Homilia do Cônego Lauro, feita na Missa de instalação do tribunal para a beatificação e canonização de Dom Luciano

Homilia de 27/08/2014

Memória de Santa Mônica / Leituras feriais: 2Ts 3,6-10.16-18; Sl 127; Mt 23, 27-32

Nesta semana a liturgia da Palavra nos faz refletir sobre a severa censura de Jesus aos escribas e fariseus devido a sua hipocrisia e incoerência no modo de viver. Há um contraste entre o exterior e o interior, entre a aparência piedosa e a fidelidade de coração ao Senhor. Os escribas e fariseus ocupam-se do que é secundário e descuidam do mais importante na Lei do Senhor: a justiça, a misericórdia e a fidelidade. Estão distantes do coração da Lei, que é o amor a Deus e ao próximo, como mostrou Jesus.

Por outro lado, a leitura de Paulo nos permite contemplar o verdadeiro ministério apostólico do discípulo de Jesus Cristo. O comportamento de Paulo é exemplar, realista, concreto, totalmente dedicado ao seu apostolado, podendo se apresentar como modelo a ser seguido na generosidade do empenho missionário, nas fadigas, na confiança em Deus, na delicadeza de não querer ser pesado a ninguém.

É claro que as leituras proclamadas são uma advertência para todos nós, discípulos de Jesus. Particularmente para nós que nos reunimos hoje na Catedral de Mariana para agradecer a Deus a vida doada de Dom Luciano e para a abertura da fase diocesana do seu processo de beatificação e canonização. Consola-nos saber que na vida de Dom Luciano Mendes de Almeida brilhou a coerência entre o exterior e o interior. A sua profunda experiência de Deus, começada no seio de sua família, aprofundada e consolidada na Companhia de Jesus, provada e radicalizada na vivência rica e diversificada de seu ministério episcopal, desafiada e aumentada pela configuração à Cruz de Jesus Cristo no acidente que quase lhe tirou a vida e na dolorosa enfermidade que o levou, faz dele um modelo de discípulo missionário de Jesus Cristo para os nossos dias. Em nome de Jesus, cultivou toda a sua gratidão a Deus pelo amor recebido na gratuidade de uma vida feita para ajudar. Ajudar cada pessoa a encontrar Deus. Sim, não tenhamos dúvida em afirmá-lo! É disso que se tratava. Em seus gestos mais simples de ajuda, em seu olhar e em seu sorriso, o que desejava e deixava transparecer era a ternura e o amor de Deus: “Deus é bom! É bom ser bom!”. A gratuidade do amor de Deus que experimentou, encontrou a sua gratidão total na gratuidade de sua vida doada, na alegria de servir por amor. Ajudar: ajudar a todos! Ver Deus em cada um e cada um em Deus. Ajudar a Igreja a ajudar. Servidor competente e dedicado, sem ingenuidades, mas sem confundir meios e fins. Era minucioso, atento, sensível, caprichoso, mas sabia muito bem o que era o principal: a justiça, a misericórdia e a fidelidade. O primado do amor a Deus e ao próximo orientava a sua vida. Por isso acreditava, perdoava e esperava diante de cada pessoa. Não viveu na ociosidade, não perdia ocasião para fazer o bem. No seguimento de Jesus e a exemplo de Paulo, foi um missionário incansável.

Dom Luciano, sempre na fidelidade a Jesus e “sentindo com a Igreja”, ajudou a Igreja do nosso tempo a ser a Igreja da misericórdia, da opção preferencial pelos pobres, pecadores e sofredores de todo tipo.

Hoje temos a alegria de dar início à fase diocesana de seu processo de beatificação e canonização. Tomemos a palavra forte de Jesus no Evangelho proclamado nesta liturgia como advertência e apelo. Empenharmo-nos pela beatificação e canonização de Dom Luciano deve comprometer-nos com a sua vivência radical do Evangelho de Jesus: o primado do amor a Deus e ao próximo na busca da justiça, da misericórdia e da fidelidade à Palavra de Deus. Em comunhão com toda a Igreja, abertos ao que o Espírito Santo nos tem dito com o Papa Francisco e a sua Evangelii Gaudium, com a Conferência de Aparecida, com as orientações da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB e com os sinais dos tempos, busquemos ser uma Igreja “em saída missionária”, em direção às periferias sociais, culturais e existenciais. Perguntemo-nos honestamente, existencialmente: em que podemos ajudar? A partir de tantas graças recebidas de Deus, particularmente da vida e ministério de Dom Luciano, disponhamo-nos com mais generosidade a nos lançar na aventura de servir por amor no seguimento de Jesus!

A vida de Dom Luciano é parábola do Evangelho de Jesus, como acontece com a vida dos santos. Dom Luciano nos ensinou a assumir o “olhar de Deus” em relação ao mundo, às pessoas e a nós mesmos. Trata-se do olhar da fé. Permitam-me ilustrá-lo apenas com uma cena ocorrida em Mariana, em dezembro de 2002. Um jovem tentou roubar uma casa lotérica e deparou com um policial à paisana. Houve troca de tiros: Praça da Sé, Rua Direita. O jovem foi ferido. A médica que passava pelo local correu para socorrê-lo, cumprindo o seu dever profissional. Dom Luciano, que estava em reunião na Cúria, diante dos tiros e do ferimento, saiu ao encontro do assaltante. A cena foi captada por fotografia publicada em jornal local. O policial com a arma direcionada para o assaltante, a médica prestando-lhe os primeiros socorros e o bispo inclinando-se com o olhar voltado para o jovem e dirigindo-lhe a palavra: “meu filho!” O olhar do assaltante e o olhar do bispo se encontram: acolhimento amoroso, dor e arrependimento. O olhar do bispo e a sua palavra representavam o olhar paterno de Deus…

Ao assumir a função de postulador da Causa de Beatificação e Canonização de Dom Luciano em sua fase diocesana, dirigi-me à cripta e diante do túmulo de Dom Luciano rezei e pedi a sua ajuda. Fui direto ao ponto, pensando em convencê-lo a colaborar: “para o senhor não acrescenta nada, pois já se encontra na glória do Pai, mas para nós, para a Igreja que está a caminho, é importante, é uma bênção, um estímulo…”

Dom Luciano deixou-nos uma imagem de Igreja ministerial e samaritana, a serviço do Reino de Deus, sem triunfalismos e disposta a carregar a cruz na configuração ao Senhor como serviço à vida e à esperança.

Como acontece com os santos, com Dom Luciano nós aprendemos um pouco mais o jeito de Jesus. Verdadeiramente ele viveu e nos ensinou “In Nomine Iesu!”

Cônego Lauro Sérgio Versiani Barbosa
Postulador

Posted in Homilia.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.