Conego Vidigal

As oito bem-aventuranças

As Bem-aventuranças são o retrato falado daqueles que já gozam da visão beatífica (Mt 5,1-12). Proclamadas por Cristo, trazem à tona o que se acha os salmos. São passagens do Antigo Testamento que também mostram quem são os santos. O primeiro salmo apregoa: “Bem-aventurado o homem que se compraz na lei do Senhor” (Sl 1,1). O salmo 111 nos diz: “Bem-aventurado aquele que teme o Senhor e ama inteiramente sua vontade” (Sl 111,l). No salmo 36 está escrito: “Os mansos possuirão a terra e gozarão de uma abundante paz” (Sl 36,11). O salmo 106 afirma que Deus cumula de bens os que têm fome (Sl 106,9). Assim começa o salmo 118: Bem-aventurados os homens íntegros em seus caminhos, os que marcham seguindo a lei do Senhor. Felizes os que guardam suas exigências, eles O procuram de todo coração” (Sl 118, 1-2). Jesus convida então a todos a receber estas mensagens do Salmista, especificando, porém, para seus seguidores quem são aqueles que, de fato são bem-aventurados, pois nunca se separam do amor de Deus e do próximo. O seguidor de Cristo deve possuir pobreza de coração, ou seja, o desapego das coisas materiais e ter muita mansidão dentro de si. É preciso que chore pelos pecados cometidos e lamente as misérias morais que campeiam mundo afora. Cumpre ainda, seja misericordioso e tenha fome e sede de justiça para viver integralmente a pureza de mente e de corpo. É necessário que passe pela perseguição por causa de Cristo, jamais cedendo ao erro, seja ele qual for. Além disto, quem é destinado ao céu deve construir nesta terra a paz para si, para os outros, afim de que tenha paz com Deus. É deste modo que os cristãos podem se tornar santos, isto é, não pessoas perfeitas, porque somente Deus é perfeito, mas são fiéis que se esforçam por seguir o roteiro da felicidade que Jesus traçou nas oito Bem-aventuranças. Trata-se de procurar sempre se ajustar à vontade de Deus, vivendo em tudo as promessas batismais, renunciando sempre a satanás e a qualquer pecado. Como explica o Catecismo da Igreja Católica, as Bem-aventuranças traçam a imagem de Cristo, exprimindo a vocação do cristão ligado à glória da Paixão e Ressurreição do Redentor. Aqueles que já se acham lá no céu iluminaram nesta terra suas ações e atitudes, deixando exemplos magníficos. Nas sendas das Bem-aventuranças se viram sustentados nas tribulações, vivificados pela esperança da recompensa eterna. Quem os imita neste mundo já alcançam nesta vida a felicidade que Deus colocou no coração do ser humano. Isto porque a santidade deve ser a característica do cristão, dado que este precisa acolher a Cristo, deixando-o sempre. agir nele. É certo que na Casa do Pai há muitos que foram até grandes pecadores como São Dimas, Santo Agostinho, Santa Margarida de Cortona, mas eles se arrependeram sinceramente de suas faltas, de seus desvios, se converteram e receberam o perdão de Deus. Procuraram reparar os erros cometidos, sendo depois leais perante o Senhor Onipotente. Acreditaram no poder purificador do sangue de Jesus e foram por ele lavados. Imenso cortejo de todos que, embora tenham trilhado caminhos tortuosos, reconheceram seus erros e mudaram de vida.  Glorificamos também na solenidade de hoje tantos parentes e amigos que já se acham junto de Deus e são agora nossos intercessores e nos aguardam para uma ventura sem fim. Eles souberam degustar já na terra o gozo do céu, correspondendo às graças que Deus nunca nega a quem O teme e ama. Estão eles a nos recordar a necessidade de que Jesus seja, realmente, a verdade da vida de cada um. Assim esta festa que estamos celebrando é um convite a mais para a renúncia a si mesmo, às falsas seguranças que o mundo oferece, ao rompimento com todas as falsas doutrinas veiculadas pelos meios de comunicação social, as quais entravam as exigências do Evangelho. Coragem para romper a rede do egoísmo e do individualismo que limitam a participação ativa no crescimento da comunidade na qual se vive. Abandono de tudo que anula o espírito das Bem-aventuranças, pois na outra margem da vida Jesus está à espera de todos que andaram no caminho da santidade.

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho
Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

Conego Lauro

Conferência de Medellín: 50 anos

Celebramos os cinquenta anos da Segunda Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, realizada na cidade de Medellín na Colômbia, de 24 de agosto a 06 de setembro de 1968. Foi a recepção criativa do Concílio Vaticano II na América Latina. Pode-se apontar como seu fruto o “espírito” de uma Igreja Latino-Americana que deixa de ser simplesmente reflexo do pensamento teológico da Europa, para se tornar também uma Igreja fonte, que reflete a partir de seu contexto, oferecendo contribuição própria para a Igreja em todo o mundo. Este espírito é fruto duradouro mais do que o próprio Documento de Medellín, constituído por 16 textos temáticos, abarcando amplo arco de dimensões da vida da Igreja e de sua relação com a realidade social da América Latina.

O Documento de Medellín tratou do desenvolvimento e da libertação dos povos a partir da situação dos pobres da América Latina e não da ótica do primeiro mundo, rico e desenvolvido. Denunciou “as estruturas de pecado”, causadoras das injustiças sociais. Apontou para a existência da miséria no continente como fato coletivo e que clama aos céus, constituindo-se, portanto, também como questão teológica, pecado social a exigir conversão pessoal e social. Trata-se de continente majoritariamente cristão católico em que cristãos oprimem e exploram cristãos, e ainda dependente, submetido e explorado pelos grandes centros de poder econômico e político, em relações internacionais assimétricas e injustas. Em questão estão a justiça e a paz. Recusa-se, como superação dessa situação, tanto o sistema liberal capitalista como o sistema marxista. Propõe a conversão de todos ao Reino de justiça, amor e paz inaugurado por Jesus Cristo.

Medellín incentivou as Comunidades Eclesiais de Base e os pequenos grupos de reflexão que tratam da realidade iluminada pela Palavra de Deus expressa nas Sagradas Escrituras, cultivando o ideal cristão de uma libertação integral. Apostou nas estruturas intermediárias entre a pessoa e o Estado, com pistas concretas de ação pastoral. Inspirou-se especialmente na Constituição Pastoral Gaudium et Spes do Concílio Vaticano II e na Encíclica Populorum Progressio do Beato Papa Paulo VI. Desencadeou processo que se tornou irreversível e teve continuidade nas Conferências seguintes de Puebla (1979), Santo Domingo (1992) e Aparecida (2007), com as suas devidas peculiaridades e ênfases. Trata-se de marco fundamental na caminhada da Igreja na América Latina e no Caribe.

Na introdução ao Documento os bispos latino-americanos falam com coragem profética de uma ação pastoral transformadora: “A hora atual não deixou de ser a hora da “palavra”, mas já se tornou, com dramática urgência, a hora da ação. Chegou o momento de inventar com imaginação criadora a ação que cabe realizar e que, principalmente, terá que ser levada a cabo com a audácia do Espírito e o equilíbrio de Deus. Esta Assembleia foi convidada “a tomar decisões e a estabelecer projetos, somente com a condição de que estivéssemos dispostos a executá-los como compromisso pessoal nosso, mesmo à custa de sacrifícios”.

A reflexão de Medellín visa a presença mais intensa e renovada da Igreja na transformação vivida pela América Latina e se dirige a três grandes setores:

1 – Setor da promoção do ser humano e dos povos do continente para os valores da justiça, da paz, da educação e do amor conjugal;

2 – Setor da evangelização: visa os povos deste continente e suas elites em profunda mutação de suas condições de vida e de seus valores, exigindo adequada evangelização e educação na fé, através da catequese e da liturgia;

3 – Setor relativo aos membros da Igreja: comunhão na ação pastoral através de estruturas visíveis e adaptadas às novas condições do continente.

Depois da Introdução, seguem-se os seguintes 16 temas e textos: 1 – Justiça; 2 – A Paz; 3 – Família e Demografia; 4 – Educação; 5 – Juventude; 6 – Pastoral das Massas; 7 – Pastoral das Elites; 8 – Catequese; 9 – Liturgia; 10 – Movimentos Leigos; 11 – Sacerdotes; 12 – Religiosos; 13 – Formação do Clero; 14 – Pobreza da Igreja; 15 – Colegialidade; 16 – Meios de Comunicação Social.

A missão pastoral no texto sobre a justiça é compreendida como serviço de inspiração e de educação das consciências dos fiéis, para ajudar-lhes a perceber as exigências e responsabilidades de sua fé, em sua vida pessoal e social. As exigências mais importantes apontadas são: mudanças sociais, reforma política, informação e conscientização.

A concepção cristã da paz é explicitada no texto sobre a paz em três pontos principais. A paz é, antes de mais nada, obra da justiça (Gaudium et Spes 73); supõe e exige a instauração de uma ordem justa (PT 167; PP 76). Não é a simples ausência de violências e derramamento de sangue. A paz é, em segundo lugar, uma tarefa permanente (GS 78). A paz não se acha, há que construí-la. O cristão é um artesão da paz (Mt 5,9). A paz é, finalmente, fruto do amor (GS 78). O amor é a alma da justiça. A solidariedade humana não pode ser realizada senão em Cristo (Jo 14,27). A paz com Deus é o fundamento último da paz interior e da paz social… onde a paz social não existe e há injustiças, rejeita-se o dom da paz do Senhor, rejeita-se o próprio Senhor (Mt 25, 31-46).

O Problema da violência na América Latina é claramente abordado. “A violência não é cristã, nem evangélica” (Papa Paulo VI). O cristão é pacífico e não se envergonha disso. Não é simplesmente pacifista, porque é capaz de lutar. A situação da América Latina é de violência institucionalizada e existe a “tentação da violência” (Populorum Progressio 30) diante das injustiças. Não se deve abusar da paciência de um povo. Lembra-se o perigo das revoluções nascidas do desespero. Considera-se que insurreição revolucionária pode ser legítima no caso de “tirania evidente e prolongada que ofendesse gravemente os direitos fundamentais da pessoa e danificasse perigosamente o bem do país” (PP 31). Também é certo que a violência ou “revolução armada” geralmente “acarreta novas injustiças, introduz novos desequilíbrios e provoca novas ruínas: não se pode combater um mal real ao preço de um mal maior” (PP 31). Opta-se pela ação pacífica: “Seremos capazes de compreender suas angústias e transformá-las não em ódio e violência, mas em energia forte e pacífica para obras construtivas” (Discurso de Paulo VI em Bogotá).

O Servo de Deus Dom Luciano Mendes de Almeida em balanço sobre o pensamento episcopal latino-americano nas conferências gerais do episcopado do continente, do Rio de Janeiro a Santo Domingo, assim se expressou de forma lapidar sobre o legado da Conferência de Medellín:

“O efeito do Concílio Vaticano II na América Latina, além de doutrinal, teve grande força de animação e de ardor na vida pessoal e das comunidades. De fato, a realização da Segunda Conferência em Medellín, assinalou o início de um crescente entusiasmo eclesial. O texto do documento não foi divulgado com muita rapidez, e também se pode dizer que não foi lido pela maior parte dos católicos, mas o Concílio Vaticano II, graças ao encontro episcopal de Medellín, penetrou de modo muito vivo nas nações da América Latina. Deve-se reconhecer que aquela assembleia fez com que a América Latina, mais ainda que outros lugares, se identificasse com as orientações do Concílio, buscando modos concretos de implementar os documentos. Como exemplo poderíamos recordar a necessidade de unir fé e vida em meio aos acontecimentos da década de 60; a compreensão da natureza da Igreja e de sua missão; a formação de comunidades para compartilhar e viver a Palavra de Deus; a relação entre a celebração da liturgia e os compromissos da vida cristã; o empenho de transformação de uma sociedade injusta à luz dos valores do Evangelho, entre outros.

A nota característica foi, sem dúvida alguma, a vitalidade que brotou, pouco a pouco, em todas as Igrejas da América Latina. Se o Concílio foi a semente, Medellín foi a chuva para fazê-la florescer em nossas terras”. (Dom Luciano Pedro Mendes de Almeida, in O Futuro da Reflexão Teológica na América Latina, CELAM, Bogotá, 1996).

Medellín faz a opção pelos pobres. O tema da pobreza da Igreja é importante. Devemos fazer uma distinção quando falamos de pobreza na Igreja, como já fez o Documento de Medellín. Há a pobreza carência que ofende a dignidade do ser humano, chegando até a níveis extremos de miséria. Deve ser combatida e superada. Há a pobreza espiritual que é um valor fundamental para todos cristãos e que deve ser buscada e cultivada. Devemos colocar toda a nossa confiança em Deus, buscando em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça e sermos desapegados, ordenando a vida e os bens de acordo com a vontade de Deus. Há a pobreza compromisso, pobreza assumida em solidariedade com os necessitados e como testemunho profético de seguimento de Jesus Cristo, pobreza material. Todos os cristãos devem buscar uma vida simples, austera, livre do consumismo e solidária com os pobres, capaz de partilha de bens.

Atualmente o Papa Francisco tem dito por diversas vezes que gostaria de uma “Igreja pobre para os pobres” (cf. Evangelii Gaudium 198). O desejo do Papa Francisco era bandeira já levantada pela Conferência de Medellín em 1968.

Cônego Lauro Sérgio Versiani Barbosa
Vigário Episcopal na Região Pastoral Mariana Leste

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Mensagem de Dom Airton sobre as Eleições 2018

O arcebispo de Mariana, Dom Airton José dos Santos, divulga orientações quanto a participação das Paróquias, Comunidades, Pastorais, Movimentos, Associações, organismos e de todos os fiéis cristãos, no pleito eleitoral de 2018. Leia a mensagem na íntegra:

Por mercê de Deus e da Santa Sé Apostólica
Arcebispo Metropolitano de Mariana

Aos Srs. Párocos e Administradores Paroquiais, em suas Paróquias e, a todos os Presbíteros;
Aos Diáconos, Religiosos e Religiosas e todo o povo de Deus

ORIENTAÇÃO QUANTO A PARTICIPAÇÃO DE NOSSAS PARÓQUIAS, COMUNIDADES, PASTORAIS, MOVIMENTOS, ASSOCIAÇÕES, ORGANISMOS E DE TODOS OS FIÉIS CRISTÃOS, NO PLEITO ELEITORAL DE 2018.

Caríssimos Irmãos e irmãs!

  1. Estamos nos aproximando do pleito eleitoral deste ano de 2018. Nele, vamos eleger o Presidente da República; os Governadores dos Estados; os Deputados Estaduais e Federais e os Senadores da República. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB, em nota sobre as eleições deste ano, publicada em sua 56ª. Assembleia Geral, realizada em Aparecida, SP, no último mês de abril, lembrou a responsabilidade dos cidadãos e das comunidades eclesiais no pleito que ora se aproxima.

  2. A Igreja, como lemos na nota, “não pode nem deve ficar à margem na luta pela justiça” (Papa Bento XVI – Deus caritas est, 28). Por isso, ressalta que, “neste ano eleitoral, o Brasil vive um momento complexo, alimentado por uma aguda crise que abala fortemente suas estruturas democráticas e compromete a construção do bem comum, razão da verdadeira política. A atual situação do País exige discernimento e compromisso de todos os cidadãos e das instituições e organizações responsáveis pela justiça e pela construção do bem comum”. Por isso, não podemos deixar de lado a tradição da Doutrina Social da Igreja que considera a participação na política uma forma elevada do exercício da caridade – uma maneira exigente de viver o compromisso cristão a serviço do próximo. (Papa Paulo VI, Octogesima adveniens, 46).

  3. Contudo, diante de tanto descredito com relação a política, adverte-nos o Papa Francisco: “muitas vezes, a própria política é responsável pelo seu descrédito, devido à corrupção e à falta de boas políticas públicas” (Laudato Sì, 197). De fato, a carência de políticas públicas consistentes, no país, está na raiz de graves questões sociais, como o aumento do desemprego e da violência que, no campo e na cidade, vitima milhares de pessoas, sobretudo, mulheres, pobres, jovens, negros e indígenas.

  4. Mas não nos deixemos vencer pelo desânimo e pelo negativismo. Assim nos animam, as palavras contidas na nota de nossa Conferência Episcopal: “as eleições de 2018 têm sentido particularmente importante e promissor. Elas devem garantir o fortalecimento da democracia e o exercício da cidadania da população brasileira. Constituem-se, na atual conjuntura, num passo importante para que o Brasil reafirme a normalidade democrática, supere a crise institucional vigente, garanta a independência e a autonomia dos três poderes constituídos – Executivo, Legislativo e Judiciário – e evite o risco de judicialização da política e de politização da Justiça.

  5. Como cidadãos, conscientes de nossa responsabilidade pela construção do futuro de nosso Brasil, procurando superar as ideologias e interesses particulares, façamos deste rico momento de participação, uma jornada, na qual, candidatos e eleitores, busquemos o bem maior do País, comprometendo-nos a não abrir mão dos princípios éticos e dos dispositivos legais; do compromisso de acompanhar os que forem eleitos e participar efetivamente da construção de um país justo; de promover a lisura do processo eleitoral, fazendo valer as leis que o regem, particularmente, a Lei 9840/1999 de combate à corrupção eleitoral mediante a compra de votos e o uso da máquina administrativa, e a Lei 135/2010, conhecida como “Lei da Ficha Limpa”, que torna inelegível quem tenha sido condenado em decisão proferida por órgão judicial colegiado.

  6. Neste Ano Nacional do Laicato, queremos lembrar o que disse o Santo Padre, o Papa Francisco, em sua Mensagem aos participantes do encontro de políticos católicos em Bogotá, ocorrido em dezembro de 2017: “há necessidade de dirigentes políticos que vivam com paixão o seu serviço aos povos, (…) solidários com os seus sofrimentos e esperanças; políticos que anteponham o bem comum aos seus interesses privados; que não se deixem intimidar pelos grandes poderes financeiros e midiáticos; que sejam competentes e pacientes face a problemas complexos; que sejam abertos a ouvir e a aprender no diálogo democrático; que conjuguem a busca da justiça com a misericórdia e a reconciliação”.

  7. Por isso, é fundamental, conhecer e avaliar as propostas e a vida dos candidatos. Não merecem ser eleitos ou reeleitos candidatos que se rendem a uma economia que coloca o lucro acima de tudo e não assumem o bem comum como sua meta, nem os que propõem e defendem reformas que atentam contra a vida dos pobres e sua dignidade. São igualmente reprováveis candidaturas motivadas pela busca do foro privilegiado e outras vantagens.

  8. Assim, estimados irmãos e irmãs, repetimos e reafirmamos o que está na exortação dos Bispos do Brasil em sua nota: façamos “desse momento difícil uma oportunidade de crescimento, abandonando os caminhos da intolerância, do desânimo e do desencanto”.

  9. A Igreja, em sua missão de evangelizar, tem a responsabilidade de iluminar as consciências dos cidadãos, despertando as forças espirituais e promovendo os valores sociais, através da pregação e do testemunho. Uma manifestação inequívoca desse empenho, encontramos na Encíclica do Papa Bento XVI, Deus caritas est, que exorta os cristãos leigos a assumirem compromissos na política, também partidária (n.29). Esta tarefa é de competência exclusiva dos fiéis leigos e leigas. “Os Clérigos são proibidos de assumir cargos públicos que implicam participação no exercício do poder civil (Cân. 285, §3).

  10. Como discípulos missionários de Cristo, encontramos reforço no Documento de Aparecida que inspira a ação da Igreja na formação das consciências (n.406). Por isso, como temos a responsabilidade de iluminar as consciências a respeito das próximas eleições, entramos no campo dos critérios de discernimento, dentre os quais, apresentamos alguns:

     Respeito ao pluralismo cultural e religioso;
    • Compromisso ético dos candidatos;
    • Compromisso decisivo na defesa da vida e da família;
    • Compromisso com a liberdade de iniciativa no campo da educação, da saúde e da ação social, em parceria com as organizações comunitárias;
    • Qualidades imprescindíveis: honestidade, competência, transparência, vontade de servir ao bem comum, comprovada por seu histórico de vida.

  11. Quanto aos fiéis leigos que se candidatam a cargos públicos, o Pároco ou Administrador Paroquial e a própria comunidade de fé, deverão acompanhá-los de perto. Este acompanhamento deverá ser continuado se a pessoa for eleita. Contudo, se a pessoa que se torna candidata exerce alguma função de destaque na Paróquia ou comunidade, o Pároco ou Administrador Paroquial deverá orientar para que, no período da campanha eleitoral, ela se afaste da função que exerce para não criar divisão na comunidade de fé e entre os batizados.

  12. Os Párocos e Administradores Paroquiais cuidem para que os espaços da Paróquia ou comunidade não sejam utilizados por atividades que possam denotar privilégio ou proteção a alguma sigla partidária. Nas Missas, celebrações, reuniões ou algum outro evento, não se dê a palavra a candidatos e nem se permita que circulem panfletos ou qualquer tipo de propaganda eleitoral. Também não se forneçam listas de endereços ou de contatos dos membros dos vários conselhos e coordenações da Paróquia.

  13. Como Arcebispo dessa porção do Povo de Deus, incentivo nossas Paróquias com suas Comunidades, Pastorais, Movimentos, Associações e Organismos eclesiais, a assumirem, à luz do Evangelho, a dimensão política da fé, a serviço do Reino de Deus. E que o Senhor “nos conceda mais políticos, que tenham verdadeiramente a peito a sociedade, o povo, a vida dos pobres” (Papa Francisco – Evangelii gaudium, 205).

  14. Que o Espírito Santo nos inspire tudo o que for bom e justo para a glória de Deus Pai, e que o Evangelho de Cristo seja luz para os nossos passos. Vamos nos empenhar na tarefa de ajudar a construir a sociedade justa, fraterna e solidária, confiantes na intercessão de Nossa Senhora da Assunção, nossa Padroeira.

    Com sentimentos de Pastor, asseguro, a todos, minha proximidade espiritual e concedo-lhes uma especial bênção!

Mariana, 07 de setembro de 2018

Dom Airton José dos Santos
Arcebispo Metropolitano

 

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Mensagem contra a legalização do aborto

De tempos em tempos, vivemos situações difíceis, em relação à valorização, proteção e promoção da vida em nosso País. Neste momento sofremos novamente, tentativas de aprovação do aborto e nos perguntamos, vendo o que acontece mundo afora: será agora, que irão adaptar a legislação para fazer passar a ideia de que o aborto e um bem para o conjunto da sociedade?

A Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental 442/2017 (ADPF 442), proposta pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), com a realização da audiência pública para abordar a descriminalização do aborto, em nosso país, revela a insegurança jurídica e governamental, à qual a população está submetida. A ADPF 442/2017, coloca em questão os artigos 124 e 126 do Código Penal, que tipificam o crime de aborto, alegando a sua inconstitucionalidade. Assim, propõe a descriminalização do aborto até a 12ª semana de gestação. Neste período, com três meses, o feto já possui tudo o que constitui o ser humano. A partir daí vem o crescimento da criança.

O Papa Francisco tem se posicionado abertamente contra o aborto. No Brasil, A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e toda a Igreja tem se posicionado abertamente contra o aborto que é a antecipação da pena de morte, com um agravante, a criança que está para nascer é condenada à morte somente pelo fato de estar para nascer. Esta postura, diante da possibilidade da vida humana existir, nos entristece e no dizer do Papa Francisco, é “homicídio das crianças. Para deixar a vida tranquila, mata-se um inocente”.

O Papa Francisco, em um de seus discursos a uma Associação de famílias, afirmou que “o nascimento de filhos constitui o maior investimento para um país e é a primeira condição de sua prosperidade futura”. Assim, nos perguntamos: Porque alguns não querem e não trabalham pela prosperidade de nosso país?

Rezemos, continuamente, para que exista, nos três poderes constituídos de nossa Nação, a consciência do respeito pelo direito natural que sustenta o valor absoluto da vida e fundamenta a necessidade legal de proteção deste valor absoluto.

Dom Airton José dos Santos

Arcebispo Metropolitano de Mariana

Pe. Geraldo Barbosa

Dom Luciano: 12 anos na memória do povo

Faz 12 anos do falecimento de Dom Luciano e, mais uma vez, nós nos voltamos ao memorial e legado que Dom Luciano deixou na arquidiocese de Mariana, nos padres, nos leigos e sobretudo no povo de Deus.

“Dom Luciano vive na luta do povo” foi o que gritou a multidão na Praça da Sé naquele dia de seu passamento deste mundo para a eternidade. Todos se identificavam com Dom Luciano, porque viam nele a expressão do amor à vida, aos pobres, aos jovens, às comunidades carentes, às causas políticas, sociais, econômicas e a tudo aquilo que é sinal de vida.

Os doze lembram a totalidade do povo de Deus, que caminha, que anseia por um país melhor, por um mundo mais equilibrado na justiça, na paz e na caridade. Relembrar Dom Luciano é sempre um eco de valorização da vida e daquilo que é força na caminhada do Reino de Deus.

Um homem que marcou o seu tempo na CNBB, no CELAM, no cenário eclesial e especialmente no coração de quem ele amava. Ele sabia o nome de todos, conhecia os problemas e as múltiplas situações por que passavam os excluídos, marginalizados e necessitados. O coração de Dom Luciano era grande. Ele não olhava para si e sim para os outros, não tinha tempo para si. Seu tempo era uma oferenda e uma força que exalavam a vontade de servir. Suas palavras vão continuar sempre presentes: “em que eu posso ajudar?”

Passamos por um momento crítico em nosso país e no mundo. Ausência de lideranças democráticas, risco de autoritarismo e de ditaduras, busca de privilégios e vantagens. Justiça manipulada e conchavos cada vez mais articulados contra o povo.

Dom Luciano, igual a João Batista, lidava contra os Herodes, os grandes e, ao mesmo tempo, sabia ser simples com os pequenos e com os mais necessitados.

Ao relembrar a história e a vida de Dom Luciano nossa Igreja, nossas comunidades, crianças, jovens e os pobres fazemos a caminhada do tempo presente lutando por um país melhor, por uma vida convergente na busca de direitos e exercício de deveres.

Dom Luciano continua vivo e nos unimos para evocar o seu nome na defesa da vida e dos que mais precisam, desde os nascituros até às camadas periféricas e às causas que fazem parte da vida de todos.

Ser Igreja é ser como Dom Luciano; é ser vida, é ser gente, é ser povo. Ser Igreja é construir o Reino.

Padre Paulo Barbosa

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Dom Luciano mais próximo dos altares: sessão de encerramento da fase diocesana do processo de beatificação é realizada em Mariana

A sessão pública de encerramento com as formalidades canônicas da fase diocesana do processo de beatificação do Servo de Deus, Dom Luciano Pedro Mendes de Almeida, foi realizada na última sexta-feira (15), no Santuário de Nossa Senhora do Carmo, em Mariana. Os documentos do processo serão encaminhados ainda nesta segunda-feira(18) para a nunciatura apostólica, que se encarregará de levar para Roma.

A cerimônia foi iniciada com uma missa em ação de graças, presidida pelo administrador apostólico de Mariana, Dom Geraldo Lyrio Rocha, e concelebrada pelo bispo auxiliar emérito de Brasília, Dom João Evangelista Martins Terra, da Companhia de Jesus, pelo bispo auxiliar de Belo horizonte, Dom Geovane Luís da Silva, pelo bispo de Leopoldina, Dom José Eudes Campos do Nascimento e alguns padres. Estiveram presentes familiares e amigos de Dom Luciano, além de padres jesuítas.

Reconhecendo o empenho dos membros do tribunal estabelecido para o processo, o promotor de Justiça, Dom Geovane Luís da Silva, informou que durante os quase quatro anos que perdurou a fase diocesana, cerca de 70 sessões foram realizadas e mais de 60 pessoas foram ouvidas, dentre elas, cristãos leigos e leigas, religiosos e religiosas, padres e membros do episcopado brasileiro.

O administrador apostólico de Mariana, Dom Geraldo, também agradeceu o tribunal, na pessoa de monsenhor Roberto Natali, juiz delegado do processo, destacando a “dedicação sem limites” de todos que o compuseram. “Não podemos deixar de expressar gratidão profunda ao Papa Francisco, que se empenhou pessoalmente para que os organismos da Cúria Romana acolhessem a solicitação que a Arquidiocese de Mariana lhe dirigia com o processo de beatificação e canonização de Dom Luciano”, ressaltou.

Dom Geovane disse que o objetivo da Arquidiocese com o término do Processo em nível Arquidiocesano é que a Igreja, iluminada pelo Espírito Santo, avalie a documentação e identifique a palavra que o Senhor quer transmitir através da vida e testemunho do Servo de Deus.

Os membros que compõem o tribunal, o administrador Apostólico, o juiz delegado, o promotor de justiça, o postulador na fase diocesana, Cônego Lauro Sérgio Versiani Barbosa, e os notários, padre Edmar José da Silva e Edite Reis da Paciência, prestaram juramentos colocando a mão sobre a Bíblia e assinaram a ata da sessão. No final da cerimônia, as mais de 6 mil páginas que formam o processo e a ata foram inseridas dentro de uma arca de madeira lacrada com o sinete de Dom Geraldo, aplicado sobre a cera derretida, que permanecerá guardada na Cúria. Outras duas cópias serão levadas para a nunciatura apostólica, ainda nesta segunda (18), pelo portador, Cônego Lauro Sérgio Versiani Barbosa.

De agora em diante, a causa segue para a fase romana, sendo de competência da Santa Sé, o juízo sobre a santidade. O postulador da fase romana será o padre Pascual Cebollada, SJ, Postulador Geral da Companhia de Jesus, nomeado por Dom Geraldo. “Estão também em andamento os trabalhos de tradução para o italiano dos depoimentos. Este trabalho está confiado a tradutores juramentados do Arsenal da Paz (Sermig), em Turim, na Itália”, informou Dom Geraldo.

Antes de declarar encerrada a sessão, o administrador apostólico ressaltou que a última palavra a respeito da declaração de santidade de Dom Luciano é a do Santo Padre e anunciou que as notícias de graças alcançadas podem ser dadas ao Tribunal.

Reconhecimento

Na homilia da missa em ação de graças, Dom Geraldo, comparou a experiência do encontro de Dom Luciano com Deus com a do profeta Elias, que viveu de forma profunda as bem-aventuranças, narradas na proclamação do Evangelho (Mt 5,1-12). “O papa Francisco, na exortação apostólica, Gaudete et Exsultate, nos recorda as bem-aventuranças como um caminho para a santidade. Como Dom Luciano buscou encarnar em sua vida essa mensagem tão forte do Evangelho de Jesus, a Arquidiocese de Mariana se sentia motivada a solicitar a Sé Apostólica a permissão para se instaurar o processo de beatificação daquele que foi o 4º Arcebispo desta igreja particular, de quem eu tive a grande honra de suceder como 5º Arcebispo”, destacou.

O postulador da fase arquidiocesana, Cônego Lauro Sérgio Versiani Barbosa, destacou durante a sessão de encerramento que a vida de Dom Luciano, as funções que ele desempenhou e os serviços realizados “sublinham a relevância eclesial” da sua Causa de Beatificação. “A trajetória humana e espiritual de Dom Luciano evidencia o triunfo da graça de Deus em sua vida, tudo realizando para a maior glória de Deus e bem dos irmãos. […]  Na configuração a Jesus Cristo, [Dom Luciano] aceita uma vida sem privilégios, partilhada, solidária na dor, abraçando a cruz. Sua vida se tornou parábola do Evangelho de Jesus”, afirmou.

A advogada Antônia Accarino Mucciolo, conhecida como Toninha, que trabalhou com Dom Luciano por cerca de 30 anos, diz ter revivido durante a sessão as memórias que guarda dele. “Eu o ajudava muito em missão quando ele era bispo auxiliar de São Paulo, ajudava na agenda dele e, depois, na época da doença, eu o acompanhei no hospital. Estar aqui fez passar na minha cabeça toda uma história. Uma história de graça. Dom Luciano era um santo, a gente quando fala de santo acha tão longe e ele viveu tão perto de nós, realmente foi uma graça muito grande”, reconhece.

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O Servo de Deus Dom Luciano: luz para a Igreja no Brasil

Louvo a Deus pela vida virtuosa de Dom Luciano e pelo excelente trabalho desenvolvido pelo Tribunal Eclesiástico de Mariana sob a orientação sábia de Dom Geraldo Lyrio Rocha e conduzido pelo incansável e competente Delegado Episcopal, Monsenhor Roberto Natali Starlino!

A relevância eclesial da Causa de Beatificação de Dom Luciano é pública e notória e vem sendo reafirmada desde a solicitação à Santa Sé para a abertura do Processo. Lembro que em 2011 Dom Geraldo Lyrio Rocha encaminhou o pedido a Roma acompanhado do apoio escrito de mais de 300 bispos da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, de todos os Regionais da CNBB. Trata-se de fato único e que por si só patenteia a importância eclesial da Causa.

A vida de Dom Luciano, as funções que desempenhou e os serviços realizados por ele sublinham a relevância eclesial desta Causa de Beatificação. A trajetória humana e espiritual de Dom Luciano evidencia o triunfo da graça de Deus em sua vida, tudo realizando para a maior glória de Deus e bem dos irmãos. A sua espiritualidade foi fortemente cristocêntrica e trinitária, com notável marca mariana, procurando sempre sentir e agir na comunhão eclesial, a serviço dos mais sofredores: pobres, tristes, pecadores, marginalizados e excluídos de qualquer espécie. Permitam-me citar o que pude dizer na abertura do Processo de Beatificação na fase diocesana no dia 27 de agosto de 2014 na Catedral de Mariana e que hoje vejo corroborado pelas mais de 6 mil páginas do processo concluído.

A sua profunda experiência de Deus, começada no seio de sua família, aprofundada e consolidada na Companhia de Jesus, provada e radicalizada na vivência rica e diversificada de seu ministério episcopal, desafiada e aumentada pela configuração à Cruz de Jesus Cristo no acidente que quase lhe tirou a vida e na dolorosa enfermidade que o levou, faz dele um modelo de discípulo missionário de Jesus Cristo para os nossos dias. Em nome de Jesus, cultivou toda a sua gratidão a Deus pelo amor recebido na gratuidade de uma vida feita para ajudar. Ajudar cada pessoa a encontrar Deus. Sim, não tenhamos dúvida em afirmá-lo! É disso que se tratava. Em seus gestos mais simples de ajuda, em seu olhar e em seu sorriso, o que desejava e deixava transparecer era a ternura e o amor de Deus: “Deus é bom! É bom ser bom!”. A gratuidade do amor de Deus que experimentou, encontrou a sua gratidão total na gratuidade de sua vida doada, na alegria de servir por amor. Ajudar: ajudar a todos! Ver Deus em cada um e cada um em Deus. Ajudar a Igreja a ajudar. Servidor competente e dedicado, sem ingenuidades, mas sem confundir meios e fins. Era minucioso, atento, sensível, caprichoso, mas sabia muito bem o que era o principal: a justiça, a misericórdia e a fidelidade. O primado do amor a Deus e ao próximo orientava a sua vida. Por isso acreditava, perdoava e esperava diante de cada pessoa. Não viveu na ociosidade, não perdia ocasião para fazer o bem. No seguimento de Jesus e a exemplo de Paulo, foi um missionário incansável.

Dom Luciano, sempre na fidelidade a Jesus e “sentindo com a Igreja”, ajudou a Igreja do nosso tempo a ser a Igreja da misericórdia, da opção preferencial pelos pobres, pecadores e sofredores de todo tipo.

A espiritualidade de Dom Luciano é marcada pelo encontro pessoal e eclesial com Jesus Cristo. Contempla o esvaziamento de Jesus, a vida oculta em Nazaré, a solidariedade com os pequenos, pobres e pecadores. Na configuração a Jesus Cristo aceita uma vida sem privilégios, partilhada, solidária na dor, abraçando a cruz. Sua vida se tornou parábola do Evangelho de Jesus. Considero a oração composta por Dom Luciano e impressa na lembrança da celebração de seu Jubileu de Prata Episcopal em 2001 a expressão sintética e madura de sua espiritualidade, como disse acima: cristocêntrica, trinitária, mariana, de comunhão eclesial e de alegre serviço aos irmãos em meio às provações da vida.

Senhor Jesus, não vos pedimos que nos livreis das provações, mas que nos concedais a força do vosso Espírito para superá-las em bem da Igreja. A certeza do vosso amor nos renova a cada dia. A alegria de servir aos irmãos é a nossa melhor recompensa. Ensinai-nos, a exemplo de nossa Mãe, a repetir sempre SIM no cumprimento da vontade do Pai. Amém!

Hoje, neste tempo bonito e desafiador da vida da Igreja, comunidade de discípulos missionários de Jesus, sob a presidência na caridade do profético Papa Francisco, que nos confirma na fé e convida a ser uma Igreja pobre para os pobres, contemplamos o testemunho de santidade do Servo de Deus Dom Luciano Pedro Mendes de Almeida como luz para a caminhada da Igreja no Brasil!

Cônego Lauro Sérgio Versiani Barbosa

Pároco

Postulador na Fase Arquidiocesana do Processo de Beatificação de Dom Luciano Pedro Mendes de Almeida

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A Eucaristia, a Igreja e os Pobres

Côn. Lauro Sérgio Versiani Barbosa

O Papa Francisco, no seguimento de Jesus, expressou claramente o seu desejo de “uma Igreja pobre para os pobres” (EG 198). A instituição da Eucaristia na Última Ceia é um dos atos fundacionais da Igreja por parte de Jesus. Ela se insere numa cadeia de refeições de Jesus com os pobres e pecadores, demonstrando a vontade de Deus de acolher a todos em seu Reino (Mt 14,13-21; Mc 6,31-44; Lc 9,10-17; Jo 6,1-13; Mt 15,32-39; Mc 8,1-10; Mc 2,15-17; Lc 5,27-32; Lc 7,36-50; Lc 15,1-32; Lc 19,1-10). Por outro lado, a Última Ceia se distingue da tradição do estar à mesa de Jesus com os seus, não só por ser a sua despedida, mas por ser o pleno cumprimento e atualização do tempo da salvação, que a Igreja confessa com assombro reverente em sua liturgia: “Eis o Mistério da Fé” (Mysterium Fidei)! “Anunciamos, Senhor, a vossa morte e proclamamos a vossa ressurreição. Vinde, Senhor Jesus!” (Missal Romano).

“A Igreja celebra a Eucaristia, mas a Eucaristia faz a Igreja” é um axioma clássico da Teologia da Eucaristia. A Igreja vive da Eucaristia, nos recordava São João Paulo II, a Eucaristia é o “próprio núcleo do mistério da Igreja” (EE 1). Desde os seus primórdios a Igreja se reúne diariamente para a refeição em comum, conforme lemos nos Atos dos Apóstolos (At 2,46; At 6,1), continuando o que Jesus inaugurou com o seu gesto e as suas palavras: “Fazei isto em memória de mim” (Lc 22,19; 1 Cor 11,25). Assim, a Igreja é a comunidade messiânica que celebra a memória do Senhor, proclamando a obra da salvação e suplicando ao Senhor que a leve a bom termo. A Eucaristia é o sacramento da autodoação salvífica de Jesus Cristo. Trata-se do seu “dom por excelência” (EE 11). Memorial da paixão, morte e ressurreição de Jesus, que deu a vida por todos nós e inaugurou definitivamente o reinado de Deus na história, na força do Espírito para glória do Pai. A Eucaristia não só evoca o acontecimento central da nossa salvação, mas o torna presente e atuante, penhor da glória futura: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6,54).

Assim se expressa o Concílio Vaticano II a propósito do mistério da Eucaristia: “Na Última Ceia, na noite em que foi entregue, nosso Salvador instituiu o Sacrifício Eucarístico de Seu Corpo e Sangue. Por ele perpetua pelos séculos, até que volte, o Sacrifício da Cruz, confiando deste modo à Igreja, sua dileta Esposa, o memorial de sua morte e ressurreição: sacramento de piedade, sinal de unidade, vínculo de caridade, banquete pascal, em que Cristo nos é comunicado em alimento, o espírito é repleto de graça e nos é dado o penhor da futura glória” (SC 47).

Portanto, a Eucaristia torna sacramentalmente presente e atuante o sacrifício reconciliador de Cristo no Calvário, oferecido ao Pai por toda a humanidade. A este sacrifício se associa a Igreja que celebra a Eucaristia, oferecendo-se com e alimentando-se do Corpo de Cristo, fundamento da unidade-diversidade da própria Igreja (LG 11). No banquete eucarístico, “a eficácia salvífica do sacrifício realiza-se plenamente na comunhão, ao recebermos o corpo e sangue do Senhor” (EE 16). O Senhor nos alimenta, nos concede o seu Espírito e faz de nós um só corpo, edificando a sua Igreja (1 Cor 10,17). Esta Igreja é chamada a dar a vida pelos irmãos no seguimento de Jesus. A comunidade que participa do banquete eucarístico deve se tornar o corpo vivo do Senhor Ressuscitado. Já dizia o teólogo Joseph Ratzinger em 1963: “a meta suprema da Eucaristia não é a transformação dos dons… é a transformação dos homens viventes no corpo de Cristo”. A Eucaristia como refeição fraterna e festiva, memorial da Páscoa do Senhor, compromete a vida na solidariedade com os que sofrem: os pobres, os pecadores, os enfermos, os excluídos e marginalizados de todo o tipo. A Eucaristia é, pois, promessa de uma humanidade nova, possui um significado escatológico. Quem comunga do Corpo e Sangue do Senhor tem uma responsabilidade histórica de transformação deste mundo, até com o sacrifício da própria vida, a exemplo e fortalecido pelo sacrifício de Jesus, para que o mundo seja de Deus na fraternidade do Reino.

Pela Eucaristia a Igreja é o corpo do Ressuscitado, a comunidade de fé que oferece a vida pelos outros em solidariedade, inclui os pobres e marginalizados, dá testemunho profético do Reino de Deus, cultivando a memória subversiva de Jesus e continuando a sua presença no mundo para a salvação de todos. A Igreja é “o povo reunido na unidade do Pai e do Filho e do Espírito Santo” (São Cipriano, apud. LG 4). O Pai é aquele que revelou o Reino aos pobres e pequenos no Espírito Santo (Mt 11,25-27; Lc 10,21-22). O Espírito Santo é aquele que ungiu Jesus para evangelizar os pobres (Lc 4,14-22). A presença de Cristo na Igreja pela Eucaristia possibilita que ela reconheça a presença de Cristo no pobre (Mt 25, 31-46), se coloque no seguimento de Jesus, sob a Palavra de Deus, como servidora dos sacramentos e não proprietária deles, para ser a Igreja pobre e dos pobres na força do Espírito Santo. Esta deve ser uma característica fundamental da Igreja de Jesus Cristo, reconhecer Jesus nos pobres e sofredores: “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo” (GS 1).

O Servo de Deus Dom Luciano Mendes de Almeida em conferência no Congresso Eucarístico de Florianópolis (2006), pouco antes de sua morte, dizia: “A Eucaristia é preparada por Jesus com as multiplicações do pão e dos peixes, transmitindo aos discípulos o dever de dar pão a quem tem fome. “Tive fome e me destes de comer” (Mt 25,40) e a palavra diante da multidão: “Dai-lhes vós mesmos de comer!”(Lc 9,13). É, pois, um dever básico da fraternidade que se estende a todos sem distinção”. E, mais adiante, Dom Luciano amplia o horizonte de atuação e aponta para o compromisso social de quem participa da Eucaristia: “a força da Eucaristia deve nos impulsionar para atitudes mais abrangentes e procurar transformar a sociedade por meio de leis e políticas públicas que modifiquem o sistema de acumulação doentia de bens aumentando a riqueza de poucos e segregando cada vez mais os pobres. A Eucaristia deve unir a comunidade a serviço dos mais pobres e habilitar os cristãos a contribuir para leis e medidas que garantam vida digna para todos: trabalho, salário justo e moradia”.

Assim, devemos nos interrogar sobre a qualidade de nossa vida sacramental e litúrgica, pessoal e comunitária, na perspectiva da fidelidade a Jesus Cristo. Não se pode contentar com uma espécie de intimismo religioso que não se comprometa com a transformação da sociedade à luz do Reino de Deus. Reduziríamos a Eucaristia e a Igreja, trairíamos a memória subversiva de Jesus. À luz da Conferência do Episcopado Latino-Americano e Caribenho de Aparecida (2007), das orientações da CNBB para a renovação das paróquias e das exortações e testemunho do Papa Francisco, devemos todos nos empenhar para que as nossas comunidades sejam missionárias e servidoras, no seguimento de Jesus, verdadeiramente corpo do Senhor ressuscitado no mundo a partir da Eucaristia celebrada e vivida.

Referências Bibliográficas

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Ano do Laicato VIII

Toda a atividade apostólica dos cristãos leigos e leigas deve fluir e receber força da caridade; algumas obras, porém, prestam-se, por sua própria natureza, a tornarem-se viva expressão dessa caridade. Cristo quis que elas fossem sinais da sua missão messiânica. O Concílio Vaticano II, no Decreto sobre o Apostolado dos Leigos(as), recorda que o maior mandamento da lei é amar a Deus de todo o coração, e ao próximo como a si mesmo (cf. Mt. 22, 37-40). Cristo identifica-se com os irmãos: «o fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes» (Mt. 25, 40). Ao mesmo tempo, ele fez da caridade o sinal dos seus discípulos: «nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros» (Jo. 13, 35). Por esse motivo, a Igreja não pode abrir mão das obras de caridade, mas as assume como seu dever e direito inalienável. A misericórdia para com os pobres e enfermos e as chamadas obras de caridade e de auxílio para socorrer as múltiplas necessidades humanas devem ser assumidas com grande empenho por parte da Igreja.

A atividade social dos cristãos deve atingir as necessidades de todos os seres humanos. Onde quer que se encontrem pessoas afligidas pelas tribulações ou pela doença, sofrendo o exílio ou prisão, e a quem faltam comida, vestuário, casa, atendimento à saúde, trabalho, educação, meios necessários para levar uma vida digna e humana, aí a caridade cristã deve se fazer presente. Sempre se deve ter presente a liberdade e dignidade da pessoa que recebe o auxílio e em tudo buscar o cumprimento das exigências da justiça e lutar para eliminar as causas dos males, e não apenas os seus efeitos, de tal modo que se busque superar a dependência, a exclusão e toda forma de dominação (cf. AA 8).

À luz desses ensinamentos do Vaticano II, os cristãos leigos e leigas redescobrem seu papel na ação sociotransformadora. Neste contexto, iluminadoras são as palavras dos bispos da América Latina e Caribe na Conferência de Aparecida: “Assumindo com nova força a opção pelos pobres, manifestamos que todo processo evangelizador envolve a promoção humana e a autêntica libertação sem a qual não é possível uma ordem justa na sociedade. Entendemos, além disso, que a verdadeira promoção humana não pode reduzir-se a aspectos particulares: Deve ser integral, isto é, promover todos os homens e o homem todo, a partir da vida nova em Cristo que transforma a pessoa de tal maneira que a faz sujeito de seu próprio desenvolvimento. Para a Igreja, o serviço da caridade é expressão irrenunciável de sua própria essência, assim como o anúncio da Palavra e a celebração dos sacramentos” (DAp 399).

Dom Geraldo Lyrio Rocha
Administrador Apostólico da Arquidiocese de Mariana

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Violência x Cultura de paz

Nesta guerra desigual, a violência parece vencer. Parece, porque quem pratica a violência sempre perde. Pode até achar que ganha. É o assassinato da vereadora, que defendia os direitos humanos, também de policiais. É a morte brutal, como foi em Mariana no distrito de Barro Branco, do pai na frente da família. É o casal encontrado morto com requintes de crueldade; é o(a) jovem, cujo corpo ficou tão desfigurado, que depois de violentado(a) e torturado(a) tornou-se irreconhecível. É a mãe ameaçada e agredida pelo filho de 14 anos, atraído e já tragado pela crueldade do mundo. E por aí vai…

Nem o sacrário da igreja de Pe Viegas e de outras capelas foram respeitados. O Santíssimo sacramento profanado e Jesus sofrendo mais ultrajes nos crucificados(as) de hoje. Em 2014, foram 59.627 assassinatos, praticamente a população de Mariana. A violência estrutural está presente no desvio dos recursos econômicos, que vêm dos impostos pagos pela população e mantêm no poder os que concentram, exploram e manipulam. O que seria para investir na educação, segurança e demais políticas públicas não chega onde deveria chegar. As cadeias superlotadas, insegurança, medo, descrença, desespero, indignação, revolta, indiferença. A CF 2018 chega ao domingo de ramos, sem atingir os objetivos específicos, como a superação da violência, a partir do diálogo, misericórdia e justiça, valorização da família e escola como espaços de convivência fraterna, de educação para a paz, identificação e reivindicação das políticas públicas, análise das múltiplas formas de violência provocadas pelo tráfico de drogas etc.

Houve celebração das vias sacras, penitência, eucaristia, passeatas, seminários, blocos de carnaval e escolas de samba com temáticas enfocando a realidade da violência e apelo pela paz. Entramos na semana santa. Jesus de Nazaré, o Messias enviado, sofreu pelos pecadores e santos, pobres e ricos, exploradores e explorados, perdoando quem o crucificava, entregando-se por entranhado amor, sendo obediente até a morte e morte de cruz. A Páscoa da nova e eterna aliança firmada no madeiro, antecipada na última ceia, é renovada em cada celebração dominical e diária. Pedimos ao cordeiro imolado, que tenha piedade de nós, nos perdoe e nos dê a paz. Por maiores que sejam nossas atrocidades, seu amor se expande-se e transforma os corações dos que se abrem à sua misericórdia e procuram ser irmãos de verdade.

Pe Geraldo Barbosa