brasao-mariana

Mensagem de Dom Airton sobre as Eleições 2018

O arcebispo de Mariana, Dom Airton José dos Santos, divulga orientações quanto a participação das Paróquias, Comunidades, Pastorais, Movimentos, Associações, organismos e de todos os fiéis cristãos, no pleito eleitoral de 2018. Leia a mensagem na íntegra:

Por mercê de Deus e da Santa Sé Apostólica
Arcebispo Metropolitano de Mariana

Aos Srs. Párocos e Administradores Paroquiais, em suas Paróquias e, a todos os Presbíteros;
Aos Diáconos, Religiosos e Religiosas e todo o povo de Deus

ORIENTAÇÃO QUANTO A PARTICIPAÇÃO DE NOSSAS PARÓQUIAS, COMUNIDADES, PASTORAIS, MOVIMENTOS, ASSOCIAÇÕES, ORGANISMOS E DE TODOS OS FIÉIS CRISTÃOS, NO PLEITO ELEITORAL DE 2018.

Caríssimos Irmãos e irmãs!

  1. Estamos nos aproximando do pleito eleitoral deste ano de 2018. Nele, vamos eleger o Presidente da República; os Governadores dos Estados; os Deputados Estaduais e Federais e os Senadores da República. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB, em nota sobre as eleições deste ano, publicada em sua 56ª. Assembleia Geral, realizada em Aparecida, SP, no último mês de abril, lembrou a responsabilidade dos cidadãos e das comunidades eclesiais no pleito que ora se aproxima.

  2. A Igreja, como lemos na nota, “não pode nem deve ficar à margem na luta pela justiça” (Papa Bento XVI – Deus caritas est, 28). Por isso, ressalta que, “neste ano eleitoral, o Brasil vive um momento complexo, alimentado por uma aguda crise que abala fortemente suas estruturas democráticas e compromete a construção do bem comum, razão da verdadeira política. A atual situação do País exige discernimento e compromisso de todos os cidadãos e das instituições e organizações responsáveis pela justiça e pela construção do bem comum”. Por isso, não podemos deixar de lado a tradição da Doutrina Social da Igreja que considera a participação na política uma forma elevada do exercício da caridade – uma maneira exigente de viver o compromisso cristão a serviço do próximo. (Papa Paulo VI, Octogesima adveniens, 46).

  3. Contudo, diante de tanto descredito com relação a política, adverte-nos o Papa Francisco: “muitas vezes, a própria política é responsável pelo seu descrédito, devido à corrupção e à falta de boas políticas públicas” (Laudato Sì, 197). De fato, a carência de políticas públicas consistentes, no país, está na raiz de graves questões sociais, como o aumento do desemprego e da violência que, no campo e na cidade, vitima milhares de pessoas, sobretudo, mulheres, pobres, jovens, negros e indígenas.

  4. Mas não nos deixemos vencer pelo desânimo e pelo negativismo. Assim nos animam, as palavras contidas na nota de nossa Conferência Episcopal: “as eleições de 2018 têm sentido particularmente importante e promissor. Elas devem garantir o fortalecimento da democracia e o exercício da cidadania da população brasileira. Constituem-se, na atual conjuntura, num passo importante para que o Brasil reafirme a normalidade democrática, supere a crise institucional vigente, garanta a independência e a autonomia dos três poderes constituídos – Executivo, Legislativo e Judiciário – e evite o risco de judicialização da política e de politização da Justiça.

  5. Como cidadãos, conscientes de nossa responsabilidade pela construção do futuro de nosso Brasil, procurando superar as ideologias e interesses particulares, façamos deste rico momento de participação, uma jornada, na qual, candidatos e eleitores, busquemos o bem maior do País, comprometendo-nos a não abrir mão dos princípios éticos e dos dispositivos legais; do compromisso de acompanhar os que forem eleitos e participar efetivamente da construção de um país justo; de promover a lisura do processo eleitoral, fazendo valer as leis que o regem, particularmente, a Lei 9840/1999 de combate à corrupção eleitoral mediante a compra de votos e o uso da máquina administrativa, e a Lei 135/2010, conhecida como “Lei da Ficha Limpa”, que torna inelegível quem tenha sido condenado em decisão proferida por órgão judicial colegiado.

  6. Neste Ano Nacional do Laicato, queremos lembrar o que disse o Santo Padre, o Papa Francisco, em sua Mensagem aos participantes do encontro de políticos católicos em Bogotá, ocorrido em dezembro de 2017: “há necessidade de dirigentes políticos que vivam com paixão o seu serviço aos povos, (…) solidários com os seus sofrimentos e esperanças; políticos que anteponham o bem comum aos seus interesses privados; que não se deixem intimidar pelos grandes poderes financeiros e midiáticos; que sejam competentes e pacientes face a problemas complexos; que sejam abertos a ouvir e a aprender no diálogo democrático; que conjuguem a busca da justiça com a misericórdia e a reconciliação”.

  7. Por isso, é fundamental, conhecer e avaliar as propostas e a vida dos candidatos. Não merecem ser eleitos ou reeleitos candidatos que se rendem a uma economia que coloca o lucro acima de tudo e não assumem o bem comum como sua meta, nem os que propõem e defendem reformas que atentam contra a vida dos pobres e sua dignidade. São igualmente reprováveis candidaturas motivadas pela busca do foro privilegiado e outras vantagens.

  8. Assim, estimados irmãos e irmãs, repetimos e reafirmamos o que está na exortação dos Bispos do Brasil em sua nota: façamos “desse momento difícil uma oportunidade de crescimento, abandonando os caminhos da intolerância, do desânimo e do desencanto”.

  9. A Igreja, em sua missão de evangelizar, tem a responsabilidade de iluminar as consciências dos cidadãos, despertando as forças espirituais e promovendo os valores sociais, através da pregação e do testemunho. Uma manifestação inequívoca desse empenho, encontramos na Encíclica do Papa Bento XVI, Deus caritas est, que exorta os cristãos leigos a assumirem compromissos na política, também partidária (n.29). Esta tarefa é de competência exclusiva dos fiéis leigos e leigas. “Os Clérigos são proibidos de assumir cargos públicos que implicam participação no exercício do poder civil (Cân. 285, §3).

  10. Como discípulos missionários de Cristo, encontramos reforço no Documento de Aparecida que inspira a ação da Igreja na formação das consciências (n.406). Por isso, como temos a responsabilidade de iluminar as consciências a respeito das próximas eleições, entramos no campo dos critérios de discernimento, dentre os quais, apresentamos alguns:

     Respeito ao pluralismo cultural e religioso;
    • Compromisso ético dos candidatos;
    • Compromisso decisivo na defesa da vida e da família;
    • Compromisso com a liberdade de iniciativa no campo da educação, da saúde e da ação social, em parceria com as organizações comunitárias;
    • Qualidades imprescindíveis: honestidade, competência, transparência, vontade de servir ao bem comum, comprovada por seu histórico de vida.

  11. Quanto aos fiéis leigos que se candidatam a cargos públicos, o Pároco ou Administrador Paroquial e a própria comunidade de fé, deverão acompanhá-los de perto. Este acompanhamento deverá ser continuado se a pessoa for eleita. Contudo, se a pessoa que se torna candidata exerce alguma função de destaque na Paróquia ou comunidade, o Pároco ou Administrador Paroquial deverá orientar para que, no período da campanha eleitoral, ela se afaste da função que exerce para não criar divisão na comunidade de fé e entre os batizados.

  12. Os Párocos e Administradores Paroquiais cuidem para que os espaços da Paróquia ou comunidade não sejam utilizados por atividades que possam denotar privilégio ou proteção a alguma sigla partidária. Nas Missas, celebrações, reuniões ou algum outro evento, não se dê a palavra a candidatos e nem se permita que circulem panfletos ou qualquer tipo de propaganda eleitoral. Também não se forneçam listas de endereços ou de contatos dos membros dos vários conselhos e coordenações da Paróquia.

  13. Como Arcebispo dessa porção do Povo de Deus, incentivo nossas Paróquias com suas Comunidades, Pastorais, Movimentos, Associações e Organismos eclesiais, a assumirem, à luz do Evangelho, a dimensão política da fé, a serviço do Reino de Deus. E que o Senhor “nos conceda mais políticos, que tenham verdadeiramente a peito a sociedade, o povo, a vida dos pobres” (Papa Francisco – Evangelii gaudium, 205).

  14. Que o Espírito Santo nos inspire tudo o que for bom e justo para a glória de Deus Pai, e que o Evangelho de Cristo seja luz para os nossos passos. Vamos nos empenhar na tarefa de ajudar a construir a sociedade justa, fraterna e solidária, confiantes na intercessão de Nossa Senhora da Assunção, nossa Padroeira.

    Com sentimentos de Pastor, asseguro, a todos, minha proximidade espiritual e concedo-lhes uma especial bênção!

Mariana, 07 de setembro de 2018

Dom Airton José dos Santos
Arcebispo Metropolitano

 

28012996617_68eef21c3f_z - Cópia

O Servo de Deus Dom Luciano: luz para a Igreja no Brasil

Louvo a Deus pela vida virtuosa de Dom Luciano e pelo excelente trabalho desenvolvido pelo Tribunal Eclesiástico de Mariana sob a orientação sábia de Dom Geraldo Lyrio Rocha e conduzido pelo incansável e competente Delegado Episcopal, Monsenhor Roberto Natali Starlino!

A relevância eclesial da Causa de Beatificação de Dom Luciano é pública e notória e vem sendo reafirmada desde a solicitação à Santa Sé para a abertura do Processo. Lembro que em 2011 Dom Geraldo Lyrio Rocha encaminhou o pedido a Roma acompanhado do apoio escrito de mais de 300 bispos da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, de todos os Regionais da CNBB. Trata-se de fato único e que por si só patenteia a importância eclesial da Causa.

A vida de Dom Luciano, as funções que desempenhou e os serviços realizados por ele sublinham a relevância eclesial desta Causa de Beatificação. A trajetória humana e espiritual de Dom Luciano evidencia o triunfo da graça de Deus em sua vida, tudo realizando para a maior glória de Deus e bem dos irmãos. A sua espiritualidade foi fortemente cristocêntrica e trinitária, com notável marca mariana, procurando sempre sentir e agir na comunhão eclesial, a serviço dos mais sofredores: pobres, tristes, pecadores, marginalizados e excluídos de qualquer espécie. Permitam-me citar o que pude dizer na abertura do Processo de Beatificação na fase diocesana no dia 27 de agosto de 2014 na Catedral de Mariana e que hoje vejo corroborado pelas mais de 6 mil páginas do processo concluído.

A sua profunda experiência de Deus, começada no seio de sua família, aprofundada e consolidada na Companhia de Jesus, provada e radicalizada na vivência rica e diversificada de seu ministério episcopal, desafiada e aumentada pela configuração à Cruz de Jesus Cristo no acidente que quase lhe tirou a vida e na dolorosa enfermidade que o levou, faz dele um modelo de discípulo missionário de Jesus Cristo para os nossos dias. Em nome de Jesus, cultivou toda a sua gratidão a Deus pelo amor recebido na gratuidade de uma vida feita para ajudar. Ajudar cada pessoa a encontrar Deus. Sim, não tenhamos dúvida em afirmá-lo! É disso que se tratava. Em seus gestos mais simples de ajuda, em seu olhar e em seu sorriso, o que desejava e deixava transparecer era a ternura e o amor de Deus: “Deus é bom! É bom ser bom!”. A gratuidade do amor de Deus que experimentou, encontrou a sua gratidão total na gratuidade de sua vida doada, na alegria de servir por amor. Ajudar: ajudar a todos! Ver Deus em cada um e cada um em Deus. Ajudar a Igreja a ajudar. Servidor competente e dedicado, sem ingenuidades, mas sem confundir meios e fins. Era minucioso, atento, sensível, caprichoso, mas sabia muito bem o que era o principal: a justiça, a misericórdia e a fidelidade. O primado do amor a Deus e ao próximo orientava a sua vida. Por isso acreditava, perdoava e esperava diante de cada pessoa. Não viveu na ociosidade, não perdia ocasião para fazer o bem. No seguimento de Jesus e a exemplo de Paulo, foi um missionário incansável.

Dom Luciano, sempre na fidelidade a Jesus e “sentindo com a Igreja”, ajudou a Igreja do nosso tempo a ser a Igreja da misericórdia, da opção preferencial pelos pobres, pecadores e sofredores de todo tipo.

A espiritualidade de Dom Luciano é marcada pelo encontro pessoal e eclesial com Jesus Cristo. Contempla o esvaziamento de Jesus, a vida oculta em Nazaré, a solidariedade com os pequenos, pobres e pecadores. Na configuração a Jesus Cristo aceita uma vida sem privilégios, partilhada, solidária na dor, abraçando a cruz. Sua vida se tornou parábola do Evangelho de Jesus. Considero a oração composta por Dom Luciano e impressa na lembrança da celebração de seu Jubileu de Prata Episcopal em 2001 a expressão sintética e madura de sua espiritualidade, como disse acima: cristocêntrica, trinitária, mariana, de comunhão eclesial e de alegre serviço aos irmãos em meio às provações da vida.

Senhor Jesus, não vos pedimos que nos livreis das provações, mas que nos concedais a força do vosso Espírito para superá-las em bem da Igreja. A certeza do vosso amor nos renova a cada dia. A alegria de servir aos irmãos é a nossa melhor recompensa. Ensinai-nos, a exemplo de nossa Mãe, a repetir sempre SIM no cumprimento da vontade do Pai. Amém!

Hoje, neste tempo bonito e desafiador da vida da Igreja, comunidade de discípulos missionários de Jesus, sob a presidência na caridade do profético Papa Francisco, que nos confirma na fé e convida a ser uma Igreja pobre para os pobres, contemplamos o testemunho de santidade do Servo de Deus Dom Luciano Pedro Mendes de Almeida como luz para a caminhada da Igreja no Brasil!

Cônego Lauro Sérgio Versiani Barbosa

Pároco

Postulador na Fase Arquidiocesana do Processo de Beatificação de Dom Luciano Pedro Mendes de Almeida

PadreGeraldoBarbosa

Violência x Cultura de paz

Nesta guerra desigual, a violência parece vencer. Parece, porque quem pratica a violência sempre perde. Pode até achar que ganha. É o assassinato da vereadora, que defendia os direitos humanos, também de policiais. É a morte brutal, como foi em Mariana no distrito de Barro Branco, do pai na frente da família. É o casal encontrado morto com requintes de crueldade; é o(a) jovem, cujo corpo ficou tão desfigurado, que depois de violentado(a) e torturado(a) tornou-se irreconhecível. É a mãe ameaçada e agredida pelo filho de 14 anos, atraído e já tragado pela crueldade do mundo. E por aí vai…

Nem o sacrário da igreja de Pe Viegas e de outras capelas foram respeitados. O Santíssimo sacramento profanado e Jesus sofrendo mais ultrajes nos crucificados(as) de hoje. Em 2014, foram 59.627 assassinatos, praticamente a população de Mariana. A violência estrutural está presente no desvio dos recursos econômicos, que vêm dos impostos pagos pela população e mantêm no poder os que concentram, exploram e manipulam. O que seria para investir na educação, segurança e demais políticas públicas não chega onde deveria chegar. As cadeias superlotadas, insegurança, medo, descrença, desespero, indignação, revolta, indiferença. A CF 2018 chega ao domingo de ramos, sem atingir os objetivos específicos, como a superação da violência, a partir do diálogo, misericórdia e justiça, valorização da família e escola como espaços de convivência fraterna, de educação para a paz, identificação e reivindicação das políticas públicas, análise das múltiplas formas de violência provocadas pelo tráfico de drogas etc.

Houve celebração das vias sacras, penitência, eucaristia, passeatas, seminários, blocos de carnaval e escolas de samba com temáticas enfocando a realidade da violência e apelo pela paz. Entramos na semana santa. Jesus de Nazaré, o Messias enviado, sofreu pelos pecadores e santos, pobres e ricos, exploradores e explorados, perdoando quem o crucificava, entregando-se por entranhado amor, sendo obediente até a morte e morte de cruz. A Páscoa da nova e eterna aliança firmada no madeiro, antecipada na última ceia, é renovada em cada celebração dominical e diária. Pedimos ao cordeiro imolado, que tenha piedade de nós, nos perdoe e nos dê a paz. Por maiores que sejam nossas atrocidades, seu amor se expande-se e transforma os corações dos que se abrem à sua misericórdia e procuram ser irmãos de verdade.

Pe Geraldo Barbosa

dom_geraldo01

Ano do Laicato VI

Os cristãos leigos e leigas exercem sua missão movidos pela fé, esperança e caridade, “virtudes que o Espírito Santo derrama no coração de todos os membros da Igreja. Mas, o preceito do amor, que é o maior mandamento do Senhor, estimula todos os fiéis a que procurem a glória de Deus, pela vinda do seu reino, e a vida eterna para todos os seres humanos” (AA 3).

Ensina ainda o Concílio Vaticano II que o Espírito Santo, que opera a santificação do Povo de Deus por meio do ministério e dos sacramentos, concede dons particulares aos fiéis leigos e leigas, para exercerem sua missão, (cfr. 1 Cor. 12, 7), «distribuindo-os a cada um conforme lhe apraz» (1 Cor. 12, 11), a fim de que «cada um ponha ao serviço dos outros a graça que recebeu» e todos atuem, «como bons administradores da multiforme graça de Deus» (1 Pd. 4, 10), para a edificação, no amor, de todo o corpo (cfr. Ef 4, 1). A recepção desses dons do Espírito Santo confere a cada um dos leigos o direito e o dever de atuá-los na Igreja e no mundo (cf AA 3).

Jesus Cristo é a fonte e a origem de todo o apostolado da Igreja. “Sendo assim, é evidente que a fecundidade do apostolado dos leigos e leigas depende da sua união vital com Cristo, segundo as palavras do Senhor: “aquele que permanece em mim e eu nele, esse produz muito fruto; pois, sem mim, nada podeis fazer” (Jo. 15, 5). Esta vida de íntima união com Cristo na Igreja é alimentada pelos auxílios espirituais comuns a todos os fiéis e, de modo especial, pela participação ativa na sagrada Liturgia” (AA 4).

Os cristãos leigos são chamados a avançar no caminho da santidade e não separem da própria vida a união com Cristo, mas busquem sempre ligar fé e vida. Esta vida exige o exercício constante da fé, da esperança e da caridade. “Só com a luz da fé e a meditação da palavra de Deus pode alguém reconhecer sempre e em toda a parte a presença e a ação de Deus.Em tudo, observem o que diz o Apóstolo Paulo: “Impelidos pela caridade que vem de Deus, pratiquem o bem com relação a todos, sobretudo para com os irmãos na fé (cfr. Gl. 6, 10), despojando-se «de toda a malícia e engano, hipocrisias, invejas e toda a espécie de maledicências» (1 Pd. 2, 1). Agindo assim todos serão atraídos a Cristo Jesus.

O amor de Deus que «foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi dado» (Rm. 5, 5), torna os leigos capazes de exprimir em verdade, na própria vida, o espírito das Bem-aventuranças. Seguindo a Cristo pobre, não se deixem abater com a falta dos bens temporais nem se exaltem com a sua abundância; imitando a Cristo humilde, não sejam cobiçosos da glória vã (cfr. Gl. 5, 26), mas procurem mais agradar a Deus que aos homens, sempre dispostos a deixar tudo por Cristo (cfr. Lc. 14, 26) e a sofrer perseguição pela justiça (cfr. Mt. 5, 10), lembrados da palavra do Senhor: «se alguém quiser seguir-me, renegue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me» (Mt. 16, 24). Finalmente, fomentando entre si a amizade cristã, preste mutuamente ajuda em todas as necessidades.

Esta espiritualidade dos leigos deverá assumir características especiais, conforme seu estado de vida. O modelo perfeito desta vida espiritual e apostólica é a bem-aventurada Virgem Maria” (cf. AA 4).

Dom Geraldo Lyrio Rocha
Arcebispo de Mariana

“Não tenhas medo, que Eu estou contigo” (Is 43, 5). Comunicar esperança e confiança, no nosso tempo.

O papa Francisco sempre nos inspira a ações que edificam em todos os âmbitos e faz-nos refletir a partir de situações concretas do nosso tempo. Percebemos que “o acesso aos meios de comunicação possibilita a muitas pessoas ter conhecimento quase instantâneo das notícias e divulgá-las de forma capilar. Estas notícias podem ser boas ou más, verdadeiras ou falsas. Já os nossos antigos pais na fé comparavam a mente humana à mó da azenha que, movida pela água, não se pode parar. Mas o moleiro encarregado da azenha tem possibilidades de decidir se quer moer, nela, trigo ou joio. A mente do homem está sempre em ação e não pode parar de ‘moer’ o que recebe, mas cabe a nós decidir o material que lhe fornecemos”.

Desse modo, encoraja-nos, seja no âmbito profissional seja nas relações pessoais, em meio a tantas informações, para oferecermos algo bom a quantos se alimentam dos frutos da nossa comunicação. “A todos quero exortar a uma comunicação construtiva, que, rejeitando os preconceitos contra o outro, promova uma cultura do encontro por meio da qual se possa aprender a olhar, com convicta confiança, a realidade”.

É urgente romper o círculo vicioso da angústia e deter a espiral do medo, resultante do hábito de se fixar a atenção nas notícias más (guerras, terrorismo, escândalos e todo o tipo de falimento nas vicissitudes humanas). Não se trata, naturalmente, de promover desinformação onde seja ignorado o drama do sofrimento, nem de cair num otimismo ingênuo que não se deixe tocar pelo escândalo do mal. “Aliás, num sistema comunicador onde vigora a lógica de que uma notícia boa não desperta a atenção e, por conseguinte, não é uma notícia, e onde o drama do sofrimento e o mistério do mal facilmente são elevados a espetáculo, podemos ser tentados a anestesiar a consciência ou cair no desespero”.

É preciso que sejamos criativos e para oferecermos aos homens e mulheres do nosso tempo relatos permeados pela lógica da boa notícia. “Para nós, cristãos, os óculos adequados para decifrar a realidade só podem ser os da boa notícia: o ‘Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus’”.

Através da força do Espírito Santo, podemos ser testemunhas e comunicadores de uma humanidade nova, redimida. Quem, com fé, se deixa guiar pelo Espírito Santo, torna-se capaz de discernir em cada evento o que acontece entre Deus e a humanidade, reconhecendo como Ele mesmo, no cenário dramático deste mundo, esteja compondo a trama de uma história de salvação. Por conseguinte, as pessoas que se deixam conduzir pela Boa Notícia no meio do drama da história, tornam-se como que faróis na escuridão deste mundo, que iluminam a rota e abrem novas sendas de confiança e esperança. O mês da comunicação nos motiva a ir além e comunicar esperança e confiança, avante!

Pe. Edir Martins
Paróquia Santana em Guaraciaba e
Assessor de Comunicação da Arquidiocese de Mariana

Perfeito como o Pai Celeste

Jesus fecha o Sermão da Montanha com esta recomendação: “Sede perfeitos como é perfeito o vosso Pai celeste” (5,48). Esta ordem de Cristo nos reporta ao que está no Livro dos Levitas: “Sede santos como eu o Senhor vosso Deus sou santo” (Lv 19,2). No Levítico há uma série de preceitos morais, o que se acha também no discurso do Redentor que mostra aos seus seguidores uma maneira cristã de se comportar. Para o cristão procurar a perfeição é realizar o desejo de Cristo numa busca ininterrupta de santidade, porque Deus é infinitamente perfeito. Todos os batizados são chamados a esta perfeição e o amor que se tem para com Deus e para com o próximo é o caminho. O apelo à santidade é universal para todos os seguidores de Cristo, como bem acentuou o Concílio Vaticano II. As normas de comportamento decorrem de uma relação com Aquele que é o Caminho, a Verdade e a Vida. Já antes de Cristo, porque o povo de Deus era o povo escolhido, Deus estabeleceu uma relação especial com Israel e lhe deu uma moral, uma maneira de viver e de se comportar. Porque Jesus nos convida a sermoa filhos bem-amados do Pai, Ele também nos oferece uma maneira de existir cristã. A síntese de tudo é o amor ao semelhante sem nenhuma exceção e o amor ao Pai celeste. Jesus explicou: “Para serdes verdadeiramente os filhos do vosso Pai que está nos céus (Mt 5,45). Cumpre, portanto, em primeiro lugar, que cada um reconheça sua verdadeira identidade que é ser filho ou filha do Senhor Onipotente. Eis aí a incrível distinção que é recebida no dia do Batismo. Eis o clamor de São Leão Magno: “Reconhece, ó cristão, a tua dignidade. Uma vez constituído participante da natureza divina, não penses em voltar às antigas misérias da tua vida passada. Lembra-te de que cabeça e de que corpo és membro. Não “te esqueças de que foste libertado do poder das trevas e transferido para a luz e para o Reino de Deus». É preciso então que o cristão cresça sempre na prática de todas as virtudes, amparados pelos Sacramentos da Penitência e da Eucaristia, vivendo numa total união com Deus. São Paulo atingiu o grande ideal e pôde dizer aos Gálatas: “Já não sou eu quem vive é Cristo quem vive em mim” (Gl 2,20). Esta experiência espiritual não é reservada a alguns, mas a todos os batizados. Estes devem deixar a vida divina se expandir completamente na sua existência numa luta contínua contra o pecado e na fuga de todas as ocasiões que levam ao mesmo. Para isto é amar segundo o coração de Deus. Amor que não exclui ninguém, amor oblativo que é o dom de si mesmo e que conduz à perfeição divina. Desde toda a eternidade o Pai se dá ao Filho e o Espírito Santo é a circulação do amor entre o Pai e o Filho. Deste amor resultou a criação de tudo que existe, pois como ensinou Santo Tomás de Aquino, “o Bem é de si difusivo”. Este Deus “faz nascer o seu sol sobre maus e bons e chover sobre justos e injustos”, mostrando que o amor que se deve ao próximo não pode ter limites. Deus propõe a cada um entrar plenamente no seu projeto de amor, sendo verdadeiramente seus filhos e filhas. O amor de Deus, segundo São Paulo, “se encontra largamente difundido nos nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5,5). Na Carta aos Coríntios este Apóstolo nos lembra que somos “o Templo do Espírito Santo e que o Espírito de Deus habita em nós” (1 Cor 3,26). Compreende-se então por que devemos nos amar mutuamente, como ensinou Jesus para que se possa procurar ser perfeito como o Pai celeste é perfeito.

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho
Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos