Maria nos ensina também a estar perto de cada irmão e irmã que sofre hoje. Maria nos ajuda a estar perto do pobre, das pessoas marginalizadas, da pessoa solitária e desesperada; perto do doente e do preso, perto do condenado e do castigado. Maria nos mostra, assim, que devemos estar perto de cada Jesus que sofre sua paixão, hoje.

Que cada um de nós possa ser, perto daquele que sofre, a presença de Maria, que cada um de nós possa receber de Maria essa missão de continuar assistindo e sustentando os sofredores, principalmente as vítimas da violência. Que nós possamos receber de Maria essa sublime missão, de enxugar as lágrimas, o suor e o sangue de todos os “Cristos” que estão sofrendo pelo mundo a fora.

Ela permaneceu a vida inteira com o Filho, ela conhece seu coração. Ela está muito sofrida: viu o Filho amado ser torturado, humilhado, abandonado pelos amigos. Viu-o ser morto violentamente, sem nenhuma misericórdia. Ela está ferida no mais profundo de seu ser porque sofreu nas entranhas a dor do Filho. Maria está triste, mas não desesperada. Ela não sabe, neste momento, ao certo o que acontecerá, mas conhece o coração do Filho e está cheia de esperança. Dizia Santo Agostinho: “Doía-lhe que tivesse sido morto injustamente Aquele a quem ela gerou virgem; mas esperava e cria firmemente que ressuscitaria ao terceiro dia, conforme o que fora prometido, vencida já a morte; entretanto, somente nela estava a fé da Igreja. Enquanto cada um vacilava e duvidava, ela, que com fé concebeu a fé, que uma vez recebeu de Deus e nunca a perdeu, com essa fé e com a esperança certíssima esperou a glória da ressurreição”.

O convite é, para que, durante esta semana santa, passemos este tempo com Maria, em sua solidão grávida de esperança viva…esperança por um mundo mais justo e fraterno a partir da paixão redentora de Nosso Senhor Jesus Cristo.

 

* Pe Adilson Luiz Umbelino Couto
Formador e Professor no Seminário São José – Mariana

A Antropologia Teológica do Concílio Vaticano II

Cônego Lauro Sérgio Versiani Barbosa.

O Concílio Vaticano II não tratou especificamente da Antropologia Teológica em seus documentos conclusivos, mas na primeira parte da Constituição Pastoral Gaudium et Spes encontramos a sua contribuição mais substanciosa para a reflexão antropológica. A Gaudium et Spes, ao conjugar elementos doutrinais e pastorais em sua reflexão sobre “A Igreja no Mundo Atual”, volta a sua atenção para a criatura humana e acaba por produzir verdadeira síntese antropológica. O método adotado pela Gaudium et Spes é preferencialmente, mas não exclusivamente, indutivo: a realidade humana acolhe a revelação de Deus. Assumindo a postura de diálogo com o mundo contemporâneo, a Constituição Pastoral contempla o ser humano concreto a quem a Igreja quer servir, como fica evidente no início do seu belo Proêmio: As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco em seu coração (GS 1). A questão antropológica ocupa lugar fundamental na exposição da Gaudium et Speso homem será o fulcro de toda a nossa exposição: o homem uno e integral: corpo e alma, coração e consciência, inteligência e vontade (GS 3). É claro que o ser humano é contemplado à luz da revelação cristã.

Assim, dos números 4 – 10, a Gaudium et Spes trata, como introdução, da condição do homem no mundo de hoje, apontando os desafios atuais e os questionamentos fundamentais levantados pelo ser humano, concluindo com a visão cristocêntrica da história humana: a chave, o centro e o fim de toda a história humana se encontram no seu Senhor e Mestre…subjacentes a todas as transformações, há muitas coisas que não mudam, cujo último fundamento é Cristo, o mesmo ontem, hoje e para sempre (cf. Hb 13,8). Quer, portanto, o Concílio, à luz de Cristo, imagem de Deus invisível e primogênito de todas as criaturas (cf. Cl 1,15), dirigir-se a todos, para iluminar o mistério do homem e cooperar na solução das principais questões do nosso tempo (GS 10). Para Cristo tudo converge e nele está o fundamento de tudo o que existe. Em Cristo as interrogações humanas mais profundas encontram a sua resposta final.

Segue-se a primeira parte da Gaudium et Spes, que tem por título A Igreja e a Vocação do Homem. O primeiro capítulo sobre A Dignidade da Pessoa Humana oferece uma síntese antropológica que tem o seu ponto alto no número 22, a maior e mais original contribuição teológica do Concílio Vaticano II para a reflexão antropológica. O n. 12 trata da criação do ser humano à imagem de Deus conforme lemos no Antigo Testamento. O n. 13 trata do pecado como abuso da liberdade que trouxe divisão e enfraquecimento do ser humano, impedindo a sua realização. O n. 14 trata da constituição una do ser humano em corpo e alma. Os números 15 e 16 tratam da dignidade da inteligência e da consciência moral. O n. 17 trata do dom da liberdade humana. O n. 18 aborda o mistério da morte iluminado pela ressurreição de Cristo. Os números 19 a 21 apontam para a sublime vocação humana de diálogo com Deus, abordando o desafio do ateísmo para a Igreja.

O número 22 da Gaudium et Spes é de altíssimo nível teológico e retoma o que fora aludido no número 10. A perspectiva cristológica é a única capaz de esclarecer o mistério do ser humano: Na realidade, só no mistério do Verbo encarnado se esclarece verdadeiramente o mistério do homem. Adão, o primeiro homem, era efetivamente figura daquele futuro (cf. Rm 5,14 e cf. Tertuliano. De carnis resurr. 6), isto é, de Cristo Senhor. Cristo, novo Adão, na própria revelação do mistério do Pai e do seu amor, revela o homem a si mesmo e descobre-lhe a sua vocação sublime. Não é por isso de admirar que as verdades acima ditas tenham nele a sua fonte e nele atinjam a plenitude (GS 22). Ou seja, a questão antropológica só se resolve em chave interpretativa cristológica. Estamos diante do princípio fundamental da antropologia do Concílio Vaticano II, ponto de partida para uma visão teológica unitária, coerente, integral e sistemática do ser humano à luz da fé cristã. Tudo o que foi dito anteriormente sobre o ser humano só pode ser plenamente compreendido à luz de Cristo. É a partir do Filho de Deus que se encarnou que se pode compreender o que o ser humano é chamado a ser. Dizer que o ser humano foi criado à imagem de Deus é ainda vago e abstrato. À luz do Novo Testamento se pode dizer que Adão era apenas figura daquele que veio pela encarnação (cf. Rm 5,14). O Vaticano II retoma pensamento patrístico um tanto esquecido. Cita, em nota de pé de página do n. 22 da Gaudium et Spes, Tertuliano, logo após a referência ao texto de Paulo aos Romanos. Tertuliano afirma que naquele que era modelado do barro vinha pensado Cristo, o homem definitivo. Poderia ter sido citado também Santo Irineu que em sua antropologia concebe o homem plasmado do barro da terra pelas mãos de Deus como reproduzindo já a imagem de Cristo que se encarnaria. Assim, só sabemos quem é o ser humano por Cristo: Adão se explica por Cristo e não o contrário, Cristo por Adão. Cristo nos revela o amor do Pai e revela o ser humano a si mesmo. Desde o início da criação só temos uma vocação: sermos filhos de Deus por adoção no seu Filho Unigênito por natureza. O Vaticano II retoma a mais antiga tradição cristã dos Padres da Igreja, obscurecida pela distinção excessiva entre ordem natural e sobrenatural no relacionamento entre a humanidade e Deus.

Continua o n. 22 da Gaudium et Spes“Imagem do Deus invisível” (Cl 1,15) (cf. 2 Cor 4,4), ele é o homem perfeito, que restitui aos filhos de Adão a semelhança divina, deformada desde o primeiro pecado. Já que, nele, a natureza humana foi assumida, e não destruída, por isso mesmo, também em nós foi elevada a sublime dignidade. Porque pela sua encarnação, ele, o Filho de Deus, uniu-se de certo modo a cada homem. Trabalhou com mãos humanas, agiu com uma vontade humana, amou com um coração humano. Nascido da Virgem Maria, tornou-se verdadeiramente um de nós, semelhante a nós em tudo, exceto no pecado (GS 22). A citação de Cristo como imagem de Deus tirada da Carta de Paulo aos Colossenses já aparecera no n. 10 e reaparece no n. 22 da GS. O tema do homem criado à imagem de Deus do Antigo Testamento e que apareceu no n. 12 da GS se torna concreto em Cristo, verdadeira imagem do Deus invisível. Assim, o ser humano é, na verdade, imago imaginis Dei, pois Cristo é a imagem de Deus, como ensina ainda Paulo na 2 Cor 4,4, citada em nota de pé de página do n. 22 da GS, e também na Carta aos Romanos 8,29. Cristo é o homem perfeito, que assumiu a natureza humana plenamente e a elevou a sublime dignidade, ensina a Gaudium et Spes 22. Atenção! Não se trata da afirmação cristológica do Concílio de Calcedônia (451) de Cristo perfeito homem quanto à sua natureza, mas do homem perfeito, isto é, completo, acabado, pleno, o protótipo do humano! A natureza humana não foi absorvida pela divindade, mas assumida e elevada à sua máxima dignidade. Essa mesma idéia de Cristo, o homem perfeito, será retomada no desenvolvimento da Gaudium et Spes em outros números. No terceiro capítulo, sobre a Atividade Humana no Mundo, no n. 38 lemos: O Verbo de Deus, pelo qual todas as coisas foram feitas, fazendo-se homem e vivendo na terra dos homens (cf. Jo1,3.14) , entrou como homem perfeito na história do mundo, assumindo-a e recapitulando-a (cf. Ef1,10) (GS 38). No quarto capítulo sobre O Papel da Igreja no Mundo Contemporâneo se lê: Todo aquele que segue Cristo, o homem perfeito, torna-se mais homem (GS 41); e ainda no mesmo capítulo: Com efeito, o próprio Verbo de Deus, por quem tudo foi feito, fez-se homem, para, homem perfeito, a todos salvar e tudo recapitular (GS 45). Ou seja, em Cristo nós temos a humanidade realizada segundo o desígnio único, original e definitivo do Criador e segui-lo é aperfeiçoar-se e crescer em humanidade. E prossegue o parágrafo 2 do n. 22 da Gaudium et Spes que estamos analisando, dizendo que, pela sua encarnação, o Filho de Deus se uniu de certa forma a todo homem, conforme ensina a Tradição da Igreja sobre a humanidade assumida pelo Filho, mas o Concílio acrescenta ao plano ontológico em que se situavam os Padres da Igreja o plano existencial da vida humana concreta como observaram os teólogos J. Ratzinger e L. Ladaria: Trabalhou com mãos humanas, pensou com uma inteligência humana, agiu com uma vontade humana, amou com um coração humano (GS 22). Ou seja, Cristo assemelhou-se a nós em tudo, exceto no pecado e do qual veio nos libertar. O parágrafo seguinte do n. 22 trata exatamente da entrega solidária do Cristo até a morte pelos nossos pecados, de sua obra de reconciliação que confere sentido e santidade à vida e à morte. É bom lembrar que o Verbo encarnado é o Cristo morto e ressuscitado. A relação Cristo-Adão é dialética. Adão é figura de Cristo. Mas Cristo, último (definitivo) Adão, vem a um mundo marcado pelo pecado, portanto a nossa configuração a Cristo nos associa ao mistério pascal de Jesus Cristo.

O quarto parágrafo do n. 22 da Gaudium et Spes torna explícita a necessidade da configuração do cristão à imagem do Filho e da associação ao mistério pascal do Cristo na força do Espírito Santo para a realização do desígnio original de Deus sobre o ser humano, fundamentando-se amplamente na teologia paulina. O parágrafo seguinte acrescenta que isso vale não só para os cristãos, mas para todos os homens de boa vontade: Com efeito, já que por todos morreu Cristo e que a vocação última de todos os homens é realmente uma só, a saber, a divina, devemos acreditar que o Espírito Santo dá a todos a possibilidade de se associarem a este mistério pascal por um modo só de Deus conhecido. Tal é, e tão grande, o mistério do homem, que a revelação cristã manifesta aos que crêem. E assim, por Cristo e em Cristo, esclarece-se o enigma da dor e da morte, o qual, fora do seu Evangelho, nos esmaga. Cristo ressuscitou, destruindo a morte com a própria morte, e deu-nos a vida, para que, tornados filhos no Filho, exclamemos no Espírito: Abba, Pai! (GS 22). Ficam evidenciados o significado salvífico universal de Jesus Cristo, a missão do Espírito Santo, a dimensão trinitária da salvação cristã e a dimensão comunitária da salvação que será mais desenvolvida na seqüência da Gaudium et Spes. Nota-se, porém, que o acento sobre o significado salvífico universal de Jesus Cristo é mais escatológico que protológico. A protologia é mais implícita. Talvez o Vaticano II tenha preferido evitar entrar aqui em disputas entre escolas teológicas com posições diversas (escola escotista e escola tomista).

Em outros documentos do Concílio Vaticano II encontram-se referências claras à relação fundamental entre Cristo e o ser humano, embora sem um tratamento sistemático. No Decreto Ad Gentes sobre A Atividade Missionária da Igreja acha-se a seguinte passagem: A atividade missionária tem íntima conexão também com a própria natureza humana e suas aspirações. Com efeito, ao dar a conhecer Cristo, a Igreja revela, por isso mesmo, aos homens a genuína verdade da sua condição e da sua integral vocação, pois Cristo é o princípio e o modelo da humanidade renovada e imbuída de fraterno amor, sinceridade e espírito de paz, à qual todos aspiram (AD 8). Na Declaração Nostra Aetate sobre As Relações da Igreja com as Religiões Não-Cristãs afirma-se: Nós não podemos invocar Deus, Pai de todos os homens, se nos recusamos a comportar-nos como irmãos para com alguns homens criados à imagem de Deus. A relação do homem para com Deus Pai, e a relação do homem para com os outros homens seus irmãos, encontram-se tão ligadas entre si que a Sagrada Escritura diz: “Quem não ama, não conhece a Deus” (1 Jo 4,8) (NA 5). O contexto fala de Cristo como fundamento da fraternidade universal, o que fica explícito nos números 92 e 93 da Gaudium et Spes. Na Constituição Dogmática Lumen Gentium sobre a Igreja são várias as passagens que abordam a relação fundamental entre Cristo e a humanidade em termos de vocação e realização de toda a humanidade, destacando a centralidade de Jesus Cristo como luz do mundo: LG 1; 2; 3; 6; 7; 9; 11; 13; 31; 32; 40; 48; 49; 50; 51; 52. Cito apenas o final da LG 3: Todos os homens são chamados a esta união com Cristo, que é a luz do mundo, do qual procedemos, pelo qual vivemos e para o qual tendemos. Na mesma direção podemos citar a Constituição Dogmática Dei Verbum sobre a Revelação Divina em seu importante n. 2 que aponta para Cristo como mediador e plenitude de toda a revelação. A Constituição Sacrosanctum Concilium sobre a Sagrada Liturgia nos números 2, 6 e 48 aponta para a inserção no mistério do Cristo celebrada na liturgia como vocação de todos. Na mesma linha da convergência de tudo para Cristo podemos citar: o já mencionado Decreto Ad Gentes 1, 3, 6 e 7; o Decreto Presbyterorum Ordinis sobre O Ministério e a Vida dos Presbíteros n. 22; o Decreto Apostolicam Actuositatem sobre o Apostolado dos Leigos números 17 e 18; o Decreto Unitatis Redintegratio sobre o Ecumenismo números 2 e 3.

Embora todas essas citações não sejam exaustivas, não há dúvida de que o Concílio Vaticano II mostra que há um só desígnio salvífico de Deus sobre o ser humano e que une criação e redenção. O ser humano do ponto de vista teológico, concreto e existencial, não pode ser definido sem uma referência clara a Jesus Cristo. Há uma consistência própria e autonomia da realidade criatural, mas Cristo é a determinação última da pessoa humana. O ser humano é deiforme e cristoforme, chamado à configuração a Jesus. Na graça, somos chamados a sermos filhos no Filho. Como diria Karl Rahner, o ser humano é o que surge quando Deus quer fazer-se criatura, quando Deus quer expressar-se no outro. O ser humano é, pois, ontologicamente, um possível irmão de Jesus. A plenitude da graça não é uma salvação extrínseca, mas com toda a novidade trazida por Cristo, temos a realização do desígnio originário de Deus: em Cristo somos escolhidos. Cristo é o modelo do ser humano desde o início e pelo Espírito Santo leva a pessoa humana à realização do desígnio final de Deus. Mas Cristo representa uma novidade radical e gratuita na história. Novidade gnosiológica enquanto realização e superação da esperança de Israel. Novidade enquanto superação do pecado pela redenção que permite passar do primeiro ao segundo Adão. Novidade enquanto possibilidade de realização do ser humano pelo dom do Espírito. Não se trata simplesmente do Logos eterno, mas de Jesus, o Logos encarnado, de Jesus morto e ressuscitado, da vida, paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo na força do Espírito Santo doado para a glória de Deus Pai: Quando, porém, chegou a plenitude do tempo, enviou Deus o seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a Lei, para resgatar os que estavam sob a Lei, a fim de que recebêssemos a adoção filial. E porque sois filhos, enviou Deus aos nossos corações o Espírito do seu Filho, que clama: Abba, Pai! (Gl 4,4-6).

Referências Bibliográficas

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DOCUMENTOS DO CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II, São Paulo, Paulus, 20115.

LADARIA, L. F., Introdução à Antropologia Teológica, São Paulo, Loyola, 1998.

LATOURELLE, R. (Ed.), Vaticano II: Balance y Perspectivas, Salamanca, Ediciones Sigueme, 19902.

LOPES, G., Gaudium et Spes: Texto e comentário, São Paulo, Paulinas, 2011.

MIRANDA, M. F., A Salvação de Jesus Cristo, São Paulo, Loyola, 2004.

RAHNER, K., Curso Fundamental da Fé, São Paulo, Paulinas, 1989.

RUIZ DE LA PEÑA, J. L., Criação, Graça, Salvação, São Paulo, Loyola, 1998.

PACOMIO, L. – MANCUSO, V., LEXICON: Dicionário Teológico Enciclopédico, São Paulo, Loyola, 2003. 

2020: Ano da Família na arquidiocese de Mariana

Dando sequência às prioridades pastorais propostas pelo Projeto Arquidiocesano de Evangelização (PAE), a família é quem ocupará a centralidade da evangelização na Arquidiocese de Mariana neste ano de 2020. O desejo é que durante este ano possamos rezar ainda mais pelas famílias e em família, refletindo, à luz da fé cristã, sobre esta importante instituição.

É com grande alegria e esperança que toda a Arquidiocese de Mariana é chamada a assumir esta prioridade pastoral. Não podemos delegar a celebração do ano da família apenas à Pastoral Familiar ou aos movimentos e pastorais que focam sua atividade na família. Afinal de contas, todos os trabalhos eclesiais, em última análise, incidem sobre a vida da família. Portanto, o convite para a dinamização do ano da família é direcionado a todas as forças evangelizadoras da nossa Igreja particular.

Estamos num período denominado “mudança de época”, marcado por profundas e radicais transformações culturais, sociais e religiosas. Na verdade, estas mudanças são estruturais e, por isso, têm uma incidência muito forte sobre a vida das famílias. A exortação pós- sinodal “Amoris Laetitia”, do Papa Francisco, elenca diversos fatores culturais, sociais e religiosos que afetam as famílias na atualidade. Dentre os fatores culturais, a Exortação acentua: maior espaço para a liberdade no seio da família; distribuição mais equitativa dos encargos e responsabilidades dentro da família; rapidez da comunicação; nova compreensão da sexualidade humana que repercute na legislação relativa à contracepção, ao aborto e aos direito matrimonial e familiar; a cultura do provisório que gera medo de  compromissos mais permanentes e duradouros; o individualismo exagerado que leva a um fechamento em si mesmo; a ideologia de gênero que considera a realidade como uma construção social e visa desconstruir antropologicamente o conceito de masculino e feminino e sua reciprocidade. Dentre os fatores sociais que interferem mais na vida da família, são apontados: o ritmo da vida atual que provoca estresse nos membros da família e dificulta a educação dos filhos; a sociedade do hiperconsumo em que o bem-estar material e o consumismo tornam-se sinônimos de felicidade; a diminuição dos matrimônios que faz crescer o número das pessoas que querem viver sozinhas ou conviver com outras, sem coabitar; a queda demográfica; os problemas econômicos provocados por falta de trabalho e habitação e que retardam o matrimônio. (Continua no próximo artigo)

A Ressurreição de Jesus

A fé cristã nasce desta experiência: a experiência do encontro com o Cristo Vivo! Diz o Apóstolo Paulo: se Cristo não ressuscitou, ilusória é a vossa fé; ainda estais nos vossos pecados. Por conseguinte, aqueles que adormeceram em Cristo, estão perdidos. Se temos esperança em Cristo somente para esta vida, somos os mais dignos de compaixão de todos os homens. Mas não! Cristo ressuscitou dos mortos primícias dos que adormeceram (1 Cor 15,17-20). É o Vivente que veio e vem ao nosso encontro, Aquele que dá vitalidade e fundamento à nossa fé. O cristianismo não é, em primeiro lugar, um belo conjunto doutrinal ou sistema filosófico ou teológico, ou ainda um impressionante acontecimento histórico que atravessa os séculos e se expressa na vida de gerações de povos com uma riqueza de cultura, arte, fé e caridade que o tornam respeitável e digno de credibilidade. O cristianismo é Cristo ressuscitado! O cristianismo se concentra na Pessoa de Jesus Cristo, compreendido à luz da sua ressurreição. A ressurreição ilumina toda a vida de Jesus e dá a chave de compreensão de toda a Sagrada Escritura, revelando quem é Deus e o ser humano!

A Igreja vive da alegria pascal! Somos os transmissores desta alegria pascal de geração em geração e a celebramos na solene liturgia. A ressurreição do Senhor ascendeu a nossa fé e nos confiou a missão de anunciadores da Boa Nova: a vida tem futuro, a morte e o pecado foram vencidos! Deus é amor que veio a nós em Jesus e refaz a sua criação a partir da ressurreição daquele que é o “primogênito dentre os mortos” (Cl 1,18) e “primícias dos que adormeceram” (1 Cor 15,20), convidando-nos a subir ao Pai na força do Espírito Santo que nos foi dado! A ressurreição de Jesus permitiu perceber que tudo o que Jesus fez e ensinou é revelação de Deus e da vocação do ser humano. Não podemos mais viver senão para Aquele que nos amou e deu a vida por nós e que o Pai ressuscitou na potência do Espírito Santo, para que todos tenhamos a vida em plenitude! Mais: Ele está no meio de nós, nos envia em missão e caminha conosco!

A ressurreição de Jesus Cristo é um fato inaudito e desconcertante que só pode ser expresso em linguagem simbólica. Não é um acontecimento neutro, mas inseparável da fé-adesão. Trata-se de uma realidade meta-histórica que exige perspectiva própria. Nem a ciência, nem a história, são adequadas para falar da ressurreição. O ato da ressurreição não foi presenciado por ninguém. É um acontecimento que se dá entre Jesus e o Pai pelo poder do Espírito Santo. O acontecido com Jesus se tornou acessível a nós porque Ele quis manifestar-se. Temos o testemunho dos Apóstolos que fizeram a experiência fundante e proclamaram: “Ele vive!”. Nessa experiência, os que temos fé fomos introduzidos.

O Novo Testamento registra vários esforços distintos de transmitir a experiência da ressurreição. Temos as breves confissões de fé da Primeira Carta de Paulo aos Tessalonicenses (1 Ts 1,10; 4,14); a linguagem querigmática dos discursos de Pedro nos Atos dos Apóstolos e dos hinos das Cartas de Paulo (Fl 2,6-11; Cl 1,15-20) ou da tradição confessional expressa no credo de 1 Cor 15,3-8: Eu vos transmiti primeiramente o que eu mesmo havia recebido: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras; foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras; apareceu a Cefas, e em seguida aos Doze. Depois apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma vez, dos quais a maior parte ainda vive e alguns já são mortos; depois apareceu a Tiago, em seguida a todos os apóstolos. E, por último de todos, apareceu também a mim, como a um abortivo. Este credo da Igreja primitiva conservado e transmitido por Paulo, torna evidente a inserção da ressurreição de Cristo na história da salvação, através da expressão repetida “segundo as Escrituras”. Temos ainda a tradição narrativa dos relatos evangélicos de aparição e do túmulo vazio. Os relatos de aparição constituem narrativas ricas em simbolismos e não podem se confundir com relatos biográficos. Possuem gênero literário próprio, com estrutura que pode ser bem delineada. Partem da experiência humana que “descobre” uma situação nova, por iniciativa de Jesus que se manifesta, se faz ver (At 1,3). A manifestação de Jesus desencadeia um processo (manifestação de Jesus, busca de compreensão, adesão na fé; cf. Lc 24,13-35), que tem como resultado o reconhecimento da identidade entre o Jesus terrestre ou crucificado e o ressuscitado, isto é, a experiência supõe a memória do vivido com Jesus anteriormente. Em seguida, a experiência implica mandato de missão: ser testemunha do ressuscitado.

Também o relato do túmulo vazio (Mc 16,1-8; Mt 28,1-8; Lc 24,1-10; Jo 20,1-10) não se explica pela realidade do túmulo vazio. Há necessidade de uma palavra de interpretação que o vincula à experiência da Galiléia, ou seja, ao vivido com Jesus, à comunidade de fé, à periferia do mundo. É pela palavra interpretativa que se passa do “ver” para o “crer”. O túmulo vazio não é prova, mas sinal.

Os relatos evangélicos de aparição do ressuscitado e do túmulo vazio nos apontam para a vida de Jesus. Expressam a identidade entre o ressuscitado e o terrestre ou crucificado, o que foi percebido através de um processo lento de transformação das testemunhas do ressuscitado, a partir da iniciativa de Jesus. O medo e o desânimo que tomaram conta dos discípulos, diante do desastre da paixão e morte de Jesus, foram vencidos pela manifestação do ressuscitado. Reconhecer Jesus ressuscitado significa não só uma referência à memória do vivido com Jesus, mas também uma experiência de “encontro” com a “vida nova” que se manifesta em Jesus (1 Cor 15; Lc 24,36-48). É preciso considerar a realidade da ressurreição, a experiência dos discípulos e a linguagem utilizada para comunicar o fato. Trata-se de expressar o encontro com o ressuscitado, realidade nova que ultrapassa os limites do espaço e do tempo. Por iniciativa de Jesus ressuscitado, os discípulos fazem a experiência de que Ele vive (se apresenta, vem…) num estado totalmente novo, numa nova dimensão. A experiência da ressurreição do Senhor nos foi transmitida em linguagem simbólica e o testemunho dos Apóstolos nos introduz na mesma experiência. A fé na ressurreição é adesão ao novo sentido da vida e morte de Jesus, aceitando-o como centro da própria vida.

São Paulo afirma que o Pai ao ressuscitar Jesus disse sim a todas as promessas que o precediam. Deus Pai toma posição em relação à vida de Jesus: ao ressuscitá-lo o Pai diz de que lado está. O Pai não disse nada na paixão e morte porque havia dito tudo antes, durante a vida de Jesus, mas diz de que lado está com a ressurreição. Jesus entrou na vida plena de Deus. Trata-se de intervenção semelhante à da criação, vida recriada. Quando o Pai ressuscita Jesus, está confirmando toda a vida de Jesus. Uma vida de amor-serviço como a de Jesus não podia ficar prisioneira da morte! Com a ressurreição de Jesus pode-se acreditar na força dos pequenos e fracassados. O gesto do Pai nos dá esperança. O mundo foi transformado na sua raiz com a ressurreição. Não só a causa, mas a vida de Jesus com tudo o que significou é glorificada. Agora sabemos com clareza que Jesus é o Filho de Deus que se fez homem e venceu o pecado e a morte por uma vida de fidelidade ao Pai no amor até o fim e por isto foi glorificado (cf. Fl 2,6-11)!

Cônego Lauro Sérgio Versiani Barbosa.

Finados

Ouvindo a música Certas Coisas do padre Jorge Trevisol, comecei a pensar sobre o sentido da vida e da morte. Em certo trecho , ele afirma que um dia a vida vai nos perguntar o que fizemos com os nossos sonhos, o nosso jeito de amar e sobretudo o que deixaremos para as pessoas que vão continuar no mundo.

Este trecho da música faz-nos recordar o sentido da vida e o que celebramos no dia de finados. Para muitos é um dia de tristeza, pois é dia recordar aqueles que amamos e que não se encontram junto de nós; mas para o cristão é um dia de celebrar a vida, fazer memória dos entes queridos, pessoas que de alguma maneira deixaram suas marcas em nossa vida.

É hora de recordar suas histórias, seus sorrisos, o legado que deixaram conosco . É tempo de recordar que o autor da vida também experimentou a morte para vencê-la de uma vez por todas, trazendo-nos a esperança e a certeza da vida eterna.

`A luz da fé, a morte é uma passagem que nos conduz para a visão da glória divina. Por isso finados não pode ser um dia de tristeza, de lamentações, mas um dia de saudades. Dia de fazermos um balanço sobre a efemeridade da nossa vida terrestre e nos questionar o sobre o que fizemos ou estamos fazendo para tornar o mundo melhor e a vida das dos nossos irmãos , como temos vivido a gratuidade, o amor, a justiça,os valores do Reino.

Parar para refletir sobre a vida, ajuda-nos a preparar para viver a eternidade, pois um dia seremos chamados deste mundo e não podemos nos apresentar diante de Deus com as mãos vazias. Oxalá vivêssemos de tal forma, que ao final da nossa vida, retomando as palavras de São Paulo pudéssemos dizer ” combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé. Agora está reservada para mim a coroa da justiça que o Senhor dará a mim e a todos que esperam sua manifestação gloriosa”.

 

 

Sonia Maria Barbosa

Contânica na fé e nas provações

À fragilidade das obras humanas Jesus opõe a necessidade da constância, da firmeza nas realidades sobrenaturais e perante as provações correspondentes a tudo que é contingente. (Lc 21, 5-19). Com efeito, diante do templo de Jerusalém, guarnecido com belas pedras e dons, Ele afirmou a seus discípulos: “De tudo que estais vendo, dia virá em que não ficará pedra sobre pedra que não seja derrubada”, ou seja, vaticinou a ruína daquela grandiosa construção. Entretanto alertou a seus seguidores: “Pela vossa constância é que ganhareis as vossas almas”, isto é, garantiu que a perseverança na fé e nas provações da vida garante a salvação eterna, não perecível. Portanto, alertou para dois fatos inevitáveis: a efemeridade de tudo que é perecível e o valor da persistência na fé apesar das provações. De fato, é preciso ter em vista a fragilidade dos monumentos, das instituições, dos projetos humanos os quais se apresentam como sólidos, mas que são em si frágeis, eles hoje existem amanhã podem desaparecer. Seus ouvintes estavam maravilhados pela beleza daquele templo, como também através dos tempos muitos estariam iludidos com as realizações proporcionadas pelo progresso tecnológico. Em qualquer época o ser humano é vulnerável e a história registra inúmeros cataclismos, terrorismo internacional, pestes, fome, guerras, tudo isto aterrorizando a humanidade. Eis porque Ele aconselhava a construir para a eternidade onde tudo fica solidificado. A fé e a confiança nele deverão então proporcionar o rochedo sólido que nada poderá destruir. Eis porque na Missa, após a consagração, o celebrante diz: “Eis o mistério da fé” e todos respondem repletos de certeza: “Nós proclamamos tua morte, Senhor Jesus, nós celebramos tua ressurreição, vinde Senhor Jesus”. É que a Boa Nova, mensagem do Filho de Deus, é sempre atual e cumpre recebê-la na vida. Trata-se da certeza da presença viva do divino Redentor na existência dos cristãos aqui, agora e por todo sempre. Algo, portanto, indestrutível. O seu discípulo olha o futuro, mas vive intensamente o presente no qual constrói o que é permanente e inelutável. Jesus prometeu: “Nenhum cabelo de vossa cabeça perderá” (Lc 21,18). Sua presença é reconfortante não obstante todas as tormentas. Num mundo mutável, nas vidas de cada um, em tudo que vai fatalmente passando, no meio de tantas confusões religiosas, éticas, políticas o verdadeiro cristão tem onde se apoiar que é o seu Senhor Jesus Cristo que com ele caminha mostrando como chegar um dia à Casa do Pai. Eis porque seu discípulo ante os preconceitos e a indiferença do atual contexto histórico não desamina nunca e conta com outra promessa de Cristo: “Eu vos darei uma linguagem e uma sabedoria à qual vossos adversários não poderão resistir, nem se opor” (Lc 21,14-15). Sobretudo nas celebrações eucarísticas se encontra a fonte da fortaleza interior, celebrando Aquele que faz renascer da água e do Espírito Santo através de seu Corpo e Sangue que transforma a vida humana tão frágil numa vida eterna já começada aqui na terra. Jesus vem a cada instante para junto daquele que O invoca com unção e vigor, sem cessar, tendo uma visão sábia do fim último de cada um e de toda a história do mundo. É deste modo que se humaniza em ato a presença de Deus. Cada um realizando com todo entusiasmo e espírito de fé as tarefas específicas que a Providência lhe confiou. Trata-se da vivência plena do cotidiano, vivido sempre junto daquele que é o Senhor de tudo. É o traduzir de maneira existencial o conselho de Jesus: “Pela vossa perseverança, ganhareis vossas almas”. Este perseverar significa utilizar os dias que Deus concede para que com as ações diárias se construa um edifício na vida eterna o qual não será nunca destruído O verdadeiro cristão sabe que sua união com Cristo o faz avançar, progredindo sempre, jamais retrocedendo. Jesus quer que seu seguidor tenha uma visão clarificada de seu futuro além-morte. Ai daqueles que, por serem seres pensantes, julgam poderem por si mesmos provar sua superioridade, enfrentando os desafios que surgem. Então aquilatam erroneamente que não têm necessidade de Deus e se tornam vítimas de seu próprio orgulho. Deste modo, provocam a Deus contradizendo o que Cristo afirmou: “Sem mim nada podeis fazer”. A vaidade humana, se não é vencida, acaba levando a uma grande catástrofe pessoal por não reconhecer que longe de Deus sua vulnerabilidade o conduz a desgraças fatais. Tentando desafiar a morte com suas próprias forças, vai ao encontro de todas as desventuras, pois é impossível suplantar os planos divinos. Estes oferecem a felicidade completa não neste mundo, mas na eternidade junto dele.  A audácia humana obsta a muitos a trilharem os caminhos de Deus e isto os impede de obter a salvação eterna. Felizes os que se apoiam, não nas ilusões humanas, mas naquele que, mesmo tendo sido pregado numa cruz e nela morrendo, ressuscitou, vencendo todos os tormentos e abrindo para seus seguidores uma perspectiva de eternidade feliz graças ao seu poder divino.

 

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho

Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos,

diretor Espiritual do Movimento de Juventude da Paróquia de Santa Rita de Cássia em Viçosa desde 1960,

membro da Academia Mineira de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

Dom Luciano: 13 anos

Dia 27 de agosto, relembramos Dom Luciano Mendes de Almeida. Faz 13 anos de sua passagem do tempo presente para a continuidade da vida eterna. Certa feita, Dom Luciano – que era filósofo_ dizia que a “morte não existe”. E isso é que nos alegrava e nos motivava  para viver e fazer o bem aos outros, como ele mesmo tanto incentivava. Dom Luciano ficava triste com o sofrimento dos outros, ele os entranhava e para tudo o que dependia de si dava-se um jeito de minorar ou vencer.

Fico pensando, após este tempo, quantos o procurariam para  pedir-lhe um parecer, um apoio, caridade ou ação mais planejada no combate à violência, ao genocídio, à exclusão e ou necessidade qualquer que merecesse sua palavra ou atitude.

A Arquidiocese conta com uma faculdade que tem seu nome “ Faculdade Dom Luciano”; creches ganharam seu patrocínio, como uma que se encontra em Congonhas, a qual está fechada porque fica defronte aàbarragem Casa de Pedra da CSN. A empresa não quer assumir o risco para as 130 crianças da creche e o Poder Público teme recolocar as crianças no espaço construído sem a segurança exigida.

Os institutos federais estão diminuindo seus investimentos, muitos trabalhadores estão sendo demitidos e não se espera positivamente o futuro da educação para as juventudes. Os povos indígenas estão sendo ameaçados em suas terras, na Amazônia, por conta do garimpo, das madeireiras e dos projetos não ambientais que se aproximam.

Muita coisa aconteceu nesses 13 anos. Tenho como positiva a reedição dos Fóruns Sociais pela Vida na Arquidiocese e a caminhada pastoral que se empreendeu em favor da evangelização dos jovens e dos pobres. Há muito a fazer, mas sempre na ótica da “comunhão e da participação” como tão bem falava Dom Luciano. Sinal de vida na contramão histórica é, também, a construção de 90 casas do projeto “Minha Casa Minha Vida”, em Entre Rios de Minas, projeto este que leva seu nome eé da Moradia Popular. Dom Luciano Vive!

Pe. Paulo Barbosa

Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil 2019-2023

1 – A proposta central das novas Diretrizes da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil é evangelizar no Brasil atual marcado pela cultura urbana, anunciando a Palavra de Deus e formando discípulos de Jesus Cristo em comunidades eclesiais missionárias, dentro da evangélica opção preferencial pelos pobres e no cuidado com a Casa Comum, testemunhando o Reino de Deus, que começa na história e será pleno na eternidade de Deus uno e trino.

2 – As DGAE 2019-2023, em continuidade com as anteriores, propõem a evangelização da cultura urbana a partir de pequenas e diversificadas comunidades eclesiais missionárias, exemplificadas com a imagem da casa edificada sobre quatro pilares: Palavra, Pão, Caridade e Ação Missionária, inspiradas nas comunidades dos Atos dos Apóstolos (At 2,42-47). Estes quatro pilares aglutinam as anteriores urgências da ação evangelizadora. A Igreja deve ser uma casa acolhedora para os que chegam e uma casa de portas abertas para a saída missionária. Trata-se de espaço vital missionário. A Palavra deve formar e animar a comunidade, propiciando a iniciação à vida cristã. O Pão expressa a liturgia e a espiritualidade, que santificam as pessoas e as comunidades, cultivando a comunhão com Deus e com os irmãos. A Caridade leva à promoção e à defesa da vida em todos os sentidos, conforme a palavra de Jesus (Jo 10,10). A ação missionária destaca o estado permanente de missão e se expressa nas iniciativas concretas de ir ao encontro dos outros nesse mundo urbano plural, marcado por grande riqueza tecnológica, abundância de informações e possibilidades, injustiças sociais, solidão e profunda sede de Deus. As pessoas precisam ser acolhidas, a comunidade deve ser testemunha do Reino e apontar para a transformação da sociedade.

3 – O mundo urbano de que se fala não é uma realidade geográfica que distingue cidade e campo, mas uma mentalidade presente em ambos. É preciso perceber a presença de Deus nessa nova realidade e anunciar Jesus Cristo, missionário do Pai, e o Reino que ele inaugurou com a sua encarnação, vida, paixão, morte e ressurreição. As comunidades eclesiais missionárias devem ser embaixadoras da misericórdia de Deus nesse mundo, como sal, luz, fermento, como fala o Evangelho (Mt 5,13-14; Mt 13,31-33). Num contexto de individualismo, as comunidades eclesiais missionárias têm um significado profético e concretizam a conversão pastoral de que se fala desde a Conferência de Aparecida. É preciso acolher, contemplar, discernir e iluminar com a Palavra de Deus a cultura urbana.

4 – O convite é para que vivamos verdadeira conversão pastoral com abertura para vários tipos de comunidades eclesiais missionárias fundadas nos quatro pilares, Palavra, Pão, Caridade e Ação Missionária, possibilitando ampla capilaridade no mundo urbano atual para o anúncio do Evangelho de Jesus Cristo, sem proselitismo, em diálogo com a cultura urbana plural e oferecendo autêntico testemunho cristão.

5 –Comunidade e missão são inseparáveis. A meta é formar comunidades eclesiais missionárias, evangelizadoras no mundo urbano atual, à luz da evangélica opção preferencial pelos pobres e no cuidado com a Casa Comum, propagadoras do humanismo integral aberto à graça de Deus.

Cônego Lauro Sérgio Versiani Barbosa

Dia do Papa

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

De suma importância é a comemoração do Dia do Papa, neste ano festesjado na data de 30 de junho. Com efeito, como  recorda o Catecismo da Igreja Católica « o Papa, Bispo de Roma e sucessor de São Pedro, “é o perpétuo e visível princípio e fundamento da unidade, quer dos Bispos, quer da multidão dos fiéis”. “Com efeito, o Pontífice Romano, em virtude de seu múnus de Vigário de Cristo e de Pastor de toda a Igreja, possui na Igreja poder pleno, supremo e universal”. “E ele pode exercer sempre livremente este seu poder” (§882). Atualmente, o Papa Francisco é o ducentésimo sexagésimo sexto Papa da Igreja Católica (266.º). O Papa é a garantia da transmissão autêntica da mensagem de Cristo e da unidade da Igreja. Seu papel é universal segundo os termos empregados por Cristo dirigidos a São Pedro: “Eu roguei por ti, a fim de que tua fé não desfaleça, e tu, uma vez convertido, confirma teus irmãos” (Lucas 22,32). O magistério do papa não é exercido sozinho, mas com o conjunto dos bispos, sucessores dos Apóstolos, cujo colégio ele preside. O Catecismo da Igreja Católica ensina que: “o colégio ou corpo episcopal não tem autoridade se nele não se considerar incluído, como chefe, o Romano Pontífice”.

Como tal, este colégio é “também ele detentor do poder supremo e pleno sobre a Igreja inteira”. Todavia, este poder não pode ser exercido senão com o consentimento do Romano Pontífice (§883). No dia a dia o Papa exerce seu ensinamento por discursos, cartas, homilias, audiências. De uma maneira mais solene, porém, nas encíclicas ou exortações apostólicas. Bem no estilo moderno de comunicação o Papa Francisco tem continuamente lançado mensagens objetivas, práticas, orientando sabiamente a conduta dos cristãos. Como sucessor de São Pedro ele merece da parte dos fiéis todo amor, toda veneração, todo respeito e total obediência. É o Vigário de Cristo nesta terra. Ao primeiro Papa Jesus entregou as chaves do reino dos céus e somente a Pedro ele disse: “Tudo que ligares na terra será ligado no céu e o que desligares na terra estará desligado no céu” (Mt 16,10). Pedro e seus sucessores têm uma posição de autoridade única na Igreja. No novo Testamento São Pedro é mencionado mais de cem vezes, sendo que o Apóstolo São João, o segundo mais mencionado, é citado somente 29 vezes. Isto é um fato importante que demonstra a superioridade petrina. Isto comprova que a Bíblia singularizou em inúmeras passagens o Apostolo Pedro que ocupava um lugar à parte entre os demais Apóstolos. Após sua ressurreição, clara prova de sua divindade, Jesus conferiu a Pedro o primado (Jo 21, 15-18). Cobrou dele um tríplice ato de amor e depois lhe deu esta ordem: “Apascenta os meus cordeiros, apascenta as minhas ovelhas”. Com estas palavras Cristo lhe entregava a universalidade de seu rebanho sem nenhuma exceção.

São Pedro e seus sucessores foram constituídos chefes supremo da Igreja a qual deveriam governar. Adite-se que São Pedro morreu em Roma como primeiro bispo desta cidade e no curso da História outros o sucederam. Assumiram a função de São Pedro como bispo de Roma e chefe de toda a Igreja. Inúmeros os Papas canonizados e entre eles recentemente São João XXIII, São Paulo VI, São João Paulo II. O primado espiritual de todos os papas, verdadeiros chefes da Igreja, sempre foi exercido conscientemente pelo bispo de Roma e isto não se deve nem à ambição, uma vez que todos eles só intentavam servir; nem à influência de Roma; nem à subserviência dos demais bispos, pois, muitas vezes, houve quem se rebelasse, mas a autoridade do Pontífice romano acabava sempre por ser reconhecida. Única é a razão, Roma é a “Igreja mãe que tem em suas mãos o governo de todas as outras igrejas; o chefe do episcopado, donde parte a direção do governo; a cátedra principal, a cátedra única na qual, somente, todos conservam a unidade”, como muito bem se expressou o século XVIII Jacques-Bénigne Bossuet, bispo e teólogo francês. É de se notar que o historiador alemão Ludwig von Pastor, protestante desafiou a Igreja Católica a abrir seus arquivos secretos, visando desmoralizá-la O Papa Leão XIII franqueou estes arquivos e Ludwig von pastor passou anos trabalhando e produziu uma obra monumental em 40 volumes apresentando a História dos Papas desde a Renascença ate o final do século XVIII. O mais extraordinário é que ao finalizar sua obra ele se converteu ao catolicismo, convencido de que a Igreja Católica é uma obra divina. É que Jesus havia dito ao primeiro Papa: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16,16).

* Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

Eucaristia: Mistério da Fé¹

Pe. Lauro Sérgio Versiani Barbosa²

 

Há cerca de 20 séculos nós somos a Comunidade da Ceia do Senhor! Há quase dois mil anos a Igreja se reúne em torno da mesa do altar para rezar, refletir e viver o sentido das palavras do Senhor: “Isto é o meu corpo…isto é o meu sangue…” (Mt 26,26-28; Mc 14,22-25; Lc 22,19-20; 1 Cor 11, 23-25; Jo 6,51-58). A Igreja vive da Eucaristia, Ecclesia de Eucharistia, nos recordava o Papa João Paulo II na sua Carta Encíclica por ocasião da Quinta-Feira Santa de 2003. Trata-se do “próprio núcleo do mistério da Igreja” (EE 1). A Igreja celebra a Eucaristia, mas a Eucaristia faz a Igreja. Estamos diante do centro espiritual das comunidades, do centro da Igreja universal e, porque não dizê-lo, diante do centro de toda a humanidade e da história! Trata-se do Deus-Conosco, o Emanuel. É a realização por excelência da palavra do Senhor ao final do Evangelho de Mateus: “E eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos!” (Mt 28,20).

A Eucaristia é antes de tudo mistério de fé. Devemos nos deixar guiar pelas palavras do Senhor na Última Ceia, atentos ao “que” se passa sem nos preocuparmos demasiadamente com o “como”. Devemos nos deixar maravilhar pelo gesto de amor que nos ultrapassa e nos convida ao louvor, à adoração, à comunhão, ao compromisso de vida, à santidade!

As palavras de Jesus na Última Ceia inserem-se na tradição do estar à mesa com os seus cultivada pelo Mestre e dentro da tradição maior de Israel. Para o oriental a refeição comum é de grande importância: é sinal de paz, confiança, fraternidade, perdão. No Antigo Testamento lemos que o rei de Judá, Joaquim, vivendo no exílio, foi recebido à mesa pelo rei da Babilônia como sinal de graça, reconciliação e amizade: 2 Rs 25,27-29; Jr 52,31-33. Em Israel se rezava antes e depois da refeição. Com a oração, a comunhão de mesa se tornava como que “um espaço sagrado”, com a participação real dos comensais na bênção pronunciada, integrando a todos numa comunhão de vida.

No Novo Testamento lemos nos evangelhos que Jesus freqüentemente estava à mesa com os pecadores e publicanos, sendo motivo de escândalo para muitos. Com tal atitude Jesus proclamava o início do tempo da salvação, fazendo um apelo à conversão e à acolhida do Reino de Deus. Suas atitudes significavam perdão e salvação, mostrando a vontade de Deus de acolher os pecadores em seu Reino: Mc 2,16-17; Lc 5,27-32; Lc 7,36-50; Lc 15,1-32; Lc 19,1-10. Ora, nós sabemos que Jesus é o Messias (Mc 8,27-29; Mt 16,13-20; Lc 9,18-21), logo a refeição com ele tem um significado único: trata-se de prefiguração e antecipação da refeição escatológica, do banquete messiânico, tempo de redenção e perdão, tempo de reconciliação e paz. A última ceia está inserida nesta série de refeições de Jesus, mas se distingue de todas elas. Agora se trata do pleno cumprimento e atualização do tempo da salvação, antes apenas vislumbrado, e de forma inaudita e insuspeitada, que a Igreja confessa com assombro reverente em sua liturgia: Mysterium Fidei!

Desde os seus primórdios a Igreja se reúne diariamente para a refeição em comum, conforme lemos nos Atos dos Apóstolos (At 2,46; At 6,1), continuando o que Jesus inaugurou com o seu gesto e as suas palavras: “Fazei isto em memória de mim” (Lc 22,19; 1 Cor 11,25). Assim, a Igreja é a comunidade messiânica que celebra a memória do Senhor, proclamando a obra da salvação e suplicando ao Senhor que a leve a bom termo: “Anunciamos, Senhor, a vossa morte e proclamamos a vossa ressurreição. Vinde, Senhor Jesus!” (Missal Romano).

As palavras pronunciadas por Jesus na Última Ceia foram recolhidas em cinco diferentes textos do Novo Testamento: 1 Cor 11,23-25; Mc 14,22-24; Mt 26,26-28; Lc 22,19-20; Jo 6,51. Paulo nos oferece o mais antigo texto escrito (por volta do ano 54): registra o que recebeu como tradição que remonta ao Senhor. Na antiga fórmula pré-paulina utilizada, as palavras da ceia aparecem como continuação da oração que se recitava antes e depois da refeição. O texto de Paulo nos remete à comunidade de Antioquia dos anos 40.

O texto de Marcos, embora seja o segundo texto escrito mais antigo, provavelmente datado do começo dos anos 70, possui semitismos que remetem a uma tradição ainda mais antiga que a de Paulo, reportando-nos aos anos 30. A sua narrativa é parte da história da Paixão do Senhor e fala do “sangue da Aliança” derramado “em favor de muitos” (Mc 22,24). O texto de Mateus possui semelhanças e diferenças em relação ao de Marcos. A passagem da Última Ceia em Mateus tem o aspecto de fórmula litúrgica, ganhando autonomia em relação à narrativa da Paixão do Senhor. Mateus fala do “sangue da Aliança”, “derramado por muitos” e acrescenta “para a remissão dos pecados” (Mt 26,28). Ambos, Mateus e Marcos, foram influenciados pela liturgia de Jerusalém.

Lucas apresenta proximidade em relação ao texto de Paulo, embora tenha as suas características próprias. As semelhanças entre Lucas e Paulo são devidas à redação mais helenizada da fórmula da Ceia utilizada pela liturgia de Antioquia, que influenciou os dois. Porém também Lucas nos remete a um estágio da tradição anterior ao texto de Paulo. Enquanto Paulo utiliza o título cristológico solene “O Senhor Jesus”, Lucas tem um estilo narrativo próprio que principia com o “e”, além de omitir o verbo “é” quando trata do cálice, o que revela o costume semítico. Tanto Lucas como Paulo se referem ao corpo “que é dado por vós” (Lc 22,19; 1 Cor 11,24) e ao “cálice da Nova Aliança” (Lc 22,20; 1 Cor 11,25), sendo que Lucas fala do sangue derramado “em favor de vós” (Lc 22,20).

Com João nós estamos diante de redação mais independente das palavras da instituição da Eucaristia. O texto fundamental é Jo 6,51c: “O pão que eu darei é a minha carne para a vida do mundo”. No lugar de “isto”, João diz “o pão que eu darei”; no lugar de “por vós”, escreve “para a vida do mundo”; ao invés de “meu corpo”, encontramos “minha carne”. Santo Inácio de Antioquia e São Justino também dão testemunho dessa tradição que se espalhou pelos círculos da Síria e da Ásia Menor. Observe-se, a propósito, que o termo hebraico-aramaico “basar/bisra” podia ser traduzido tanto por “corpo” como por “carne”.

Sintetizando, podemos dizer que as pequenas diferenças nos textos bíblicos que falam da instituição da Eucaristia são um eloqüente testemunho sobre a celebração da Ceia do Senhor nas comunidades na Igreja primitiva. Há uma concordância no essencial e os textos citados apontam para fundamento seguro e inaugural da Tradição eclesial: Jesus comparou e identificou no sentido sacramental o pão ao seu corpo; Jesus comparou e identificou no sentido sacramental o vinho ao seu sangue, dizendo que se tratava de Nova Aliança; os cinco textos trazem a preposição “por” indicativa do para que é oferecido o corpo e o sangue de Jesus.

Na Ceia Pascal hebraica o pai de família costumava explicar o que se celebrava: o sentido do cordeiro pascal, do pão ázimo, das ervas amargas. Assim, Jesus, que modifica livremente a Ceia hebraica, acrescentou às orações do começo e do fim da refeição as palavras explicativas de seus gestos e do sentido da entrega de sua vida, o que a Igreja recolheu como seu tesouro e das quais vive. Jesus deu o sentido definitivo à páscoa judaica, antecipando na Última Ceia a sua passagem para o Pai através de sua morte e ressurreição, penhor de nossa Páscoa definitiva. Jesus se identifica com o cordeiro pascal que traz a Nova Aliança, como bem diz Paulo: “Cristo, nossa Páscoa, foi imolado” (1 Cor 5,7; ver também: Jo 1,29.36; 1 Pd 1,19; Ap 5; Ap 6; Ap 12,11; Ap 19,7.9; Ap 22,1.3). Jesus usou expressões cultuais próprias da linguagem sacrifical, conforme Êxodo 24,8 (“Então Moisés tomou do sangue, aspergiu com ele o povo, e disse: eis o sangue da Aliança”) e ainda Isaías 53, identificando-se com o Servo sofredor de Javé, que oferece a própria vida em favor de muitos. Em Isaías 53 “muitos” significa uma série interminável, totalidade. Os cinco textos citados que falam da instituição da Eucaristia no Novo Testamento concordam que Jesus entendeu a sua morte “em benefício de”. Em Marcos e Mateus nós lemos que Jesus oferece a sua vida “por muitos”; em Paulo e Lucas “por vós”; em João “para a vida do mundo”. Jesus dá aos seus discípulos a garantia de seu amor e da participação no seu destino glorioso a partir da Nova Aliança inaugurada no seu sangue.

A Eucaristia é o sacramento desta autodoação salvífica de Jesus Cristo. Trata-se do seu “dom por excelência” (EE 11). Memorial da paixão, morte e ressurreição de Jesus, que deu a vida por todos nós e inaugurou definitivamente o reinado de Deus na história, na força do Espírito para glória do Pai. A Eucaristia não só evoca o acontecimento central da nossa salvação, mas o torna presente e atuante, penhor da glória futura: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6,54).

Assim se expressa o Concílio Vaticano II a propósito do mistério da Eucaristia: “Na Última Ceia, na noite em que foi entregue, nosso Salvador instituiu o Sacrifício Eucarístico de Seu Corpo e Sangue. Por ele perpetua pelos séculos, até que volte, o Sacrifício da Cruz, confiando deste modo à Igreja, sua dileta Esposa, o memorial de sua morte e ressurreição: sacramento de piedade, sinal de unidade, vínculo de caridade, banquete pascal, em que Cristo nos é comunicado em alimento, o espírito é repleto de graça e nos é dado o penhor da futura glória” (SC 47).

O Sacramento da Eucaristia exige o máximo da reflexão teológica, que terminará por confessar devotamente e maravilhada: Mysterium Fidei; como fazemos sempre em nossas celebrações eucarísticas após a consagração do pão e do vinho. Assim afirma São João Crisóstomo: “Inclinemo-nos sempre diante de Deus sem o contradizermos, embora o que Ele diz possa parecer contrário à nossa razão e à nossa inteligência; sobre a nossa razão e a nossa inteligência, prevaleça a sua palavra. Assim nos comportemos também diante do Mistério (Eucarístico), não considerando só o que nos pode vir dos nossos sentidos, mas conservando-nos fiéis às suas palavras. Uma palavra sua não pode enganar” (In Matth. Hom. 8,4; PG 58, 473). E ainda Santo Ambrósio falando sobre a presença de Cristo nas espécies consagradas: “Persuadamo-nos que já não temos o que a natureza formou, mas o que a bênção consagrou; e que a força da bênção é maior que a força da natureza, porque a bênção até a natureza muda (…) A palavra de Cristo, que pode fazer do nada aquilo que não existia, não poderá mudar as coisas que existem naquilo que não eram? Criar coisas não é menos que mudá-las” (De myster., 9,50-52; PL 16, 422-424).

O que Jesus nos deixou com o Sacramento da Eucaristia supera tudo o que poderíamos imaginar. Temos aqui a síntese da Revelação que nos foi confiada com todo o seu amor: “…tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1); “Desejei ardentemente comer esta páscoa convosco antes de sofrer…” (Lc 22,15). É como diz Santa Teresinha de Lisieux: “Ó Jesus, deixa-me dizer, no excesso da minha gratidão, deixa-me dizer que o teu amor chega até à loucura…” ( Scritto autobiografico B n.263, em Gli scritti, Roma 1970, p.244). Trata-se do Sacramento do Amor de Deus por nós, que assumiu a forma que só o Senhor apaixonado poderia estabelecer. Jesus celebrou a Última Ceia e a instituiu como seu Testamento, compêndio de seu ser e obra salvífica, dom visível para o nosso alimento, o seu sacramento por excelência. Jesus através do seu gesto profético (ôt) da Última Ceia oferece a sua vida ao Pai pela humanidade, deixando-nos o seu Sacramento na forma de banquete sagrado. Foi o gesto simbólico mais importante realizado por Jesus, síntese de todos os outros, antecipador do futuro e realização inicial do desígnio divino reconciliador, cujo primeiro cumprimento aconteceu no mistério pascal e prefigura o cumprimento definitivo no Reino plenamente realizado. Em cada Eucaristia celebrada, a Igreja prolonga, atualizando, o gesto profético de Jesus (ôt) de autodoação, cumprindo-o na história, entre o primeiro advento do Cristo e o seu advento final.

Portanto, a Eucaristia torna sacramentalmente presente e atuante o sacrifício reconciliador de Cristo no Calvário, oferecido ao Pai por toda a humanidade. A este sacrifício se associa a Igreja que celebra a Eucaristia, oferecendo-se com e alimentando-se do Corpo de Cristo, fundamento da unidade-diversidade da própria Igreja (LG 11). No banquete eucarístico, “a eficácia salvífica do sacrifício realiza-se plenamente na comunhão, ao recebermos o corpo e sangue do Senhor” (EE 16). O Senhor nos alimenta, nos concede o seu Espírito e faz de nós um só corpo, edificando a sua Igreja (1 Cor 10,17). Esta Igreja é chamada a dar a vida pelos irmãos no seguimento de Jesus. A comunidade que participa do banquete eucarístico deve se tornar o corpo vivo do Senhor Ressuscitado. Já dizia o teólogo Joseph Ratzinger em 1963: “a meta suprema da Eucaristia não é a transformação dos dons…é a transformação dos homens viventes no corpo de Cristo”. A Eucaristia como refeição fraterna e festiva, memorial da Páscoa do Senhor, compromete a vida na solidariedade com os que sofrem: os pobres, os pecadores, os enfermos, os excluídos e marginalizados de todo o tipo. A Eucaristia é, pois, promessa de uma humanidade nova, possui um significado escatológico. Quem comunga do Corpo e Sangue do Senhor tem uma responsabilidade histórica de transformação deste mundo, até com o sacrifício da própria vida, a exemplo e fortalecido pelo sacrifício de Jesus, para que o mundo seja de Deus na fraternidade do Reino. A Eucaristia, além de mistério de fé e caridade, nos infunde esperança, aponta para o futuro e nos coloca em comunhão com a Igreja celeste, sendo como que “um pedaço do céu na terra” (EE 19).

O Magistério da Igreja tem chamado particularmente a nossa atenção nos últimos tempos para o mistério da presença real de Cristo na Eucaristia. O Papa Paulo VI na sua Encíclica Mysterium Fidei (1965) recorda que são vários os modos de presença de Cristo na sua Igreja: na oração da Igreja; quando a Igreja pratica as obras de misericórdia; na Igreja peregrina que caminha à luz da fé e movida pela caridade sob a ação do Espírito Santo; está presente quando a Igreja prega a Palavra de Deus; está presente através dos pastores que dirigem e governam o povo de Deus; e “de modo ainda mais sublime, está Cristo presente à sua Igreja enquanto esta, em seu nome, celebra o Sacrifício da Missa e administra os Sacramentos” (MF 38). E prossegue Paulo VI mais adiante, destacando a presença real de Cristo na Eucaristia: “Estas várias maneiras de presença enchem o espírito de assombro e levam-nos a contemplar o Mistério da Igreja. Outra é, contudo, e verdadeiramente sublime a presença de Cristo na sua Igreja pelo Sacramento da Eucaristia. Por causa dela, é este Sacramento, comparado com os outros, “mais suave para a devoção, mais belo para a inteligência, mais santo pelo que encerra”; contém, de fato, o próprio Cristo e é “como que a perfeição da vida espiritual e o fim de todos os Sacramentos” (Santo Tomás, Summa Theol. III,q.73,a.3c.). Esta presença chama-se “real”, não por exclusão como se as outras não fossem “reais”, mas por excelência porque “substancial”, quer dizer, por ela está presente, de fato, Cristo completo, Deus e homem” (MF 40-41). Já o Vaticano II dissera, falando sobre a presença de Cristo na liturgia, que Cristo está presente “sobretudo sob as espécies eucarísticas” (SC 7). E o Papa João Paulo II afirma na Encíclica Ecclesia de Eucharistia: “Contemplar Cristo implica saber reconhecê-Lo onde quer que Ele Se manifeste, com as suas diversas presenças mas sobretudo no sacramento vivo de seu corpo e de seu sangue. A Igreja vive de Jesus eucarístico, por Ele é nutrida, por Ele é iluminada” (EE 6).

A doutrina católica ensina que Jesus está presente na Eucaristia “verdadeiramente, realmente e substancialmente” (DH 1651). A presença real de Cristo na Eucaristia é matéria de fé para a Igreja, pois deriva da Palavra de Deus atestada nas Sagradas Escrituras e na Tradição. Jesus disse “Isto é o meu corpo…isto é o meu sangue” e em João: “Minha carne é verdadeira comida, e meu sangue é verdadeira bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim, e eu nele” (Jo 6,55-56). Já em João vemos que Jesus não recuou diante da dificuldade de aceitação que as suas duras palavras provocaram. O discípulo de Jesus deve não só estar diante dele, mas permanecer nele, sobretudo através de sua presença na Eucaristia. A Tradição da Igreja testemunhou esta presença ao longo dos séculos. O Concílio de Trento expôs de forma ampla a doutrina católica sobre a Eucaristia, que é retomada pelo Catecismo da Igreja Católica. Dizer que Cristo está verdadeiramente contido nas espécies eucarísticas significa afastar a idéia de que o Sacramento seja apenas um símbolo, no sentido de mero sinal. A presença de Cristo é real, isto é, ontológica (no nível do ser) e objetiva (não depende da subjetividade das pessoas: pensamentos, sentimentos ou mesmo fé, embora esta última seja importante para a participação frutuosa no Sacramento, a sua ausência não torna irreal a presença de Cristo no Sacramento). Por fim, a presença de Cristo na Eucaristia é substancial. O termo não é usado no sentido da filosofia de Aristóteles, mas no sentido comum, derivado da raiz latina sub-stare, significando “o que está sob as aparências” que podem mudar, ou seja, a realidade fundamental, a coisa em si. Assim fica claro que a presença de Cristo na Eucaristia não é apenas por sua ação, como nos outros sacramentos, mas é substancial e, por isto, a Eucaristia pode ser adorada. Com a consagração, a inteira substância do pão e do vinho se transforma na substância do corpo e do sangue de Cristo, embora as aparências de pão e vinho permaneçam. O Cristo inteiro está presente em cada uma das espécies eucarísticas, seja sob a aparência do pão, seja sob a aparência do vinho. Para expressar esta conversão da inteira substância das espécies eucarísticas do pão e do vinho na inteira substância do corpo e sangue do Senhor, mantendo as mesmas aparências, a Igreja criou o termo técnico “transubstanciação”. Assim, a Igreja ensina que a presença de Cristo é sacramental, não física no sentido mensurável, pois as propriedades físicas e químicas continuam a ser as do pão e do vinho.

A presença de Cristo na Eucaristia só pode ser acolhida na fé de quem aceita a Palavra de Deus. No Sacramento da Eucaristia, como diz o Concílio Vaticano II citando Santo Tomás de Aquino, “está contido todo o bem espiritual da Igreja, isto é, o próprio Cristo, a nossa Páscoa e o pão vivo que dá aos homens a vida mediante a sua carne vivificada e vivificadora pelo Espírito Santo” (PO 5). É desta presença que a Igreja vive: “a Eucaristia aparece como fonte e coroa de toda a evangelização” (PO 5). É esta presença real e pessoal de Cristo no Sacramento da Eucaristia que o Magistério da Igreja quer realçar e reavivar hoje entre os seus filhos, fomentando a celebração digna e frutuosa da Eucaristia e o culto eucarístico mesmo fora da missa (MF 66-68; EE 10; 25; MND 17-18). Celebração eucarística e adoração ao Santíssimo Sacramento não se opõem, mas se complementam e impulsionam a verdadeira vida cristã para a santidade a partir da experiência de oração e comunhão com o Senhor da história presente no adorável Sacramento, fonte de caridade que renova o mundo.

¹ Conferência de abertura do 1º Congresso Eucarístico da Arquidiocese de Mariana proferida no dia 26 de abril de 2006 na Basílica do Sagrado Coração de Jesus em Conselheiro Lafaiete, por ocasião da celebração dos 100 anos da Igreja de Mariana como Arquidiocese.

²  Professor do Instituto de Teologia do Seminário São José da Arquidiocese de Mariana.

 

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