A Ressurreição de Jesus

A fé cristã nasce desta experiência: a experiência do encontro com o Cristo Vivo! Diz o Apóstolo Paulo: se Cristo não ressuscitou, ilusória é a vossa fé; ainda estais nos vossos pecados. Por conseguinte, aqueles que adormeceram em Cristo, estão perdidos. Se temos esperança em Cristo somente para esta vida, somos os mais dignos de compaixão de todos os homens. Mas não! Cristo ressuscitou dos mortos primícias dos que adormeceram (1 Cor 15,17-20). É o Vivente que veio e vem ao nosso encontro, Aquele que dá vitalidade e fundamento à nossa fé. O cristianismo não é, em primeiro lugar, um belo conjunto doutrinal ou sistema filosófico ou teológico, ou ainda um impressionante acontecimento histórico que atravessa os séculos e se expressa na vida de gerações de povos com uma riqueza de cultura, arte, fé e caridade que o tornam respeitável e digno de credibilidade. O cristianismo é Cristo ressuscitado! O cristianismo se concentra na Pessoa de Jesus Cristo, compreendido à luz da sua ressurreição. A ressurreição ilumina toda a vida de Jesus e dá a chave de compreensão de toda a Sagrada Escritura, revelando quem é Deus e o ser humano!

A Igreja vive da alegria pascal! Somos os transmissores desta alegria pascal de geração em geração e a celebramos na solene liturgia. A ressurreição do Senhor ascendeu a nossa fé e nos confiou a missão de anunciadores da Boa Nova: a vida tem futuro, a morte e o pecado foram vencidos! Deus é amor que veio a nós em Jesus e refaz a sua criação a partir da ressurreição daquele que é o “primogênito dentre os mortos” (Cl 1,18) e “primícias dos que adormeceram” (1 Cor 15,20), convidando-nos a subir ao Pai na força do Espírito Santo que nos foi dado! A ressurreição de Jesus permitiu perceber que tudo o que Jesus fez e ensinou é revelação de Deus e da vocação do ser humano. Não podemos mais viver senão para Aquele que nos amou e deu a vida por nós e que o Pai ressuscitou na potência do Espírito Santo, para que todos tenhamos a vida em plenitude! Mais: Ele está no meio de nós, nos envia em missão e caminha conosco!

A ressurreição de Jesus Cristo é um fato inaudito e desconcertante que só pode ser expresso em linguagem simbólica. Não é um acontecimento neutro, mas inseparável da fé-adesão. Trata-se de uma realidade meta-histórica que exige perspectiva própria. Nem a ciência, nem a história, são adequadas para falar da ressurreição. O ato da ressurreição não foi presenciado por ninguém. É um acontecimento que se dá entre Jesus e o Pai pelo poder do Espírito Santo. O acontecido com Jesus se tornou acessível a nós porque Ele quis manifestar-se. Temos o testemunho dos Apóstolos que fizeram a experiência fundante e proclamaram: “Ele vive!”. Nessa experiência, os que temos fé fomos introduzidos.

O Novo Testamento registra vários esforços distintos de transmitir a experiência da ressurreição. Temos as breves confissões de fé da Primeira Carta de Paulo aos Tessalonicenses (1 Ts 1,10; 4,14); a linguagem querigmática dos discursos de Pedro nos Atos dos Apóstolos e dos hinos das Cartas de Paulo (Fl 2,6-11; Cl 1,15-20) ou da tradição confessional expressa no credo de 1 Cor 15,3-8: Eu vos transmiti primeiramente o que eu mesmo havia recebido: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras; foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras; apareceu a Cefas, e em seguida aos Doze. Depois apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma vez, dos quais a maior parte ainda vive e alguns já são mortos; depois apareceu a Tiago, em seguida a todos os apóstolos. E, por último de todos, apareceu também a mim, como a um abortivo. Este credo da Igreja primitiva conservado e transmitido por Paulo, torna evidente a inserção da ressurreição de Cristo na história da salvação, através da expressão repetida “segundo as Escrituras”. Temos ainda a tradição narrativa dos relatos evangélicos de aparição e do túmulo vazio. Os relatos de aparição constituem narrativas ricas em simbolismos e não podem se confundir com relatos biográficos. Possuem gênero literário próprio, com estrutura que pode ser bem delineada. Partem da experiência humana que “descobre” uma situação nova, por iniciativa de Jesus que se manifesta, se faz ver (At 1,3). A manifestação de Jesus desencadeia um processo (manifestação de Jesus, busca de compreensão, adesão na fé; cf. Lc 24,13-35), que tem como resultado o reconhecimento da identidade entre o Jesus terrestre ou crucificado e o ressuscitado, isto é, a experiência supõe a memória do vivido com Jesus anteriormente. Em seguida, a experiência implica mandato de missão: ser testemunha do ressuscitado.

Também o relato do túmulo vazio (Mc 16,1-8; Mt 28,1-8; Lc 24,1-10; Jo 20,1-10) não se explica pela realidade do túmulo vazio. Há necessidade de uma palavra de interpretação que o vincula à experiência da Galiléia, ou seja, ao vivido com Jesus, à comunidade de fé, à periferia do mundo. É pela palavra interpretativa que se passa do “ver” para o “crer”. O túmulo vazio não é prova, mas sinal.

Os relatos evangélicos de aparição do ressuscitado e do túmulo vazio nos apontam para a vida de Jesus. Expressam a identidade entre o ressuscitado e o terrestre ou crucificado, o que foi percebido através de um processo lento de transformação das testemunhas do ressuscitado, a partir da iniciativa de Jesus. O medo e o desânimo que tomaram conta dos discípulos, diante do desastre da paixão e morte de Jesus, foram vencidos pela manifestação do ressuscitado. Reconhecer Jesus ressuscitado significa não só uma referência à memória do vivido com Jesus, mas também uma experiência de “encontro” com a “vida nova” que se manifesta em Jesus (1 Cor 15; Lc 24,36-48). É preciso considerar a realidade da ressurreição, a experiência dos discípulos e a linguagem utilizada para comunicar o fato. Trata-se de expressar o encontro com o ressuscitado, realidade nova que ultrapassa os limites do espaço e do tempo. Por iniciativa de Jesus ressuscitado, os discípulos fazem a experiência de que Ele vive (se apresenta, vem…) num estado totalmente novo, numa nova dimensão. A experiência da ressurreição do Senhor nos foi transmitida em linguagem simbólica e o testemunho dos Apóstolos nos introduz na mesma experiência. A fé na ressurreição é adesão ao novo sentido da vida e morte de Jesus, aceitando-o como centro da própria vida.

São Paulo afirma que o Pai ao ressuscitar Jesus disse sim a todas as promessas que o precediam. Deus Pai toma posição em relação à vida de Jesus: ao ressuscitá-lo o Pai diz de que lado está. O Pai não disse nada na paixão e morte porque havia dito tudo antes, durante a vida de Jesus, mas diz de que lado está com a ressurreição. Jesus entrou na vida plena de Deus. Trata-se de intervenção semelhante à da criação, vida recriada. Quando o Pai ressuscita Jesus, está confirmando toda a vida de Jesus. Uma vida de amor-serviço como a de Jesus não podia ficar prisioneira da morte! Com a ressurreição de Jesus pode-se acreditar na força dos pequenos e fracassados. O gesto do Pai nos dá esperança. O mundo foi transformado na sua raiz com a ressurreição. Não só a causa, mas a vida de Jesus com tudo o que significou é glorificada. Agora sabemos com clareza que Jesus é o Filho de Deus que se fez homem e venceu o pecado e a morte por uma vida de fidelidade ao Pai no amor até o fim e por isto foi glorificado (cf. Fl 2,6-11)!

Cônego Lauro Sérgio Versiani Barbosa.