Uma reflexão sobre a Paixão de Jesus: o que o seu legado nos ensina?

Estamos aproximando da semana santa, tempo forte da nossa fé. Neste ano, as celebrações ganham alguns aspectos diferenciados para todo o povo de Deus. Trata-se de uma vivência espiritual de grande configuração ao sofrimento da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor. Muitos dos nossos irmãos e irmãs vivem, hoje, o calvário em suas vidas. A nossa fé nos chama, também, para a contemplação e vivência da Paixão Redentora de Jesus. O chamado de Deus é para que cheguemos diante do Calvário, contemplemos e meditemos um pouco mais sobre a paixão e morte de Jesus.

Podemos dizer que a encarnação do Verbo chega ao seu ponto culminante na história da salvação. Este é, portanto, o ápice do mistério doloroso e glorioso da Paixão, morte e ressurreição do Senhor. O sofrimento e a entrega do Filho de Deus sublinham o extremo realismo da sua encarnação. Ele recapitula em Si a inteira realidade humana, sendo transformado de invisível em visível, de impassível em passível (sofredor), de imortal em homem mortal. Na sua paixão e morte se completam assim o escândalo da encarnação, como declara São Paulo: “Nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus, loucura para os pagãos” (1Cor 1,23).

A cruz constitui a dura rocha que sustenta a fé cristã. A cruz é a paradoxal e problemática identidade cristã nos confrontos das outras religiões. Jesus, que havia proclamado o reino de Deus, pareceu estar abandonado pelo Deus do Reino que ele anunciava. Aquele que tinha superado a lei foi rejeitado em nome desta lei. Aquele que tinha ajudado os outros a curar e libertar das potências demoníacas, morreu sem ser ajudado e nem defendido por ninguém. Aquele que tinha sempre operado como benfeitor do seu próximo, foi condenado a morrer como um malfeitor numa cruz em meio a dois ladrões. Aquele que tinha feito da sua vida um evento unicamente religioso, expiró fora da cidade santa e do seu templo.

Como afirma São Cirilo de Alexandria, padre da Igreja do século V, “Cristo apesar de sua natureza divina e sendo por direito igual a Deus Pai, não se prevaleceu de sua divina condição, mas humilhou-se até submeter-se à morte e morte de cruz. Realmente, sua paixão salutar abateu os principados e triunfou sobre os dominadores deste mundo e deste século, libertou a todos da tirania do diabo, e nos reconduziu a Deus. Suas chagas nos curaram e, carregado com os nossos pecados, subiu ao lenho; e deste modo, enquanto ele morre, nos sustenta na vida, e sua paixão se tornou a nossa segurança e muro de defesa. Aquele que nos resgatou da condenação da lei, nos socorre quando somos tentados. E para consagrar ao povo com seu próprio sangue, morreu fora da cidade”.

Neste tempo de pandemia, quarentenas, incertezas, dúvidas, inseguranças, violências, inquietações e crises de todos os níveis, proclamamos que a Paixão de Cristo, sua preciosa cruz e suas mãos perfuradas significam segurança para aqueles que creem n’Ele. Por isso Ele fala acertadamente: minhas ovelhas escutam minha voz e me seguem, e Eu lhes dou a vida eterna. E também: Ninguém pode arrebatá-las da mão de meu Pai. E isto justamente, porque vivem à sombra do Onipotente, protegidas pelo auxílio divino como em uma torre fortificada.

A proposta hoje não é mais crucificar o Cristo, mas sim aquilo que está nos crucificando, pois como nos fala Santo Ambrósio de Milão, “Carreguemos a cruz do Senhor para que, crucificando a nossa carne, destrua o pecado. Quem ama os preceitos (ensinamentos) do Senhor sujeita com cravos a própria carne, sabendo que, quando seu homem velho estiver com Cristo crucificado na cruz, será destruída a luxúria da carne, o orgulho, a autosuficiência humana, as vaidades, e tantos outros pecados de raiz. Cada um tenha coragem de colocar a sua carne  com os cravos na cruz e assim terá destruído os seus pecados. Está cravado com estes cravos quem morre com Cristo para ressuscitar com ele; está cravado com estes cravos quem leva em seu corpo a morte do Senhor Jesus. Que não nos escandalize a dureza dos cravos, pois é a dureza da caridade; nem nos assuste o poderoso rigor dos cravos, porque também o amor é forte como a morte. Na realidade, o amor dá morte à culpa e a todo pecado. Na verdade, quando amamos os ensinamentos do Senhor, morremos às ações vergonhosas e ao pecado.

A Paixão de Jesus teve causas históricas concretas e foi o desenlace final de uma vida que entrou em conflito com o sistema religioso-político estabelecido na sociedade daquele tempo. Jesus sempre lutou em favor da vida e contra tudo que atentava contra ela. O grande drama que Jesus sofreu foi não terem sabido ver a verdade n’Ele; não quiseram ver o que Ele fazia em favor da vida; não conseguiram ver a bondade e a compaixão em seu coração; não souberam ver Deus n’Ele. Preferiram a violência. Jesus teve duras experiências com as pedras, porque muitas vezes quiseram apedrejá-lo, embora ele sempre tenha conseguido livrar-se delas. Ele tem consciência de que as pessoas encontram justificativas para apedrejar os outros. Custa-nos reconhecer o que é bom nos outros; facilmente preferimos apedrejá-los com nossa críticas, murmurações, difamações. E assim são piores as pedras da língua que as pedras que atiramos com as mãos. Quem tem o coração duro e petrificado terá naturalmente pedras em abundância em suas mãos para atirar sobre os demais. Num coração petrificado, o Espírito não tem liberdade de atuar; dessa resistência à ação do Espírito brotam as doentias divisões internas, que atrofiam nossas forças criativas e nos distanciam da comunhão com tudo e com todos. Com isso nos blindamos, tornando-nos rígidos, petrificados em nossas posições, crenças, valores… e não nos deixamos impactar pelo novo, pelo diferente.

Chegar com o Cristo ao Calvário, tomando nossa cruz significa ter ouvido atento ao que ele mesmo diz: o que não carrega a sua cruz e não me segue, não é digno de mim. Em efeito, tomar a cruz significa renunciar a tantas propostas do mundo que não convém ao discípulo de Cristo. “Tomar a Cruz” e “Carregar a cruz” significa acolher aquilo que diariamente cruza o nosso caminho, abraçar, com todas as nossas forças e todas as nossas fraquezas, os sucessos e os fracassos, as coisas vividas e as coisas perdidas, o consciente e o inconsciente… Nesse sentido, a cruz deixa de ser um “peso morto”, ou seja, uma cruz vazia, sem sentido, in-sensata, pois fecha a pessoa em si mesma, em seu sofrimento e angústia; não aponta para o futuro, nem abre um horizonte de vida. Fazer o caminho contemplativo junto a Jesus que leva a cruz da fidelidade e chega ao Gólgota, ajuda-nos a romper com as cruzes que nos afundam no desespero, nos fracassos, nos traumas das experiências frustantes…

Dessa forma, os que seguem a Cristo estão também crucificados com ele: morrendo à sua antiga conduta, são introduzidos em uma vida nova conforme ao Evangelho: Por isso, afirmava Paulo: os que são de Cristo Jesus Crucificaram sua carne com suas paixões e concupiscências. E novamente, como que falando de si, exorta a todos: Na realidade, pela fé, eu morri para a lei, a fim de viver para DeusEstou crucificado com Cristo: Já não sou eu que vivo, mas Cristo vive em mim. E ainda, Cristo morreu pelos nossos pecados segundo as Escrituras (1Cor 15,3).

Queremos chegar com Jesus ao Calvário, e experimentar a mesma liberdade com a qual Ele viveu sua entrega pela salvação da humanidade. Pois a liberdade com a qual ele vai ao encontro da morte deriva do desejo de fazer a vontade do Pai. É, de fato, o Pai que entrega o Filho por amor. Também a obediência de Jesus ao Pai é expressão de amor (Rm 5,19): “É preciso que o mundo saiba que eu amo o Pai e faço aquilo que o Pai me mandou fazer” (Jo 14,31). A relação entre Deus e o homem não é mais definida pela desobediência de Adão (Rm 5,12-19), mas da obediência de Jesus até a morte. E assim destrói os nossos pecados, tornando-nos justos e santos diante de Deus. Por amor, Ele assume o destino do homem até à morte: “Jesus sabendo que era chegada a sua hora de passar deste mundo para o Pai, amou os seus que estavam no mundo, e os amou até o fim” (Jo 13,1). E o que nós buscamos celebrar, nestes dias, através deste grande mistério, é o amor de Deus Pai e do Filho Jesus pela salvação de toda a humanidade. Aqui está a verdadeira motivação do sacrifício cruento de Jesus na cruz.

A oração destes dias deve ser profundamente silenciosa: trata-se de acompanharmos Jesus no caminho em direção ao Gólgota e sua morte na cruz. Silenciar o corpo, a mente, o coração para contemplarmos a Paixão redentora do Senhor. No percurso solidário com Jesus e com os sofredores da história não encontramos o “Deus do poder”’ que se impõe, mas o “Deus do amor” que se expõe à maior das fragilidades, porque o amor significa admitir a possibilidade de ver-se recusado e rejeitado. Só na fragilidade do amor Deus manifesta sua força misericordiosa.

Diante da violência e do sofrimento Deus silencia, porque Ele se encontra junto às vítimas, não junto aos carrascos. Seu “silêncio”, porém, não é de tolerância, mas de amor compadecido e solidário. Amor  que tudo pode, mas não pode reagir à violência com violência igual ou maior. E continua sem poder impedir que a Paixão de Jesus continue acontecendo hoje. A resposta de Deus ao sofrimento não é escrita com tinta, mas com sangue , carne, sentimento, fragilidade.

Ao entrar no caminho da Paixão de Jesus, uma pergunta brota naturalmente: Onde está Deus em nossa experiência de sofrimento? Mas Deus desafia-nos a responder à sua própria pergunta: Onde está você no meu sofrimento? Ele revela, aos nossos olhos dolorosamente abertos, o mistério de sua própria presença em nosso sofrimento e morte dos seus filhos e filhas. É o Deus que se identifica com a dor do mundo, com a marginalização dos excluídos e com a desgraça de todos os miseráveis da terra. Não podemos chegar ao Deus de Jesus pelo caminho largo e fácil do poder e da razão, senão pela senda escarpada e dura da solidariedade e da loucura da cruz.

A questão determinante para nós cristãos está em buscar a Deus e crer na sua transcendência a partir da solidariedade com as vítimas, com os crucificados deste mundo e com os que necessitam de calor humano, compreensão, tolerância, companhia e carinho.Partindo da mensagem evangélica do amor-doação, podemos concluir que o único “sofrimento” que Deus quer é o que brota da luta contra o sofrimento. Deus quer o sofrimento somente quando é consequência de uma convicção e de um modo de viver que não suporta que os outros sofram. Foi exatamente isso que aconteceu com Jesus. E por isso o crucificaram. Somente a força do amor, da misericórdia e da entrega, que se faz capaz, como em Jesus, de suportar a mais extrema das debilidades, pode transformar o mundo.

Para concluir esta reflexão, voltemo-nos para a presença de Maria, a Mãe, que estava de pé junto à Cruz. Maria estava no Calvário, não apenas assistindo no meio do público, mas em lugar de destaque, ao pé da cruz, ao pé do Redentor. E, por isto, Jesus a entregou ao discípulo amado, representando a comunidade Igreja que nascia do Mistério da sua Páscoa: “Mulher, eis aí o teu Filho! Filho, eis aí tua Mãe!” (Jo 19, 26-27).

Na hora de sua morte, Jesus Cristo se lembra de nos dar a sua mãe para que fosse também a nossa mãe, a mãe de toda a humanidade, de todos os povos, da Igreja inteira. Todos nós somos chamados a sermos filhos de Deus, a sermos filhos de Maria; Maria nos ensina ao pé da cruz, que devemos estar sempre à disposição de Jesus Cristo para ajudá-lo a salvar o mundo. Maria soube emprestar o seu ventre para que Jesus pudesse nascer. Ela nos convida a acolhermos Cristo dentro de nós para podermos torná-lo presente no mundo.

Maria soube estar ao lado de seu filho sofredor, quando ele sentia só e abandonado. Assim, Maria nos ensina também a estar perto de cada irmão e irmã que sofre hoje. Maria nos ajuda a estar perto do pobre, das pessoas marginalizadas, da pessoa solitária e desesperada; perto do doente e do preso, perto do condenado e do castigado. Maria nos mostra, assim, que devemos estar perto de cada Jesus que sofre sua paixão, hoje.

Que cada um de nós possa ser, perto daquele que sofre, a presença de Maria, que cada um de nós possa receber de Maria essa missão de continuar assistindo e sustentando os sofredores, principalmente as vítimas da violência. Que nós possamos receber de Maria essa sublime missão, de enxugar as lágrimas, o suor e o sangue de todos os “Cristos” que estão sofrendo pelo mundo a fora.

Ela permaneceu a vida inteira com o Filho, ela conhece seu coração. Ela está muito sofrida: viu o Filho amado ser torturado, humilhado, abandonado pelos amigos. Viu-o ser morto violentamente, sem nenhuma misericórdia. Ela está ferida no mais profundo de seu ser porque sofreu nas entranhas a dor do Filho. Maria está triste, mas não desesperada. Ela não sabe, neste momento, ao certo o que acontecerá, mas conhece o coração do Filho e está cheia de esperança. Dizia Santo Agostinho: “Doía-lhe que tivesse sido morto injustamente Aquele a quem ela gerou virgem; mas esperava e cria firmemente que ressuscitaria ao terceiro dia, conforme o que fora prometido, vencida já a morte; entretanto, somente nela estava a fé da Igreja. Enquanto cada um vacilava e duvidava, ela, que com fé concebeu a fé, que uma vez recebeu de Deus e nunca a perdeu, com essa fé e com a esperança certíssima esperou a glória da ressurreição”.

O convite é, para que, durante esta semana santa, passemos este tempo com Maria, em sua solidão grávida de esperança viva…esperança por um mundo mais justo e fraterno a partir da paixão redentora de Nosso Senhor Jesus Cristo.

 

* Pe Adilson Luiz Umbelino Couto
Formador e Professor no Seminário São José – Mariana

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